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E hoje que era pra vir chuva...

Hoje é o dia da Paulista virar a maior putaria da face da terra. E São Paulo, terra da garoa e das enchentes, nesse dia arma o céu do azul mais lindo que meus olhos já puderam ver. Pra combinar com o arco-íris, com o glitter. Pra ajudá-los a desfilar pelas ruas da cidade mais gay do país.
Sim, meninas, vocês, paulistanas, têm que se conformar que estão na cidade mais gay de todas. Na cidade onde os que que não parecem são, os que parecem são mesmo, os que ainda não são têm curiosidade, e os que juram que nunca serão já provaram da fruta.
O mundo está no fim. Até Clodovil não aguentou. O que será que nos espera do outro lado do sono? Se for algo mais gay do que esse mundo, prefiro ficar por aqui mesmo. Será que o outro mundo tem saída?

besteirol






Uploaded with ImageShack.usHoje queria ter encontrado um Tic Tac da Copa do Mundo. Mas só achei o de maracujá com cereja. O que de todo não foi de todo mal, já que Tic Tac é o melhor calibrador de hemorróidas que eu conheço. Mas não sei porque senti vontade de saborear as balinhas verde e amarelas. Também quis comprar o LM prateado, mas infelizmente eu não fumo mais. Vi um arroz escuro e comprido, chamado arroz selvagem, mas acredito que uma comida tão selvagem caia melhor na barriga da onça. Vi várias cervejas importadas, e percebi que o brasileiro está consumindo bastante esse tipo de produto. Parece que novamente se dá valor ao estrangeiro, como nos tempos das músicas americanas. As cervejas brasileiras são ótimas, mas como as garrafas importadas são maiores e mais caras, as pessoas têm a sensação que é um produto diferente. Aqui em São Paulo as pessoas consomem de tudo. Quando alguém decidir praticar um atentado, nem vai precisar estourar uma bomba no metrô. É só montar uma barraca de dogão na 25 de março que já mata algumas centenas de nós. O paulistano é um ser curioso e esfomeado por natureza. As barracas de camelô que vendem alimentos trazem consigo um encardido próprio do sabor. Inclusive se não forem encardidas é que a gente desconfia. Barraca limpa demais é de lojista que decidiu invadir a praia do marreteiro. É dois palito pra gente boicotar esse tipo de folgado.

Olhar urbano

São Paulo é casa sem paredes
sem chaves
São Paulo é minha casa
Mas nem por isso a conheço
Dia sim dia não
Acabo me perdendo em suas curvas
Nos cruzamentos
E não raro sinto medo
De não chegar, de não me achar
Angústia por não ser tão grande quanto ela
E passo por corredores, abro portas
Espio janelas
(logo me encontro)
E tento correr - não consigo
É fila e fila e fila
Espera, reflete paciente
Sua vez vai chegar
(pode demorar)
Volto diferente
(vi tanta gente)
E paro, repenso a vida
(como posso ser tão distraída?)
Vivo aqui desde sempre
Mas não te sei.

Nossa cidade

o amor é importante. porra


Veja mais imagens clicando aqui

Vamos passear por São Paulo?

A cidade

Eu tenho outro blog, onde organizo o que encontro de bacana sobre São Paulo.
Como as pessoas já me conhecem como alguém que gosta de falar da cidade, me pedem informações sobre caminhos, ruas, textos, etc. Então montei uma página, onde posto o que encontro de interessante.

Ainda preciso organizar direitinho, porque os textos estão espalhados por toda parte, mas aos poucos vou dando um jeito em tudo.


Depois que arrumei uma máquina fotográfica, acabo encontrando pessoas na rua que me pedem pra tirar fotos e mandar pro e-mail delas. Será que isso acontece com todo mundo?

Na São Silvestre enviei pra um corredor de Recife, que demorou sete meses para me responder. Mas disse que por causa de gestos como esse é que ama nossa cidade mais e mais a cada ano.

Olha só que responsabilidade, né? Quando a gente faz uma grosseria ou uma gentileza a um turista, está representando uma cidade inteira, e se for pra um estrangeiro, exalta ou denigre o país inteirinho. Essa é uma boa oportunidade pra gente se tornar IMPORTANTE!

O blog é esse: www.spimagem.blogspot.com

É bom para fazer pesquisas escolares. E pra curtir a cidade um pouquinho.

(obs: O "Rei do Mate" começou na Ipiranga com a São João, na década de 70, bem antes da primeira filial, que foi aberta em 1992, na Galeria Metrópole ->http://www.reidomate.com.br/empresa_index.php)

Torresmo na Madrugada

Essa música é bem "SAMPA".

aperte o Play:
Rogerio Santos - Torresmo na Madrugada

Freguesia do Ó

Largo da Matriz, Freguesia do Ó

Aqui segue uma homenagem do amigo Rogerio Santos ao lindo bairro de São Paulo:
(aperte o PLAY)

são paulo porvir


São Paulo, se desarma de teus rótulos
e vem passear com a gente.
Desaperta a gravata, tira os óculos,
vamos brincar de Clark Kent!

Cultivar poderes de super-homens
na cidade que nunca dorme,
plantar no coração do povo
a alegria do novo.

São Paulo, não precisa ser bandeirante,
apenas mais tolerante.
Ninguém te obriga locomotiva,
um tantinho só mais emotiva.
São Paulo, não carecia tanta pujança,
um matiz de esperança que fosse.

Depois,
dorme
pela cantoria da Cantareira
e as promessas da Serra do Mar
aconchegada,

e sonha com o porvir.

Por Paulo D'auria

são paulos


São Paulos, são joãos e Josés
São Marias, são Claras e das Dores
São cidades armadas de concreto e aço
Nas vilas Marianas, Santanas, Moemas

São cidades-colagem de aglomerado e papelão
Sob as pontes das marginais
Automóveis de mil cavalos
Carroças movidas a gente

São Paulo esparramada subindo a Cantareira
Descendo até o mar
São Paulo amontoada subindo até o céu
E sob o metrô da Sé
Uma estação secreta para o inferno

Cidade que já morreu
E outra que ainda nem nasceu
São Paulos que eu amo
Todos os dias depois
De jurar eterno ódio

Seus homens de terno no asfalto ao verão
Mendigos ao relento nas madrugadas de inverno
As morenas da zona norte
As madames da zona sul
Orgulho na zona leste
Guaranis na zona oeste

Zona, zona, zona e esperança
Esperança, esperança, esperança e espelunca
Locomotiva desgovernada do Brasil
Porta do mundo, cidades mil

São Paulo tem mil cantos
São Paulo tem professor de esperanto
Se você quer falar javanês, vá a São Paulo
Se você quer falar cantão, vá a São Paulo
Se você quer falar baianês, vá a São Paulo
Se você quer falar ao coração, vá a São Paulo

Do Jaraguá tem vista
Para a Paulista
Na Paulista
Ninguém enxerga ninguém

Buzinas e mundo cão
Subindo e descendo a Consolação
Eu me perco na multidão

Mas lá no fundo um cocoricó, um Rincão
Eu nunca me sinto só
Na matriz da Freguesia do Ó

São Paulo e o Imperador da China




"O louco é como uma folha seca em dia de ventania.
É romântico, gosta de magia e prefere a incerteza da luz de vela ao ato inseguro de caminhar no escuro.
O louco é ousado, livre e solto.
E como um alquimista, vai desenhando seu próprio caminho, sem dar satisfação sequer à sua sombra.
Ah! Se todos fossem loucos!"

Vocês conhecem o Imperador da China? Não?
Ele é o cara mais bacana que eu já conheci em toda a minha vida.
Ele morava num hospício lá em Pequim. Isso mesmo - num hospício. Justamente por pensar que era o Imperador da China. Mas não era. Porque a China, como vocês sabem, já não tem imperador, há muitos anos.

Ele gostava de morar ali. Com ele, moravam mais uns dois Napoleões, um Elvis, e até mesmo Jesus. Ali, cada um podia ser o que quisesse. Ali, tudo era normal. Tudo era sossegado.
Mas ele não era assim doido, doidão, maluco de pedra.
Também gostava de coisas que todos nós gostamos, como flores, chocolate, desenhar, ver TV.

Não tem gente que nem gosta de chocolate?
Não tem gente que vê disco voador?
Não tem gente que fala sozinha?

Eu encontrei o Chian num dia em que estava lá em Pequim fazendo uma excursão com meus amigos.
Eu acabei me perdendo deles e depois de muito andar, acabei sentando pra descansar num banco, bem ao lado do hospício.
O Chian, que estava passeando com seu monociclo, logo que me viu veio conversar comigo e me perguntou em alto e bom português:

- Você é brasileira, não é?
- Sou sim! Como você adivinhou?
- Ah! Foi fácil! Eu sei de onde as pessoas vêm pelo cheiro.
- Pelo cheiro?
- É sim!
- Quem é você?
- Eu sou Chian, o grande Imperador da China!
(Quando ele falou isso, logo eu percebi que ele era meio maluquinho, mas não falei nada. E ele percebeu que eu percebi, mas também não falou nada)

- Então, se você é o grande Imperador da China, me conta: onde aprendeu a falar português?
- Eu não precisei aprender, eu já nasci sabendo! Nós, loucos, sabemos falar todas as línguas do mundo. As vivas e as mortas. Não precisamos aprender. Já nascemos sabendo.
- Mas, me conta: onde você mora Chian?
- Eu moro aqui nesse castelo!
(falou isso apontando para o manicômio)
- E você gosta de morar aí?
- Gosto sim, aqui é bem divertido. E você? Onde mora?
- Chian, eu moro em São Paulo.
- Em São Paulo? Que legal! E você gosta de morar lá?
- Ah Chian... tem dias que eu gosto, tem dias que não gosto...
- Como assim? Tem dias que gosta, tem dias que não gosta?
- Ah... não sei te explicar... é que lá é um lugar diferente.
- Lugar diferente? Obaaaa!!! Eu adoro desenhar lugares diferentes!
(nessa hora, aconteceu uma coisa incrível: O Chian tirou do bolso, magicamente, uma caixa de lápis de cor e uma folha de papel)
- Pronto! Pode me dizer como é sua cidade?

E agora? Olhando para o Chian, com os olhinhos brilhando, esperando que eu falasse sobre a cidade mais diferente do mundo...
O que falar sobre São Paulo a um menino tão especial?
... já sei!

"Chian, desenhe um horizonte, onde a vista não alcança.
Imagine arte, música e dança.
Um dia poluído, com o céu azul de doer.
As quatro estações no mesmo dia.
Uma cidade subterrânea, que existe, mas não se vê.
Ruas sujas, mas coloridas, de tão floridas.
Desconhecidos conversando e pessoas conhecidas se encontrando por acaso, no meio de uma multidão.
Os cheiros de restaurantes do mundo todo, misturados.
Um gari, recolhendo um jornal do chão e encontrando uma poesia, que conhecia de quando era criança.
Um poeta, que de tanto odiar a cidade, resolveu cantá-la.
Desenhe a pressa. Algo como pessoas subindo escadas-rolantes em movimento.
Shoppings, monumentos, lançamentos.
Grandes eventos.
Enfim Chian... imagine um lugar onde acontece tanta coisa ao mesmo tempo, que a impressão que se tem é que não está acontecendo absolutamente nada."

Chian, maravilhado pela descrição de uma cidade tão diferente, mostra seu desenho:
- É assim sua cidade?

(Após olhar algum tempo para o papel, primeiro com desconfiança e aos poucos, abrindo um sorriso)

- É sim Chian, parabéns! Seu desenho está perfeito! São Paulo é assim mesmo!

"Uma idéia, um ideal, muitos desejos. Incontáveis possibilidades.
Uma cidade que se reinventa a cada dia.
Existem tantas São Paulos que às vezes tropeçamos nelas.
Tantas, que podemos capturar apenas retalhos de algumas
que quando juntas, formam uma.
Somos nós que construímos essa cidade,
ao mesmo tempo em que ela também nos reconstrói."

- Ahhh Chian... agora eu tenho que ir... é que falar de São Paulo pra você me deu uma saudade...
Eu acho que vou voltar pra lá hoje mesmo!
- É mesmo? Você vai pra lá hoje? Jura? Me leva com você, por favor, por favor!
- Levar você comigo? Mas como? Você não tem passaporte, passagem, autorização...
- Ah! Isso não é problema! Eu me escondo no seu bolso!
- O que?
- É!!! Eu me escondo no seu bolso!
- O quê? Se esconde no meu bolso?
(Chian fala baixinho:)

- É!!! Eu me escondo no seu bolso!

(Enquanto falou isso, foi ficando pequenininho, pequenininho... até caber aqui, na palma da minha mão. Olhando pra Chian, escuto ele dizer:)

- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos!
(olho pro alto, e em volta, inclusive para o meu próprio corpo, digo:)
- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos?
(Pego Chian cuidadosamente e guardo, dentro do meu coração)

Foi assim, que eu fiz a maior loucura de toda a minha vida.
Foi assim, que eu trouxe Chian comigo, aqui pra São Paulo.
Vocês querem saber se ele gostou daqui, né?
É claro! Chian, adorou São Paulo. Tanto, que como muitos de nós, nunca mais quis ir embora.
É que aqui, aconteceu uma coisa que nem ele acreditou:

Aqui, ninguém acha que ele é louco.


Autores:

(História original de Luiz Brás, escrita com letras pretas.
A parte em roxo é de minha autoria.
A parte em vermelho é de Geraldo Ramiere
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/gr_sp.shtml
A parte em azul, é de autor desconhecido)


Escolhas

Morar em São Paulo deixa a sensação de que estamos sempre fazendo uma besteira. Eu explico: Há sempre muitos caminhos para se chegar ao mesmo lugar. Uns mais curtos, outros mais longos. Nem sempre o mais curto é a melhor escolha, porque pode estar congestionado. Sendo assim, vale mais o trajeto mais longo, porém mais livre. Só que nunca se sabe onde o congestionamento está. Geralmente está por toda parte, então, melhor escolher o mais curto. Mas enquanto estamos nele, ficamos pensando se o outro não seria mais rápido, o que é impossível de adivinhar. Também haveria a possibilidade de ir de ônibus, já que os corredores são livres. Ou de metrô, mais rápido ainda. Só que ambos são igualmente lotados, o que pode tornar a escolha a pior opção. Embora o transporte público seja mais econômico, até ele passar demora muito mais, então o barato pode sair caro. Sem falar no transtorno que é andar a pé até o destino. E chegar desalinhado ao encontro, pode ser a pior viagem.
Mas não só nas escolhas dos caminhos o paulistano se aflige. Aquela fila do mercado que nunca anda, é justamente a que a gente escolheu. O mesmo vale para a faixa de trânsito. E o que dizer de não conseguir encontrar alguém que preste numa cidade com tanta gente? São Paulo me dá a sensação de ter feito coisa errada, sempre. Porque eu perdi o show do artista e veio gente do Brasil todo só pra vê-lo. Porque tem tanta gente ganhando tanto dinheiro, mas eu não. O curso que eu fiz não foi naquele lugar tão bom.... com tantos aqui! Mas será que era esse curso mesmo que eu queria? Porque aqui tem tantos! Na hora de comprar um xampu fico nervosa, de tantos tipos. Na hora de pagar fica sempre aquele incômodo... seria esse mesmo o ideal para o meu tipo de cabelo? É tanta gente, tantos produtos, tantas opções... mas será que justamente por isso a gente tem mais desculpa por errar tanto? Ou é mais burro quando erra, porque não soube escolher direito? Dúvidas...

Sete de Abril

Vou aproveitar o final do dia para fazer uma homenagem para a rua Sete de Abril, no Centro de Sampa, aproveitando a data de mesmo nome. Essa rua é uma rua ótima, que liga a Pça da República ao metrô Anhangabaú.
Nela está a primeira empresa onde trabalhei.
Ela é sinistra, as pessoas andam pelas ruas e os carros passam de vez em quando.
A gente anda por ela procurando um número e como os prédios são encardidos e ficaram mais ou menos da mesma cor, quando vemos já passamos pelo endereço que estávamos procurando.
Conta com duas galerias de eletrônicos e outras bugigangas, além de interligar a Pça Dom José Gaspar à Barão de Itapetininga, rua famosa pelos artistas de rua, pela gritaria de evangélicos e por abrigar durante muitos anos o famoso Mappin.
A Sete de Abril é aquele tipo de rua pela qual milhares de pessoas passam, mas por estarem tão preocupadas em encontrar um teco de calçada para andar, acabam nem prestando atenção no nome dela.
É boa para cortar caminho. É boa porque não tem subida. Nem calçada. O melhor da Sete de Abril é que ela não é muito longa. Nem tão curta que não se possa chamar de rua.
O pedaço que eu mais gosto é o acesso que dá à praça. Dizem que nessa praça haverá um grande estacionamento. Se for mesmo verdade, vai ficar mais difícil ainda de andar na Sete de Abril.

Você passa por mim e não olha

- Onde fica essa rua?
- Eu não sei.
- Mas você não é daqui?
- Sou sim, moro aqui há muitos anos.
- Então, como não conhece essa rua? Me disseram que é por aqui.
- Esse nome não me é estranho, mas pra eu te dizer ao certo onde fica... não sei. É que a cidade é grande, o tempo é curto, e eu vivo viciado no mesmo caminho. É como no computador, onde navego sem conhecer os nomes dos menus e dos atalhos, simplesmente vou clicando aqui e ali e ali... Quando vou ver, cheguei ao destino, mas te dizer ao certo como fiz, eu não sei.
- É preciso conhecer a cidade onde mora, ao menos as ruas mais próximas!
- Eu sei disso, você tem razão! Mas é que o paulista conhece a Paulista, as Marginais, a 23, a Radial, as saídas pras estradas... Conhece as ruas principais, a rua onde mora, e a dos parentes, somente de cabeça. Ou a gente guarda o caminho de carro, o caminho do ônibus. Ou só o número. Quem não tem carro conhece melhor a cidade, porque os ônibus dão tantas voltas... Mas pra ensinar o caminho bem certinho, isso é impossível de fazer. Porque os nomes das ruas não ficam guardados, e o que a gente trilha a pé, muitas vezes é contramão. Nossas ruas conhecemos pelo barulho, pelas árvores. Nossa referência é a praça, o supermercado, aquele prédio de tijolinho... Quando aparece um lugar novo pra ir, geralmente consultamos o guia. E mesmo assim ainda se perde! É... o paulistano consulta o guia mesmo morando aqui a vida toda. E podemos viver duzentos anos, que nunca vamos conhecer nossa cidade. E nem é possível, porque todo dia tem uma rua nova, uma empresa nova. Tem horas que aparecem uns corredores de ônibus, umas zonas azuis. Morar aqui é viver num lugar que ninguém conhece. Nem a gente. E se for ver, ninguém se conhece. Também... conhecer gente numa cidade com tanta gente, é a coisa mais fácil que tem. Mas não conhecer assim, de conhecer de verdade. É um conhecer somente de vista, uma conversa animada, que muitas vezes acaba até sem despedida. Porque passa o ônibus, chega o amigo. Porque quando um vai embora o outro está ocupado, ou nem se lembra mais. Então, pra que preciso decorar o nome da rua? Se nessa cidade a gente se conhece de vista, se esbarra tão rápido, se encontra e se perde. Pra que decorar os nomes? Se o caminho muda o tempo todo, que dirá os nomes? Eu não conheço essa cidade, nem ela me conhece. Porque é tanta gente diferente, mas ao mesmo tempo tão igual. Mais ou menos como essas ruas, desconhecidas, pelas quais passamos todos os dias.

Que lixo!



Tá certo que a Prefeitura é incompetente. Tá certo que a roubalheira é demais.
Mas o povo é pior que a Prefeitura e a roubalheira. O povo é omisso e colabora com as enchentes, com a falta de cuidados com a cidade.

O povo ainda não entendeu que as calçadas e as ruas são públicas, locais feitos para as pessoas passarem e circularem!

Calçada não é privada, não é lata do lixo, não é lugar de cuspir, de fazer cocô e xixi (nem humanos nem animais).

Não é possível que numa cidade como São Paulo os moradores ainda não tenham a consciência cidadã de manterem as ruas limpas... impressionante como se joga bituca de cigarro, saquinho, como se passeia com o cachorrinho fazendo xixi pra todo lado (até mesmo nos portões, nos quintais, dentro das casas alheias) sem ficarem vermelhos!!!

Parece que quanto mais as pessoas estão ganhando dinheiro e tendo acesso aos produtos, mais desleixadas com a higiene estão ficando.

Pisamos nas ruas cheias de fezes e de urina e entramos em casa, pisamos nos tapetes, deixamos nossos sapatos em casa.

Os bebês engatinham, põem a mão na boca, ninguém tá nem aí!!!

É muita porquice pro meu gosto.

Que louco!

Quando minha professora disse para prepararmos uma história de formatura, logo pensamos se deveria ser infantil ou não. Como o horário da formatura e os convidados foram colocados como um enigma, o desafio proposto foi para que escolhêssemos uma história que fosse a "nossa cara".

Ah, que sacanagem... uma história que seja a minha cara? E eu sei lá que cara é essa... Como saber o que combina ou não comigo? Pois mudo de idéia o tempo todo, mudo de opinião, de pensamento... o que hoje eu gosto amanhã pode não fazer nenhum sentido... que história seria a minha cara?

Saí pela Livraria da Vila folheando tudo o que via pela frente, e até gostei de algumas historinhas que li - de pássaros a procura da própria identidade e especialmente de uma que mostrava o dia a dia de uma família, com pais, crianças e bichos de estimação, e cada capítulo era a visão que um tinha do outro. Desse livro eu gostei, pois mostrava diferentes enfoques da mesma situação e esse assunto é sempre interessante e fascinante.

Mas ponderei, só teria dez minutos, talvez não tivesse talento para fazer voz de cachorro, voz de criança. Como não nasci com o dom de imitar, deixei a historinha para lá.

Fui então a uma outra livraria na Fradique Coutinho, uma que é meio sebo, meio ponta de estoque, e tem sempre umas promoções incríveis na porta (livrinhos infantis por 2,00 3,00 reais). Bem, talvez essa livraria já fosse mais a minha cara, uma pelas promoções, outra pela liberdade que nos dá de zanzar e mexer em tudo, sem nenhum vendedor ficar o tempo todo querendo ajudar. E ali achei o livrinho de São Paulo e o Imperador da China, que logo pela capa já me cativou.

São Paulo me deu sorte em um concurso literário, então pus na cabeça que aquele assunto combinava comigo e abri o livrinho, feliz da vida, disposta a gostar mesmo que não fosse lá grande coisa. Mas o livro era legal, interessante, principalmente porque falava sobre um louco. Não sei se o que me cativou mais foi São Paulo ou o louco, mas talvez a deliciosa mistura dos dois juntos.

Não há como morar em São Paulo e não ficar meio louco. Não há lugar no mundo onde haja mais malucos. O final do livro deixava a desejar, mas logo que o comprei já compus um novo final para a história, dizendo que aqui em Sampa ninguém acha que o louco é louco. E pus poesia, e ajeitei de cá e de lá, até a história ficar "louca".

Depois do livro, onde todo mundo adorou a idéia de se sentir um louco em Sampa, pois aqui é lugar de gente diferente, passei a reparar nas loucuras de cada um, e esse é um assunto riquíssimo, que daria anos e anos de descrição.

Outro dia estava andando pela rua e encontrei um homem passeando com um cachorro. Ele parou ao lado de um bueiro, onde estava um monte de lixo jogado e se abaixou para pegar um palitinho de pirulito. Pegou o palitinho, sacudiu um pouquinho e foi embora, segurando o cachorro numa mão e o pirulito na outra.

Na São Silvestre tinha um rapaz que corria de costas. Não sei se queria que o ano não terminasse, que o ano que entrasse fosse o anterior àquele que acabara ou se estava apenas tentando endireitar a coluna (minha mãe me sugeriu esse método para ajeitar a postura).

Os motoristas de ônibus andam pelas ruas feito loucos, tem horas que dá até medo dentro do ônibus. Outro dia pensei que não chegaria viva, sinceramente. Mas o mais louco é que o doido do motorista não atropelou ninguém. Mais loucamente ainda ninguém caiu dentro do ônibus, todos conseguiram se segurar. E ainda mais esquisitamente, quando eu desci do ônibus sorri e agradeci, e no fundo pensei que foi até bom chegar ao destino tão rápido. Sem falar que o louco me pegou fora do ponto de ônibus, coisa que só louco faz hoje em dia, porque eles estão veementemente proibidos de fazer isso.

Outra loucura que vejo são pessoas que levam uma vida cheia de dívidas manterem cachorros semanalmente em pet shops, comprarem pacotes imensos e caros de rações e ainda terem que passar o tempo todo cheirando cocô e xixi, lavando e esfregando a sujeira, aguentando latidos altos e deixando de viajar. Tudo em nome do cãozinho.

Mais louco ainda é quando alguém pede informação na rua e está fácil informar, a rua é aquela ali, primeira à esquerda, e o cidadão vai lá e passa reto, ignorando totalmente nossa generosa colaboração. Sem falar quando checa a informação com quem está ao lado, ah... quando faz isso aí sim, deixa a gente louco da vida.

Loucura é carro novo ter que fazer inspeção de poluentes antes dos mais antigos, antes dos ônibus, carros-fortes (esses sim, deixam uma sujeira danada no ar). E mais loucura ainda é ter que pagar adiantado, para depois ter o dinheiro de volta. E louco da vida mesmo a gente fica quando escuta na televisão que esse serviço é gratuito. Coisa de louco, né?

Sampa é loucura o tempo todo. As enchentes agora aparecem magicamente, em dez minutos está tudo alagado. Mas no dia seguinte não é que tem louco jogando mais sujeira nas ruas, ignorando totalmente a desgraça do dia anterior? Ah, isso me deixa louca.

Raul Seixas, maluco beleza, se estivesse vivo já não seria tão louco. Quando visse crianças no mesmo ambiente, conversando pelo telefone celular, se acharia o cara mais normal do mundo.

Agora fica sempre aquela dúvida, né? Será que a loucura é mesmo do outro, ou é a gente que não consegue compreender um pensamento, uma atitude, uma postura diferente da nossa? Quem falou que todas as leis devem ser respeitadas? O que me garante que alguém não criou aquela norma para benefício próprio? Porque o louco é que está errado e a gente está certo? Acho que talvez seja preciso enlouquecer um pouco, para começar a achar que está tudo normal.

Homenagem ao motorista de ônibus



O apego ao que nunca foi meu

Eu sei que só conheci os atalhos por dentro dos bairros porque as avenidas estavam congestionadas.
Com isso, vi novas paisagens e conheci melhor a cidade.
Mas foi preciso que as avenidas ficassem intransitáveis.
Embora saiba que os atalhos são práticos e interessantes, nem sempre estou de bem com eles.
Nem sempre me são convidativos.
Claro que foi preciso chegar o dia de não ter o Chicabon na geladeira da padaria para que eu experimentasse o Cornetto.
Mas, embora o Cornetto fosse até mais gostoso, nem por isso fiquei contente de não ter encontrado o Chicabon.

Vai de ônibus?

Eu acho graça da vergonha que o paulistano tem de tomar ônibus. Especificamente o ônibus urbano.

Em tempos de aquecimento global e tsunamis, onde quem deveria estar sofrendo preconceito é o dono da perua cabine dupla que ocupa duas vagas no estacionamento, o usuário do transporte público ainda é alvo de chacotas.

Se for o ônibus da empresa, sem problemas. Os dos artistas, também agradam:

- Olha lá!!! O ônibus do Vitor e Léo!!!
- Olha ali... o ônibus com os jogadores do São Paulo!!!!!

Outro dia a Cátia Fonseca falou que era bom a pessoa entrar no consórcio, assim parava de tomar o busão. Logo ela, que junto com a Mama Bruschetta tem uma ferramenta tão bacana em mãos, que é o grande poder de comunicação. Ao invés de incentivarem as pessoas a impactarem menos no ambiente, se locomovendo de forma ecologicamente correta, reforçam o preconceito aos passageiros, insinuando que esse tipo de transporte é reservado aos que não têm poder aquisitivo suficiente para galgar um degrau social.

E não param de trabalhar o tempo todo incentivando o cidadão a se endividar, somente para se livrar do estigma da pobreza. Pobreza a dela, de espírito, de soltar uma frase como essa:

- Vai lá, compra, não precisa de comprovante de renda, assim você nunca mais vai precisar se pendurar no busão!

Andar de metrô até que é chique. O paulistano não fica triste de dizer que veio de metrô, porque envolve um certo glamour. É um transporte relativamente limpo, rápido e prático. A velocidade com que as pessoas atingem seus destinos é suficiente para dar um álibi positivo ao fato de terem escolhido esse meio de transporte. E tempo, para o paulistano, é tudo. Mesmo que aquele seja o dia de não fazer nada.

O preconceito ao usuário do ônibus não vem apenas dos que só andam de carro. Vem também dos próprios companheiros de viagem. Ontem mesmo, uma menina atendeu o celular no ônibus e falava (gritava) assim:

- Quando você chega aqui? Quando? Tem problema não, eu vou te buscar! Cê me liga que eu te pego lá!

Repetiu isso umas três vezes, para informar que era motorizada. Na volta, quando a chuva não me deixava esperar o ônibus no ponto (que teve sua cobertura depredada por vândalos), acabei me escondendo da água na entrada do Banco Itaú. E lá fiquei junto a alguns executivos que explicavam o porquê de estarem esperando o ônibus.

- Deixei meu carro no estacionamento do escritório.

Papo de ponto de ônibus é sempre assim. A conversa vai e vai até chegar uma hora onde o carro vira assunto. É preciso justificar ao outro paulistano o porquê de não estar de carro. Mas deixar claro nas entrelinhas que é proprietário de um veículo.

Se existisse uma camiseta onde estivesse escrito "Deixei meu carro na garagem", seria um sucesso de vendas.
Os europeus são felizes porque andam a pé, de bicicleta, e ficam irritados quando vêm pra cá e não conseguem descer dos carros para sentirem a cidade. Isso, andar a pé pela cidade, é senti-la. Não tem coisa mais gostosa do que passar pela calçada e sentir o cheiro de tempero de feijão, quando está perto da hora do almoço. De carro não dá pra fazer isso.

O carro é ótimo, é prático, mas é inviável sair por aí o tempo todo com ele. É caro pagar tantos estacionamentos. Haja grana!

Não há problema algum em dizer que veio de ônibus porque é econômico. Porque não tem carro. Porque não sabe ou não gosta de dirigir. Porque passa na porta da sua casa. Porque é bom pra natureza. Ou porque não ganha o suficiente para pagar prestação de carro, seguro, imposto, gasolina e estacionamento - além de outras tantas contas mais.