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Pensamentos soltos


Ah, como é difícil me adequar à qualquer tipo de grupo... Fico um tempo, depois vou vendo o jeito daquelas pessoas, suas vaidades, vícios, pentelhações... Vivem inventando compromissos, toda hora a gente vai tendo que arrumar uma desculpa e em dois tempos eu começo a maquinar um jeito de me pirulitar dali o mais depressa possível. Essa expressão pirulitar é por causa do pauzinho do pirulito que acoplava hélices de plástico que quando a gente friccionava nas palmas da mãos saía voando para destino incerto. Eu me sinto sempre como um pirocóptero. Com a diferença das mãos que me conduzem serem as minhas próprias. Quando se trata de me livrar de pentelhos, tenho mãos, pernas e asas. Fico doida só de pensar em ter que andar com aquelas pessoas. Um mais marionete do que o outro.
Quer um exemplo? Católico carismático levantando os braços fazendo aleluia. Gente, o que é aquilo? Por que será que TODOS levantam os braços? Não tem ninguém que não goste de levantar? Ou que não esteja com vontade? Pior é que eu olho pras caras deles e vejo que eles estão curtindo aquele barato de montão! Eles é que devem ser felizes. Aquela dança do Padre Marcelo me incomodava. Principalmente quando chegava na parte do "balança a cabeça". Tudo bem glorificar com os braços. Até que aceito, vai. Agora, "balançar a cabeça" e "dar uma voltinha". Isso não mesmo. Eu, hein...

Coisas que passam pela cabeça

Hoje ia comprar sorvete de palito. Vi as opções e não me encantei por nenhuma, já que estava um pouco frio. Mas o sorvete é um hábito que trago comigo quando estou me sentindo bem e quero andar com uma companhia na rua. Aí compro um sorvete para ir chupando pelo caminho. Quando alguém me vir com um sorvete andando na rua, pode ter certeza que naquele dia estou feliz. Hoje estava feliz porque me libertei de angústias do passado, vi a vida com novos olhos, comemorei que tudo deu errado e parti alegre, de mãos dadas com o vento no rosto e com minha liberdade. Na geladeira tinha vários sabores, limão, abacaxi, chocolate. Mas como tudo isso eu tenho em casa, comprei de goiaba. Era a opção diferente ali. No banco peço água com gás. Não que goste. Mas como da outra eu tenho em casa, peço uma diferente. Meu primo me ensinou a fazer assim. Pegar algo que não temos em casa é fazer com que a saída valha a pena. Aquele produto diferente tem duas funções: Marcar que estamos comendo fora e também mostrar que estamos aproveitando a oportunidade para provar algo diferente. Nem que seja um sorvete de goiaba. Gostoso mesmo é ir a sorveterias típicas e pedir um sabor de fruta que a gente não tem a mínima noção do que seja. Na maioria das vezes o sorvete é horrível, então para compensar a despesa a gente classifica o sabor como "exótico". "Hoje provei um sabor exótico". Depois pedi um sorvete de chocolate para acentuar o paladar. Na verdade o sorvete de chocolate só serviu para limpar a língua daquele gosto horrível. Mas admitir isso é coisa de pessoa sem classe. Ser sincero nem sempre é elegante. A mentira enfeita situações. Um exemplo clássico é aproveitar o lançamento de algum livro na Livraria Cultura e pegar uma taça de espumante. Sim, ela vem no copo de plástico, mas isso é um detalhe a ser ignorado. Passe por cima do copo de plástico e saboreie o espumante. Por mais inútil que seja o lançamento, por mais chato que seja o autor, já vai ter te trazido algum benefício. E como livros são o alimento para a alma, nada como brindar a eles, mesmo sem lê-los. Quanto mais o tempo passa mais eu acho chato ler. Eu vejo aquela montanha de livros e chego à seguinte conclusão: Se eu ler um parágrafo de cada um desses já estará ótimo. Porque não vai dar tempo de ler tudo. Então, prefiro não ler quase nada. Folhear e partir para o próximo. Geralmente brasileiro publica traduções de auto-ajudas americanas que não têm nada a ver com nossa realidade. E o brasileiro consome. É como o feng-shui. Tudo lá está projetado para uma cultura que não é a nossa, num meridiano que não é o nosso. Mas o brasileiro vai lá e põe a planta-baixa do apartamento sob a ótica chinesa e manda bala. Esse mundo é esquisito. O máximo que a gente pode conseguir colocando um espelho na entrada de casa é ter o reflexo do sol projetado nos olhos e perder a visão. O tal do olho gordo vira olho cego, então já neutraliza. Meu sorvete de goiaba não estava bom. Achei muito pequeno pra custar 1,50. No camelô lá da Tiradentes custa 0,50 e é bem maior. Essa Kibon tá roubando a gente.

São Paulo e o Imperador da China




"O louco é como uma folha seca em dia de ventania.
É romântico, gosta de magia e prefere a incerteza da luz de vela ao ato inseguro de caminhar no escuro.
O louco é ousado, livre e solto.
E como um alquimista, vai desenhando seu próprio caminho, sem dar satisfação sequer à sua sombra.
Ah! Se todos fossem loucos!"

Vocês conhecem o Imperador da China? Não?
Ele é o cara mais bacana que eu já conheci em toda a minha vida.
Ele morava num hospício lá em Pequim. Isso mesmo - num hospício. Justamente por pensar que era o Imperador da China. Mas não era. Porque a China, como vocês sabem, já não tem imperador, há muitos anos.

Ele gostava de morar ali. Com ele, moravam mais uns dois Napoleões, um Elvis, e até mesmo Jesus. Ali, cada um podia ser o que quisesse. Ali, tudo era normal. Tudo era sossegado.
Mas ele não era assim doido, doidão, maluco de pedra.
Também gostava de coisas que todos nós gostamos, como flores, chocolate, desenhar, ver TV.

Não tem gente que nem gosta de chocolate?
Não tem gente que vê disco voador?
Não tem gente que fala sozinha?

Eu encontrei o Chian num dia em que estava lá em Pequim fazendo uma excursão com meus amigos.
Eu acabei me perdendo deles e depois de muito andar, acabei sentando pra descansar num banco, bem ao lado do hospício.
O Chian, que estava passeando com seu monociclo, logo que me viu veio conversar comigo e me perguntou em alto e bom português:

- Você é brasileira, não é?
- Sou sim! Como você adivinhou?
- Ah! Foi fácil! Eu sei de onde as pessoas vêm pelo cheiro.
- Pelo cheiro?
- É sim!
- Quem é você?
- Eu sou Chian, o grande Imperador da China!
(Quando ele falou isso, logo eu percebi que ele era meio maluquinho, mas não falei nada. E ele percebeu que eu percebi, mas também não falou nada)

- Então, se você é o grande Imperador da China, me conta: onde aprendeu a falar português?
- Eu não precisei aprender, eu já nasci sabendo! Nós, loucos, sabemos falar todas as línguas do mundo. As vivas e as mortas. Não precisamos aprender. Já nascemos sabendo.
- Mas, me conta: onde você mora Chian?
- Eu moro aqui nesse castelo!
(falou isso apontando para o manicômio)
- E você gosta de morar aí?
- Gosto sim, aqui é bem divertido. E você? Onde mora?
- Chian, eu moro em São Paulo.
- Em São Paulo? Que legal! E você gosta de morar lá?
- Ah Chian... tem dias que eu gosto, tem dias que não gosto...
- Como assim? Tem dias que gosta, tem dias que não gosta?
- Ah... não sei te explicar... é que lá é um lugar diferente.
- Lugar diferente? Obaaaa!!! Eu adoro desenhar lugares diferentes!
(nessa hora, aconteceu uma coisa incrível: O Chian tirou do bolso, magicamente, uma caixa de lápis de cor e uma folha de papel)
- Pronto! Pode me dizer como é sua cidade?

E agora? Olhando para o Chian, com os olhinhos brilhando, esperando que eu falasse sobre a cidade mais diferente do mundo...
O que falar sobre São Paulo a um menino tão especial?
... já sei!

"Chian, desenhe um horizonte, onde a vista não alcança.
Imagine arte, música e dança.
Um dia poluído, com o céu azul de doer.
As quatro estações no mesmo dia.
Uma cidade subterrânea, que existe, mas não se vê.
Ruas sujas, mas coloridas, de tão floridas.
Desconhecidos conversando e pessoas conhecidas se encontrando por acaso, no meio de uma multidão.
Os cheiros de restaurantes do mundo todo, misturados.
Um gari, recolhendo um jornal do chão e encontrando uma poesia, que conhecia de quando era criança.
Um poeta, que de tanto odiar a cidade, resolveu cantá-la.
Desenhe a pressa. Algo como pessoas subindo escadas-rolantes em movimento.
Shoppings, monumentos, lançamentos.
Grandes eventos.
Enfim Chian... imagine um lugar onde acontece tanta coisa ao mesmo tempo, que a impressão que se tem é que não está acontecendo absolutamente nada."

Chian, maravilhado pela descrição de uma cidade tão diferente, mostra seu desenho:
- É assim sua cidade?

(Após olhar algum tempo para o papel, primeiro com desconfiança e aos poucos, abrindo um sorriso)

- É sim Chian, parabéns! Seu desenho está perfeito! São Paulo é assim mesmo!

"Uma idéia, um ideal, muitos desejos. Incontáveis possibilidades.
Uma cidade que se reinventa a cada dia.
Existem tantas São Paulos que às vezes tropeçamos nelas.
Tantas, que podemos capturar apenas retalhos de algumas
que quando juntas, formam uma.
Somos nós que construímos essa cidade,
ao mesmo tempo em que ela também nos reconstrói."

- Ahhh Chian... agora eu tenho que ir... é que falar de São Paulo pra você me deu uma saudade...
Eu acho que vou voltar pra lá hoje mesmo!
- É mesmo? Você vai pra lá hoje? Jura? Me leva com você, por favor, por favor!
- Levar você comigo? Mas como? Você não tem passaporte, passagem, autorização...
- Ah! Isso não é problema! Eu me escondo no seu bolso!
- O que?
- É!!! Eu me escondo no seu bolso!
- O quê? Se esconde no meu bolso?
(Chian fala baixinho:)

- É!!! Eu me escondo no seu bolso!

(Enquanto falou isso, foi ficando pequenininho, pequenininho... até caber aqui, na palma da minha mão. Olhando pra Chian, escuto ele dizer:)

- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos!
(olho pro alto, e em volta, inclusive para o meu próprio corpo, digo:)
- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos?
(Pego Chian cuidadosamente e guardo, dentro do meu coração)

Foi assim, que eu fiz a maior loucura de toda a minha vida.
Foi assim, que eu trouxe Chian comigo, aqui pra São Paulo.
Vocês querem saber se ele gostou daqui, né?
É claro! Chian, adorou São Paulo. Tanto, que como muitos de nós, nunca mais quis ir embora.
É que aqui, aconteceu uma coisa que nem ele acreditou:

Aqui, ninguém acha que ele é louco.


Autores:

(História original de Luiz Brás, escrita com letras pretas.
A parte em roxo é de minha autoria.
A parte em vermelho é de Geraldo Ramiere
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/gr_sp.shtml
A parte em azul, é de autor desconhecido)


Frescurites & Cia


O ser humano às vezes me deixa maluca. É que é muita frescura pra minha cabeça.

Desde tomar um simples copo de água até escolher uma roupa, as ranhetices das pessoas lotam qualquer paciência.

Tem gente que quando vem em casa pede um copo de água e eu sempre caio na besteira de perguntar se é gelada ou sem gelo.

Minha tia quer misturada, mas a de baixo tem que ser a sem gelo e a de cima a gelada, senão não se misturam bem.

Minha outra tia não gosta da nossa água, porque é do filtro e ela só usa água engarrafada ou desses filtros chiques, tipo Europa.

Minha outra tia implica com os tipos de roupas: se a saia não estiver um palmo acima dos joelhos, para ela é feia, por mais bonita que seja.

Meu pai não come lasanha, mas come presunto e queijo e macarrão separado. Come croquetes de carne, mas não come almôndegas nem hamburger, porque odeia carne moída (justamente o recheio dos croquetes de carne).

Minha sobrinha odeia café, mas gosta muito de balas de café.

Minha irmã abomina peixe, mas é vidrada em cozinha japonesa.

Meu pai é do contra. Espera pra saber o que a gente vai querer fazer pra dizer que não quer. Seja o que for.

Minha irmã prefere fazer o papel de advogado do diabo, então ela conversa comigo, vê a minha opinião e decide defender a idéia contrária, sempre.

É difícil conviver com as pessoas. Melhor não procurar lógica em ninguém. Deve ser por isso que as áreas que estudam as contradições não são as EXATAS e sim as HUMANAS. 

Vai ver que pra ser humano é preciso ser complexo e contraditório. Talvez sim. Talvez não.

Levemente maluca

Minha tia era louca. Mas não nasceu assim. Teve uma depressão pós-parto e começou a se afastar do mundo, até não falar mais coisa com coisa. Morreu há alguns anos, quase idosa,
sem nunca ter sarado.
Ela falava que quem tomava muito café ficava preto e conversava mil vezes o mesmo assunto. Perguntava alguma coisa pras pessoas e quando elas respondiam, ela comentava a resposta e em seguida fazia a mesma pergunta de novo. E de novo. Aí, quando a gente começava a rir, ela ria também. Quando ela me ligava eu ficava um bom tempo no telefone, até que chegava uma hora em que ela mesma percebia que já era hora de desligar. Eu ficava com pena dela, mas ao mesmo tempo ela me encantava, pois estava sempre de bom humor. Às vezes alguma coisa a deixava injuriada, como por exemplo quando alguém brigava com alguma de suas filhas. Ela gritava, falava alto e depois de um tempo voltava a ficar contente.
Ela xingava os vizinhos. Ficava na varanda de casa e mexia com quem passava na rua. Tinha gente que ficava p. da vida com ela, porque há pessoas que são mais loucas que os próprios loucos e são capazes de se ofender com eles.
Quando minha tia morreu, todo mundo ficou pensando no porquê dela ter tido uma vida tão difícil, e ao mesmo tão fácil, porque depois que ficou doente, nunca mais teve que se preocupar com contas e com as mesquinharias da vida. E eu fiquei pensando se mais louca era ela ou somos nós, que nos enredamos em mil intrigas e picuinhas, a troco de conquistar o respeito dos outros durante certo tempo, porque se for ver, todo mundo fala mal de todo mundo.
Se um é rico e não tem tempo de olhar a mãe, é acusado de coração duro. Se o outro tem bastante tempo mas não pode ajudar com dinheiro, é chamado de vagabundo. Mas o vagabundo e o sem tempo se completam na hora de ajudar alguém. Um cuida (o vagabundo) e o outro banca (o rico). Se disser pro rico dar uma de vagabundo ele vai achar que dá muito trabalho. E se disser pro vagabundo dar uma de rico, ele não se sentirá capaz.
Acho que no fundo Deus faz tudo certo. Enquanto uns servem para prover, outros servem para cuidar. Enquanto uns vêem a parte prática, outros são mais delicados, trazendo uma visão de sensibilidade. Nem dureza nem fragilidade são boas em excesso, então o negócio é valorizar o que cada um pode dar e procurar distribuir as tarefas da melhor forma para todos.
Estava pensando que às vezes é bom ser maluco. Não maluco, louco de pedra. Mas meio doidinho assim, desses que fazem a vida ficar mais leve.
Ontem passou uma italiana de 98 anos, sobrevivente do terremoto, que esperou 42 horas pelo resgate fazendo tricô. E avisou que estava muito triste por ser entrevistada descabelada. Deliciosamente maluca, fez com que todos sorrissem, mesmo naquele panorama de imensa tragédia.
Aqui está o video com ela, e não é difícil entender a razão dela estar viva até essa idade:

Tá variando?

Ainda sobre as loucuras da vida, desde crianças somos instruídos a seguirmos o caminho que todo mundo acha certo. A repetir hábitos rotineiramente, sem questioná-los.

Quem ainda não casou, vive sendo perguntado o porquê de ainda não ter casado:
- Não casou??? Não é normal!!!

Quem não tem aquele carrão e optou por andar de ônibus ao invés de se endividar para ser igual a todo mundo, vira e mexe é zombado:
- Olha lá, tá camelando!!!

De uns anos para cá, a FAAP adotou uma filosofia onde incentiva seus alunos a serem "diferentes". Cursos de empreendedorismo e criatividade passaram a fazer parte do curriculum, e a individualidade de cada aluno passou a ser o maior patrimônio daquela instituição.

Mas isso ainda é uma atitude isolada, porque a vida não vê com bons olhos aquele que prefere não andar com o rebanho.

Quer um exemplo?

Uma outra forma de perguntar se alguém enlouqueceu, é falar:
- Cê tá variando?

As loucuras que o mundo nos ensinou

Continuando o assunto sobre maluquices, nessa semana fiquei de molho na igreja enquanto esperava a minha mãe na consulta médica e uma ficha acabou caindo em minha mente.

Fiquei sentada no fundo da igreja, enquanto dezenas de senhoras entravam e saíam de lá, muitas delas com problemas de saúde. Entre canções e louvores, cânticos e exaltações, fiquei pensando na vida, na felicidade e na fé.

A felicidade que o mundo acaba nos vendendo como o paraíso, a felicidade que a gente quer construir para quando o futuro chegar... os planos que a gente faz "lá pra frente"...

Lá na frente serei uma daquelas senhoras? Talvez. Se eu não morrer antes, talvez serei. Talvez também seja diferente delas, com mais saúde, já que a medicina nos proporciona muita qualidade de vida apesar do passar dos anos.

Mas algo em mim mudou naquela tarde. Como diz a cantora Joana: "amanhã, talvez". Sim, amanhã talvez eu exista, mas talvez não. Pode ser que conquiste aquilo que almejo, talvez não. Quem sabe fique rica, mas pode ser que não. Então, o que fazer para ser feliz?

Se o passado eu não posso mudar e o futuro talvez nem chegue, a felicidade está no momento presente, esse que estou vivendo agora, enquanto teclo o texto para o blog. Devo ser feliz nesse minuto. Mesmo sem ter o dinheiro que talvez me proporcionasse noites de sono mais tranquilas, mesmo sem ter aquela pessoa especial com quem eu sempre sonhei, mesmo sem ter o trabalho que eu gostaria...

O momento de ser feliz, era o parágrafo passado, mas agora é esse parágrafo. E nesse eu penso em me satisfazer com coisas simples, em dar valor às pessoas que hoje se dispuseram livres para me fazer companhia. Nesse parágrafo penso em esquecer o resto do texto que eu já escrevi, porque ele já foi. Se eu errei ou acertei, não importa. O que importa é tentar não ser repetitiva, falando para vocês o que falei no começo do texto (que agora já é passado). Porque ser repetitivo cansa a gente, e cansa os outros.

Esperar a vida toda por alguém que não quer mais voltar, achar que vai dar tudo errado de novo, porque no passado sempre foi assim, ficar angustiada pelas asneiras que eu fiz a vida toda... é perder mais e mais tempo. É jogar fora o minuto presente, com coisas que já passaram e que ninguém lembra mais. Sentimento de culpa, ódio, rancor... tudo isso impede da gente ser feliz agora. E agora é o futuro com o qual sonhávamos lá atrás. Há dez anos eu pensava em ser feliz hoje. Então, para que lembrar do que deu errado há dez anos?

Mas essa loucura a gente faz o tempo todo. Remói o passado, almeja o futuro feliz, e pega o presente e desperdiça, com expectativas e angústias. Naquela tarde, descobri que a hora de ser feliz é hoje, não hoje na parte da manhã, nem daqui há duas horas. É hoje, agora, nesse exato minuto.

Isso não significa que eu vá gastar todo o dinheiro de uma vez, porque quem aprende a gostar do que tem, não fica insatisfeito o tempo todo, e guarda porque suas necessidades passam a ser simples.

Talvez aquela pessoa com quem a gente sonhou finalmente queira ficar com a gente, e pode até ser que dê certo, se ela ainda for uma verdade pro nosso coração. Mas se conseguirmos abrir o coração para o novo, com a auto-estima fortalecida, talvez pessoas que nos fizeram sofrer passem a não fazer mais sentido pra nossa vida.

Porque o que faz sentido é aquele que tem disponibilidade para dividir o dia, para fazer companhia hoje. Não ontem. Nem amanhã talvez. HOJE.

Pensar em ser feliz no trabalho, fazer com prazer e tirar o melhor do que aquela tarefa nos proporciona é uma missão de quem escolheu ser feliz urgentemente. E ser feliz não é morrer de dar risada, não é ganhar na loteria, nem ser famoso, nem popular. Ser feliz é estar em paz interiormente.

Usufruir o presente da maneira mais serena possível. Talvez essa seja a fórmula da felicidade.

Pensando assim as neuras, encucações, medos, angústias e receios que a gente aprendeu a cultivar a vida toda, passam a ter menor valor, pois, mesmo que algo não dê certo naquela hora, pensar em esquecer o passado rapidamente nos liberta de todo tipo de sofrimento e humilhação. Aprender com os erros é saudável. Mas isso não significa que tenhamos que cultivar nossos insucessos em altares.

O mundo trabalha pra sermos infelizes o tempo todo! Os jornais, as notícias da TV, as pessoas que nos procuram somente quando estão com problemas... Brasileiro tem essa mania de puxar papo reclamando da vida. Não que não haja motivo para reclamar. Claro que há. E muito!!! Mas essa cultura do "ai meu Deus" aniquila toda forma saudável de vida. Por mais que o ser humano sinta prazer com a desgraça, é impossível ser plenamente feliz falando em desastres, mortes, estupros e picaretagens.

Estava pensando: se eu morrer com 72 anos, significa que metade da vida já vivi. E confesso que passei boa parte dela pensando no futuro, cheia de medos, angústias, preocupações e complexos. Metade da vida já foi. Claro, teve muita coisa boa, mas também teve muita coisa ruim, devido às minhocas que eu pus dentro da cabeça. Quem sabe, se conseguir manter esse pensamento de ser feliz nesse minuto, custe o que custar, não consiga obter uma qualidade de vida excelente?

Por exemplo, se alguém pensasse em emagrecer, colocando na cabeça que o que faz o magro é o seu hábito, e nesse minuto passasse a ter o hábito de um magro, em alguns meses se transformaria num magro sem nem mesmo sentir. Mesmo pesando mais de 100 kgs, quando pensasse em ter hábito de magro, já estaria vivenciando a magreza. E o corpo levaria o tempo necessário para refletir o hábito que foi adotado naquele minuto.

Um fumante torna-se ex-fumante a partir do momento que apagou o cigarro. Um alcóolatra, a mesma coisa. No AA eles falam que não devem beber "só por hoje". Eu diria que só por esse minuto. E de minuto em minuto, fazemos uma vida toda.

Não sei se minha loucura maior for não ter adotado esse método antes, ou ter demorado tanto tempo para perceber uma coisa tão básica.

Um dia, quando eu pensava em parar de fumar, comecei a tentar arrumar um culpado para meu mau hábito. (Eu sempre tento arrumar algum Cristo para por a culpa, isso é coisa minha). Aí eu pensei: sou eu quem vou até a padaria, compro, abro o maço, acendo o cigarro, levo até a boca, trago e apago. Então, a culpa é de quem?

Loucos somos todos, uns mais, outros menos. Credicard em seu brilhante "slogan" diz: "PORQUE O FUTURO É AGORA". Credicard tem razão. Mas pensar em viver o futuro agora, pode também nos transformar em pessoas mais simples, que se utilizam daquilo que têm para serem felizes. E não necessariamente precisem usar o CREDICARD para comprar aquilo que não tem preço. O que não tem preço, não tem preço. E ponto.

Que louco!

Quando minha professora disse para prepararmos uma história de formatura, logo pensamos se deveria ser infantil ou não. Como o horário da formatura e os convidados foram colocados como um enigma, o desafio proposto foi para que escolhêssemos uma história que fosse a "nossa cara".

Ah, que sacanagem... uma história que seja a minha cara? E eu sei lá que cara é essa... Como saber o que combina ou não comigo? Pois mudo de idéia o tempo todo, mudo de opinião, de pensamento... o que hoje eu gosto amanhã pode não fazer nenhum sentido... que história seria a minha cara?

Saí pela Livraria da Vila folheando tudo o que via pela frente, e até gostei de algumas historinhas que li - de pássaros a procura da própria identidade e especialmente de uma que mostrava o dia a dia de uma família, com pais, crianças e bichos de estimação, e cada capítulo era a visão que um tinha do outro. Desse livro eu gostei, pois mostrava diferentes enfoques da mesma situação e esse assunto é sempre interessante e fascinante.

Mas ponderei, só teria dez minutos, talvez não tivesse talento para fazer voz de cachorro, voz de criança. Como não nasci com o dom de imitar, deixei a historinha para lá.

Fui então a uma outra livraria na Fradique Coutinho, uma que é meio sebo, meio ponta de estoque, e tem sempre umas promoções incríveis na porta (livrinhos infantis por 2,00 3,00 reais). Bem, talvez essa livraria já fosse mais a minha cara, uma pelas promoções, outra pela liberdade que nos dá de zanzar e mexer em tudo, sem nenhum vendedor ficar o tempo todo querendo ajudar. E ali achei o livrinho de São Paulo e o Imperador da China, que logo pela capa já me cativou.

São Paulo me deu sorte em um concurso literário, então pus na cabeça que aquele assunto combinava comigo e abri o livrinho, feliz da vida, disposta a gostar mesmo que não fosse lá grande coisa. Mas o livro era legal, interessante, principalmente porque falava sobre um louco. Não sei se o que me cativou mais foi São Paulo ou o louco, mas talvez a deliciosa mistura dos dois juntos.

Não há como morar em São Paulo e não ficar meio louco. Não há lugar no mundo onde haja mais malucos. O final do livro deixava a desejar, mas logo que o comprei já compus um novo final para a história, dizendo que aqui em Sampa ninguém acha que o louco é louco. E pus poesia, e ajeitei de cá e de lá, até a história ficar "louca".

Depois do livro, onde todo mundo adorou a idéia de se sentir um louco em Sampa, pois aqui é lugar de gente diferente, passei a reparar nas loucuras de cada um, e esse é um assunto riquíssimo, que daria anos e anos de descrição.

Outro dia estava andando pela rua e encontrei um homem passeando com um cachorro. Ele parou ao lado de um bueiro, onde estava um monte de lixo jogado e se abaixou para pegar um palitinho de pirulito. Pegou o palitinho, sacudiu um pouquinho e foi embora, segurando o cachorro numa mão e o pirulito na outra.

Na São Silvestre tinha um rapaz que corria de costas. Não sei se queria que o ano não terminasse, que o ano que entrasse fosse o anterior àquele que acabara ou se estava apenas tentando endireitar a coluna (minha mãe me sugeriu esse método para ajeitar a postura).

Os motoristas de ônibus andam pelas ruas feito loucos, tem horas que dá até medo dentro do ônibus. Outro dia pensei que não chegaria viva, sinceramente. Mas o mais louco é que o doido do motorista não atropelou ninguém. Mais loucamente ainda ninguém caiu dentro do ônibus, todos conseguiram se segurar. E ainda mais esquisitamente, quando eu desci do ônibus sorri e agradeci, e no fundo pensei que foi até bom chegar ao destino tão rápido. Sem falar que o louco me pegou fora do ponto de ônibus, coisa que só louco faz hoje em dia, porque eles estão veementemente proibidos de fazer isso.

Outra loucura que vejo são pessoas que levam uma vida cheia de dívidas manterem cachorros semanalmente em pet shops, comprarem pacotes imensos e caros de rações e ainda terem que passar o tempo todo cheirando cocô e xixi, lavando e esfregando a sujeira, aguentando latidos altos e deixando de viajar. Tudo em nome do cãozinho.

Mais louco ainda é quando alguém pede informação na rua e está fácil informar, a rua é aquela ali, primeira à esquerda, e o cidadão vai lá e passa reto, ignorando totalmente nossa generosa colaboração. Sem falar quando checa a informação com quem está ao lado, ah... quando faz isso aí sim, deixa a gente louco da vida.

Loucura é carro novo ter que fazer inspeção de poluentes antes dos mais antigos, antes dos ônibus, carros-fortes (esses sim, deixam uma sujeira danada no ar). E mais loucura ainda é ter que pagar adiantado, para depois ter o dinheiro de volta. E louco da vida mesmo a gente fica quando escuta na televisão que esse serviço é gratuito. Coisa de louco, né?

Sampa é loucura o tempo todo. As enchentes agora aparecem magicamente, em dez minutos está tudo alagado. Mas no dia seguinte não é que tem louco jogando mais sujeira nas ruas, ignorando totalmente a desgraça do dia anterior? Ah, isso me deixa louca.

Raul Seixas, maluco beleza, se estivesse vivo já não seria tão louco. Quando visse crianças no mesmo ambiente, conversando pelo telefone celular, se acharia o cara mais normal do mundo.

Agora fica sempre aquela dúvida, né? Será que a loucura é mesmo do outro, ou é a gente que não consegue compreender um pensamento, uma atitude, uma postura diferente da nossa? Quem falou que todas as leis devem ser respeitadas? O que me garante que alguém não criou aquela norma para benefício próprio? Porque o louco é que está errado e a gente está certo? Acho que talvez seja preciso enlouquecer um pouco, para começar a achar que está tudo normal.

Crendices atrasam a vida

- Tira essa bolsa do chão!
- Por que?

- Porque faz perder dinheiro.
- Como assim?

- É! Você não sabia?
- Ah, que bobagem! Só vou perder dinheiro se deixá-la longe dos meus olhos e alguém roubar minha carteira...

- Que nada... isso é igual espelho. Quebrar espelho atrasa a vida em sete anos e a bolsa no chão faz com que o dinheiro suma da carteira.

- Ai meu Deus! Sete anos de azar por causa de um acidente no espelho? Já não basta o meu prejuízo?
- Prejuízo vai ter se largar a bolsa no chão.

- Tá bom, eu tiro! Mas isso é besteira, é igual a história de tomar banho depois do almoço, tomar leite com manga e deixar o sapato virado.
- É nada! Uma conhecida minha tomou banho depois do almoço e morreu.

- Ah, que é isso...
- É sim! Teve uma congestão.

- Vai ver que comeu demais!
- Não... ficou com o bucho virado!

- O que?
- É... bucho virado é um problema que o estômago vira do avesso.

- Ahahahahaha isso não existe...
- Existe sim! Quando o bebê estiver com soluço, é bom tomar três golinhos de água e colocar um fiapo vermelho na testa dele pra não virar o bucho.

- Pela madrugada... soluço é soluço, mais cedo ou mais tarde passa. Se virar o bucho é muito azar...
- Nãaaaaooooo não fala a palavra azar!!!

- Por que não?
- Porque dá má sorte!

- Ai, pára com isso, vai...
- É sim, isso atrai coisa ruim! Vai buscar o incenso pra gente queimar e limpar o ambiente.

- Não tem mais incenso, acabou.
- Então pega sal grosso.

- Também não tem, usei pra por os braços de molho na última vez em que fiquei com quebrante.
- Pega alho então, vai.

- Ah, alho tem. Tem um monte, pega você lá perto da gaveta dos talheres, mas não deixa a faca virada ao contrário.
- Ah, é verdade, senão dá problema.

- Sabia que meus móveis estão todos nos lugares errados?
- É?

- É sim, li na revista de Feng Shui que tenho que por um espelho no fogão e virar a cama ao contrário.
- Espelho no fogão?

- É, sim, preciso instalar.
- Mas... e se por descuido quebrar?

- Aí, sete anos de azar.
- Melhor deixar pra lá então, melhor não arriscar.

- Melhor mesmo, cruz credo!
- Faz o sinal da cruz e bate na madeira, pra isolar.

- Pronto, já bati.
- Não.... bate com a mão direita!

- Não era o pé que não podia ser o esquerdo?
- Ah é, é verdade!

- Quanta complicação, né?
- É mesmo, melhor deixar essas crendices pra lá.

- Também acho, isso é tudo bobagem.
- Já vou indo então, está na minha hora.

- Ah, que pena, justo agora que começou a chover.
- Não tem problema, eu trouxe guarda-chuva.

- Que bom, senão te emprestava um.
- Aqui está ele, é moderno, automático.

- Nãaaooo...
- O que foi?

- Não abre guarda-chuva dentro de casa... atrasa a vida...
- A minha ou a sua?

- Deve ser a do dono da casa.
- Por falar nisso, que número dá a soma dos números da sua casa?

- Dá quatro.
- Ih... quatro é ruim.

- Por que?
- Porque tem que dar seis, que é o número das casas.

- Quem disse isso?
- Sei lá.

- O padre disse que tudo isso é besteira.
- Mas na Bíblia o número sete aparece um monte de vezes.

- Sete vidas tem o gato e os casamentos passam pela crise dos sete anos.
- Ah... só rindo, viu?

- É sim, mas andar pra trás não pode, nem bater na mãe.
- Ah, isso eu concordo. Se bater na mãe a mão fica pra fora do caixão.

- E se o sapato ficar virado alguém morre.
- É sim.

- Mas não pode sair por essa porta.
- Por que?

- Porque você entrou pela outra e ouvi dizer que a gente tem que sair pela porta que entra.
- Quem falou isso?

- Sei lá.
- Coisa de louco, né?

- Só que por aí tem uma escada, vai ter que passar por baixo.
- Isso não. Nem pensar.

Nunca nada tá bom


Não adianta: nunca conseguiremos agradar. E eu não digo a todos ao mesmo tempo. Nunca vamos agradar a ninguém.
E isso é simples de explicar. É que pro ser humano, nunca nada tá bom.

Se a gente fala demais, é porque "enche o saco".
Se a gente fica quieto, é porque tá irritado, aconteceu alguma coisa.
- Nossa, você tá tão quieto... aconteceu alguma coisa?
(E a gente tá quieto que é pra não arrumar encrenca. Mas não adianta, porque o simples fato de estar quieto já demonstra insatisfação. E aí o outro começa)
- Que que eu te fiz?
- Nada!
- Então porque não quer falar comigo?
- Ah, hoje tô meio desanimado...
- Mentira, porque tô vendo na sua cara que tá bravo.
- Mas que cara, criatura?
- Vou pegar um espelho pra você ver.
- Agora você tá conseguindo me irritar.
- Eu não disse que tava irritado? Eu te conheço!
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Se a gente estuda pra concurso, é porque poderia estar procurando emprego melhor, pra ganhar bem mais.
Se a gente quer se arriscar num negócio novo, é doido.
Se fica naquele emprego meia-boca, é acomodado.
Se trabalha no negócio da família, é vagabundo.
E se o vizinho passou no concurso, é mais esperto do que nós.
- Mas ele passou na malandragem, tem conhecido lá dentro!
- E daí? O mundo é dos espertos!
- Ser malandro não é ser esperto! Ser malandro é falta de caráter!
- Hum, você tá com inveja.
- Não sinto inveja de gente desonesta.
- Por isso nunca vai ser alguém na vida.
- E o que chama de "ser alguém na vida"?
- Ter um bom cargo, um bom salário.
- Não acho que isso defina ninguém.
- Mas vai fazer alguma coisa sem dinheiro pra ver se você consegue...
- Não preciso de muito.
- Por isso que eu falo que você é burro!
- Burro pra mim é quem acha que a vida é só ganhar dinheiro a qualquer preço.
- Não falei que você era burro? Não gosta de dinheiro!
- É claro que eu gosto de dinheiro. Mas não preciso de milhões pra ser feliz.
- Ah, mas se tivesse milhões não ficaria contente?
- É claro que ficaria!
- Então, você é burro de não correr atrás.
- Burro é você que não entende o que eu falo.
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- Meu casamento é uma droga. Maldita hora que eu fui casar.
- Ah... todo mundo que é casado fala isso. Mas vocês podem separar. Já quem é solteiro nem sempre acha alguém pra se casar.
- Você que é feliz. Se eu pudesse voltar no tempo...
- Mas você pode, é só separar!
- Ah... agora já não dá mais.
- Claro que dá! É só querer.
- As coisas não são assim tão simples...
- Olha, ficar solteiro não é tão bom assim como você fala, viu?
- Claro que é! Não tem compromisso, não tem responsabilidade!
- Mas também não tem carinho de madrugada, nem alguém na hora da necessidade...
- Ah! Você pensa que pessoa casada é carinhosa como no tempo do namoro?
- Penso. Não é?
- Claro que não! É cada um pro seu lado a noite toda! E você pensa que é bom viver assim, sem carinho?
- Eu sei que não. Por isso te digo que ser solteiro não é tão bom assim.
- Ah, claro que é! Você que é feliz!
- Mas você tem filhos, eu não.
- Também não tem dor de cabeça!
- Ah, claro que tenho. Cada um com seus problemas, né? Você ainda tem o sorriso do seu filho pra te alegrar. Eu, nem isso.
- Meus filhos só dão trabalho e preocupação, e não reconhecem nada!
- Poxa, queria tanto ter um filho... nem iria ligar se não reconhecesse, queria tanto cuidar de alguém...
- Você é doido!
- Então porque você teve filhos?
- Sei lá, porque eu tava me sentindo sozinha e ser sozinha é ruim.
- Entendeu o que eu tô tentando te falar até agora?
- Ah... você reclama de barriga cheia.
- É, ninguém entende a gente.
- É verdade.
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Sorte do Dia


Não prestei atenção mas, na certa, levantei com o pé esquerdo.
De domingo bem cedo, sair da cama é complicado.
Não que ainda estivesse com sono. O fato é que a única coisa interessante daquele dia seria o jogo do Palmeiras (lá pelas quatro).
Até lá, todo mundo enrolaria, apostaria a sorte e tomaria umas.
Banho e café preto (de gole rápido pra não ver a cor do adversário).
Café com leite não daria, era praga daquele dia.
Já sei! Pra dar sorte usaria a camisa do coração, meio por baixo, tá certo - porque o patrocinador já não era mais aquele.
E o dia foi se arrastando e eu me arrastando nele. Para o almoço chegou a família, com manjar de sobremesa.
A feijoada esquentada do sábado arrancou risadas do cunhado alvinegro, talvez pela cor, talvez pelo focinho.
O árbitro corrupto do ano passado trouxe o tapetão à tona. Toalha manchada, Mancha a postos, os Gaviões fiéis cantando e vibrando enquanto os palmeirenses rogavam pela salvação do time.
Hora do jogo, uma surpresa: o segundo uniforme dava o ar da graça e isso não era bom sinal.
Sinal da cruz, aperto de mãos. Moeda da sorte a favor do adversário.
Na primeira falta o atacante sai de maca e a torcida, com a macaca, soltando fumaça.
Aquele uniforme dava azar, eu sabia! Alguns ataques, muitas faltas, ene escanteios e nada.
A culpa é do narrador, parece estar morrendo! Trocar de canal seria ideal.
Agora sim! Agora vai! Aqui o gramado é mais verde e o narrador menos gambá.
Dois minutos depois o atacante adversário desce com tudo e bate pra dentro, encaçapando bola, goleiro e zagueiro. Ah não... parece praga!
Que nervoso! Vermelha de desgosto, levanto pra lavar o rosto e acalmar o ânimo. Ainda dá!
Mal levanto da cadeira dou as costas e meu time, raçudo, nem deixa o outro comemorar o gol que acabara de marcar. Tome outro goela abaixo pra ver se aprende com quem está lidando!
Olha lá, eu sabia! Era eu que estava dando azar! Foi só me levantar que o time marcou!
E assim, de longe, escutei a virada da vitória. E enquanto fazia pipocas comemorei o esperado título, que só fui assistir na reprise do jornal das dez.

Pânico na TV



E não é que eu fui mudar de canal durante o intervalo do jogo do São Paulo e do Santos e encontrei a Gretchen no Gugu?
Parei para escutar - não por nada, simplesmente para ter mais tempo para observar aquelas maçãs do rosto.
Gente... o que foi aquilo?

Logo pensei que ela estava lá para denunciar algum cirurgião plástico, mas não!
Estava falando sobre as mais recentes cirurgias a que se submetera: braços, bumbum, seios.
Ela tem um prazer meio mórbido em mostrar as ataduras, parece gostar de sentir dor.
Sabe como é... já beira os cinqüenta anos e precisa driblar a gravidade (achei que tivesse mais!).

Mas a "Rainha do Rebolado" já está calejada nessa história do estica e puxa e nem bem cicatrizou os cortes já pensa em fazer novos.
Pior: falou sobre a necessidade de se cuidar porque não quer que seu público a veja feia.
(Mas pensando sob essa lógica deveria se retirar do palco imediatamente!)

Espera um pouco... agora percebo... Ela está se achando... bonita! E talvez até mesmo... linda!
Cê vê que bacana? Ostenta as bochechonas sem complexos.
Mas o mais legal ainda estava por vir: disse que ninguém percebe que mexeu no rosto, porque não mudou a fisionomia. Hum hum!

Também mostrou umas cicatrizes atrás das orelhas (foram retiradas e recosturadas).
Certo. Então entendi... a plástica é como quando a gente puxa as duas orelhas com as duas mãos, com bastante força. Mas como não dá pra costurar as orelhas na parte de trás da cabeça, o negócio é arrancá-las fora, repuxar tudo e recolocar as pobres orelhas no lugar. Acho que se a mãe dela soubesse que um dia ela faria isso, teria puxado mais suas orelhas quando ela era criança.

Ah! Gretchen também avisou: seu trigésimo oitavo marido estava grávido de oito meses mas apressou a cesariana no mesmo doutor. E aproveitou pra dar uma levantada nos peitinhos.
Ué? Nem vai esperar para amamentar?
E ainda ia enxugar as costas, mas não poderia fazer tudo junto, senão, como iria se deitar?
Nossa, ainda bem, pelo menos ele ainda sente dor!

Aos fanáticos por plástica, fica aqui um aviso: favor consultar primeiro um oftalmologista antes de injetar mais botox. Barbaridade! Ainda não eram nem seis horas e já tinha começado o Pânico na TV.