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Olhar urbano

São Paulo é casa sem paredes
sem chaves
São Paulo é minha casa
Mas nem por isso a conheço
Dia sim dia não
Acabo me perdendo em suas curvas
Nos cruzamentos
E não raro sinto medo
De não chegar, de não me achar
Angústia por não ser tão grande quanto ela
E passo por corredores, abro portas
Espio janelas
(logo me encontro)
E tento correr - não consigo
É fila e fila e fila
Espera, reflete paciente
Sua vez vai chegar
(pode demorar)
Volto diferente
(vi tanta gente)
E paro, repenso a vida
(como posso ser tão distraída?)
Vivo aqui desde sempre
Mas não te sei.

o amor é importante. porra


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são paulo porvir


São Paulo, se desarma de teus rótulos
e vem passear com a gente.
Desaperta a gravata, tira os óculos,
vamos brincar de Clark Kent!

Cultivar poderes de super-homens
na cidade que nunca dorme,
plantar no coração do povo
a alegria do novo.

São Paulo, não precisa ser bandeirante,
apenas mais tolerante.
Ninguém te obriga locomotiva,
um tantinho só mais emotiva.
São Paulo, não carecia tanta pujança,
um matiz de esperança que fosse.

Depois,
dorme
pela cantoria da Cantareira
e as promessas da Serra do Mar
aconchegada,

e sonha com o porvir.

Por Paulo D'auria

são paulos


São Paulos, são joãos e Josés
São Marias, são Claras e das Dores
São cidades armadas de concreto e aço
Nas vilas Marianas, Santanas, Moemas

São cidades-colagem de aglomerado e papelão
Sob as pontes das marginais
Automóveis de mil cavalos
Carroças movidas a gente

São Paulo esparramada subindo a Cantareira
Descendo até o mar
São Paulo amontoada subindo até o céu
E sob o metrô da Sé
Uma estação secreta para o inferno

Cidade que já morreu
E outra que ainda nem nasceu
São Paulos que eu amo
Todos os dias depois
De jurar eterno ódio

Seus homens de terno no asfalto ao verão
Mendigos ao relento nas madrugadas de inverno
As morenas da zona norte
As madames da zona sul
Orgulho na zona leste
Guaranis na zona oeste

Zona, zona, zona e esperança
Esperança, esperança, esperança e espelunca
Locomotiva desgovernada do Brasil
Porta do mundo, cidades mil

São Paulo tem mil cantos
São Paulo tem professor de esperanto
Se você quer falar javanês, vá a São Paulo
Se você quer falar cantão, vá a São Paulo
Se você quer falar baianês, vá a São Paulo
Se você quer falar ao coração, vá a São Paulo

Do Jaraguá tem vista
Para a Paulista
Na Paulista
Ninguém enxerga ninguém

Buzinas e mundo cão
Subindo e descendo a Consolação
Eu me perco na multidão

Mas lá no fundo um cocoricó, um Rincão
Eu nunca me sinto só
Na matriz da Freguesia do Ó

Abrigo


Queria que tivéssemos nos encontrado no momento em que nos beijamos.
Que minha boca fosse seu lugar predileto.
Que meus carinhos te fizessem um homem feliz.
Que nosso abraço fosse aquele que procurava por aí, nesses anos em que ainda não nos conhecíamos.
Que meus carinhos tivessem sido os mais doces que você já recebera.

Que eu tivesse te feito feliz.
Que em meus olhos tivesse visto o futuro.
Que meu coração, quando bateu colado ao seu, tivesse sido música perfeita para seu corpo.

Que minha voz tivesse feito par com a sua.
Que minhas mãos tivessem sido as mais macias.
E que quando nos demos as mãos, tivesse sido a primeira, das milhares de vezes em que as entrelaçaríamos durante a vida (enlace em todos os momentos).

Mas você foi procurar felicidade em outros abraços, buscar o beijo perfeito em outras bocas.
Para mim, tudo estava certo.
Era a sua a minha boca.
O seu beijo, aquele que buscava.
O seu corpo meu abrigo perfeito.
Sigo só.

Poesia boa pra Cachorro


Au au au
Mas que vizinho cara-de-pau!

Enquanto o cachorro está latindo
O vizinho queria estar dormindo

Cachorro latindo nervoso
Deixa o vizinho furioso

Como descansar
Se o cachorro não para de berrar?

Quando o barulho vem do cachorro
Só ao dono podemos pedir socorro

De latido em latido
O vizinho fica mordido

Se o cachorro fosse bonzinho
Seria amigo do vizinho

Cachorro quietinho
É cada dia mais queridinho

O muro não separa
O barulho que o cão dispara

O dono saiu
O cachorro latiu

Seja maravilhoso
Mantenha o cão silencioso

Se o cão late à toa
O ladrão entra numa boa

O fim de semana é pra curtir
Mas o cachorro não me deixa dormir!

A roda melecada
Sujou minha calçada

O urinaço
Enferruja a porta de aço

O saco de cocô
Faz o maior fedor

O saco plástico,
Pra entupir bueiro
É fantástico

Cachorro que late demais
Não deixa o vizinho em paz

Meu cachorro é de raça
É limpinho por onde passa

Meu cachorro é educado
Deixa o vizinho sossegado

Seu cachorro é ladrão
Rouba o meu sossego de montão

O barulho da cachorrada
Deixa a vizinhança enfezada

Quando o cachorro dispara a latir
Me dá vontade de sumir!

Não que eu seja agressivo
É o latido que mexe comigo

Vamos colaborar
O vizinho precisa descansar

Quando o cachorro latir
O dono precisa agir

Tenha um cachorro educado
Mantenha o latido controlado

Seu cachorro só late lá no fundo
Mas na outra rua sentem incômodo profundo

Seu cachorro só late no portão
Mas o vizinho da frente escuta de montão

Meu desejo intenso
É manter a rua em silêncio

E livrai-nos de todo au-au, amém!


São Paulo e o Imperador da China




"O louco é como uma folha seca em dia de ventania.
É romântico, gosta de magia e prefere a incerteza da luz de vela ao ato inseguro de caminhar no escuro.
O louco é ousado, livre e solto.
E como um alquimista, vai desenhando seu próprio caminho, sem dar satisfação sequer à sua sombra.
Ah! Se todos fossem loucos!"

Vocês conhecem o Imperador da China? Não?
Ele é o cara mais bacana que eu já conheci em toda a minha vida.
Ele morava num hospício lá em Pequim. Isso mesmo - num hospício. Justamente por pensar que era o Imperador da China. Mas não era. Porque a China, como vocês sabem, já não tem imperador, há muitos anos.

Ele gostava de morar ali. Com ele, moravam mais uns dois Napoleões, um Elvis, e até mesmo Jesus. Ali, cada um podia ser o que quisesse. Ali, tudo era normal. Tudo era sossegado.
Mas ele não era assim doido, doidão, maluco de pedra.
Também gostava de coisas que todos nós gostamos, como flores, chocolate, desenhar, ver TV.

Não tem gente que nem gosta de chocolate?
Não tem gente que vê disco voador?
Não tem gente que fala sozinha?

Eu encontrei o Chian num dia em que estava lá em Pequim fazendo uma excursão com meus amigos.
Eu acabei me perdendo deles e depois de muito andar, acabei sentando pra descansar num banco, bem ao lado do hospício.
O Chian, que estava passeando com seu monociclo, logo que me viu veio conversar comigo e me perguntou em alto e bom português:

- Você é brasileira, não é?
- Sou sim! Como você adivinhou?
- Ah! Foi fácil! Eu sei de onde as pessoas vêm pelo cheiro.
- Pelo cheiro?
- É sim!
- Quem é você?
- Eu sou Chian, o grande Imperador da China!
(Quando ele falou isso, logo eu percebi que ele era meio maluquinho, mas não falei nada. E ele percebeu que eu percebi, mas também não falou nada)

- Então, se você é o grande Imperador da China, me conta: onde aprendeu a falar português?
- Eu não precisei aprender, eu já nasci sabendo! Nós, loucos, sabemos falar todas as línguas do mundo. As vivas e as mortas. Não precisamos aprender. Já nascemos sabendo.
- Mas, me conta: onde você mora Chian?
- Eu moro aqui nesse castelo!
(falou isso apontando para o manicômio)
- E você gosta de morar aí?
- Gosto sim, aqui é bem divertido. E você? Onde mora?
- Chian, eu moro em São Paulo.
- Em São Paulo? Que legal! E você gosta de morar lá?
- Ah Chian... tem dias que eu gosto, tem dias que não gosto...
- Como assim? Tem dias que gosta, tem dias que não gosta?
- Ah... não sei te explicar... é que lá é um lugar diferente.
- Lugar diferente? Obaaaa!!! Eu adoro desenhar lugares diferentes!
(nessa hora, aconteceu uma coisa incrível: O Chian tirou do bolso, magicamente, uma caixa de lápis de cor e uma folha de papel)
- Pronto! Pode me dizer como é sua cidade?

E agora? Olhando para o Chian, com os olhinhos brilhando, esperando que eu falasse sobre a cidade mais diferente do mundo...
O que falar sobre São Paulo a um menino tão especial?
... já sei!

"Chian, desenhe um horizonte, onde a vista não alcança.
Imagine arte, música e dança.
Um dia poluído, com o céu azul de doer.
As quatro estações no mesmo dia.
Uma cidade subterrânea, que existe, mas não se vê.
Ruas sujas, mas coloridas, de tão floridas.
Desconhecidos conversando e pessoas conhecidas se encontrando por acaso, no meio de uma multidão.
Os cheiros de restaurantes do mundo todo, misturados.
Um gari, recolhendo um jornal do chão e encontrando uma poesia, que conhecia de quando era criança.
Um poeta, que de tanto odiar a cidade, resolveu cantá-la.
Desenhe a pressa. Algo como pessoas subindo escadas-rolantes em movimento.
Shoppings, monumentos, lançamentos.
Grandes eventos.
Enfim Chian... imagine um lugar onde acontece tanta coisa ao mesmo tempo, que a impressão que se tem é que não está acontecendo absolutamente nada."

Chian, maravilhado pela descrição de uma cidade tão diferente, mostra seu desenho:
- É assim sua cidade?

(Após olhar algum tempo para o papel, primeiro com desconfiança e aos poucos, abrindo um sorriso)

- É sim Chian, parabéns! Seu desenho está perfeito! São Paulo é assim mesmo!

"Uma idéia, um ideal, muitos desejos. Incontáveis possibilidades.
Uma cidade que se reinventa a cada dia.
Existem tantas São Paulos que às vezes tropeçamos nelas.
Tantas, que podemos capturar apenas retalhos de algumas
que quando juntas, formam uma.
Somos nós que construímos essa cidade,
ao mesmo tempo em que ela também nos reconstrói."

- Ahhh Chian... agora eu tenho que ir... é que falar de São Paulo pra você me deu uma saudade...
Eu acho que vou voltar pra lá hoje mesmo!
- É mesmo? Você vai pra lá hoje? Jura? Me leva com você, por favor, por favor!
- Levar você comigo? Mas como? Você não tem passaporte, passagem, autorização...
- Ah! Isso não é problema! Eu me escondo no seu bolso!
- O que?
- É!!! Eu me escondo no seu bolso!
- O quê? Se esconde no meu bolso?
(Chian fala baixinho:)

- É!!! Eu me escondo no seu bolso!

(Enquanto falou isso, foi ficando pequenininho, pequenininho... até caber aqui, na palma da minha mão. Olhando pra Chian, escuto ele dizer:)

- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos!
(olho pro alto, e em volta, inclusive para o meu próprio corpo, digo:)
- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos?
(Pego Chian cuidadosamente e guardo, dentro do meu coração)

Foi assim, que eu fiz a maior loucura de toda a minha vida.
Foi assim, que eu trouxe Chian comigo, aqui pra São Paulo.
Vocês querem saber se ele gostou daqui, né?
É claro! Chian, adorou São Paulo. Tanto, que como muitos de nós, nunca mais quis ir embora.
É que aqui, aconteceu uma coisa que nem ele acreditou:

Aqui, ninguém acha que ele é louco.


Autores:

(História original de Luiz Brás, escrita com letras pretas.
A parte em roxo é de minha autoria.
A parte em vermelho é de Geraldo Ramiere
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/gr_sp.shtml
A parte em azul, é de autor desconhecido)


2a. lição do dia

Nós não envelhecemos, porque só envelhece quem já nasce pronto.
O fogão, a geladeira, a máquina de lavar nascem prontos e vão envelhecendo, conforme o uso.
Nós, não.
O ser humano nasce e vai se formando, se moldando.
Vai tomando forma, ganhando idéias, aprendendo, refletindo e se modificando.
Portanto todos nós, hoje, somos a versão 2009 de nós mesmos (revisada e ampliada).
Por isso o ser humano nunca envelhece.
Apenas se atualiza.

(Mario Sergio Cortella)

Tá tudo bem

Tem dias em que a gente está tão triste, mas tão triste, que a melhor coisa é arrumar um jeito de fingir - pra gente mesmo - que está tudo ótimo.

Deixa o barco correr

Vou deixar de remar contra a maré, vamos ver onde ela vai dar

Destinos


A paixão não correspondida é uma viagem que se faz sem companhia.

Quando se percebe, já é mata fechada, e o que se faz é abrir caminho e tentar sobreviver - sem comida, nem água.

O destino é a promessa de um oásis, que nunca chega - nem tampouco existe.

O retorno pra casa é difícil, pois o viajante, cansado e machucado, busca encontrar na volta aquele que ele era, antes de partir.

As aventuras vividas não podem ser compartilhadas com ninguém, pois todos o consideram um louco, que viajou para lugar nenhum.

Mas isso não significa que a paisagem do caminho não tenha sido bela.

São Silvestre


Já é assunto do ano passado (para um paulistano que se preze já considerado "antigo") mas não me sai da cabeça: a corrida.
Nessa hora a maioria já deixou a cidade mas, quem fica, tem a oportunidade de presenciar um dos eventos mais interessantes da face da terra: a São Silvestre.

Não sei se a emoção maior é para quem corre ou para quem assiste. Aos que correm, ganhar as ruas a pé desafiando os próprios limites e sentindo o impacto do asfalto sob os pés, deve ser uma experiência de superação pessoal muito intensa. Sentir-se solto pela rua podendo imprimir o passo que quiser, na velocidade que julgar apropriada, alheio às placas de contra-mão, ao relógio, ao compromisso. Sentir o cabelo ao vento e ainda ser ovacionado pela platéia que aplaude e grita - ufa, quanta emoção! Chegar e ganhar uma medalha. Independente de quanto tempo durou sua jornada - o importante é que chegou - parabéns!

Assistir é estar preso em liberdade. Preso porque nunca conseguimos ver tudo, tem sempre gente na frente e quando olhamos para um lugar deixamos de enxergar o que está no outro. É tanta coisa interessante passando na nossa frente ao mesmo tempo que dá até aflição.

Aquela música (igualzinha a da TV - clique para ouvir "Carruagens de Fogo") dá um toque especial e não são poucos os que choram ao olhar tantas pessoas aglomeradas em passos e expectativas passando pela avenida da vida.

Muitos dos corredores são os mesmos que trafegam naquela avenida durante o ano e, naquele momento, vêm despidos de suas armaduras permitindo serem vistos de verdade. São paulistanos e turistas passando com o mesmo uniforme ou com a fantasia que quiserem. Ali cada um passa a seu modo. E quanta gente passa...

Penélope Charmosa acenando, um homem correndo de costas, o outro equilibrando um vaso na cabeça, uma mulher berrando o nome de Jesus, um robô, Bin Laden, Obama. O Corpo de Bombeiros cantando, um casal correndo e se fotografando ao mesmo tempo. Senhores suados quase não conseguindo chegar. Jovens andando exaustos, gente que chega inteira e outros que param no meio do caminho. É São Paulo passando pela Paulista.

São tantos sonhos na avenida, tantos sorrisos e aflições, tantas preces. Brasileiros e estrangeiros que naquele momento têm pela frente o mesmo caminho (mas que cada um escolhe trilhar de um jeito). Alguns de olhares fixos, outros saudando aos que assistem - às vezes focando em paisagens, outras no nada. São tantas pessoas diferentes e iguais - pais e mães e filhos. É gente que passa sem parar, gente que não acaba mais. São palmas e olhares admirados. A quem assiste fica a possibilidade de correr também ou de continuar só olhando, ou de no próximo ano tentar ser a Penélope ou o Obama. De fotografar os corredores, de ajudar a recolher o lixo para que ninguém se machuque. De oferecer água, sorrisos, aplausos e lágrimas.

Fica o céu e a cidade oferecendo luz e caminho para o Ano Novo. Fica o exemplo de esforço e de alegria de cada um que, a seu modo, ajuda a compor uma das festas mais bonitas que nosso Brasil conhece.

Fica aqui o convite para quem estiver em São Paulo no último dia do ano: não deixe de ir pra Paulista ou para qualquer trecho da rota da corrida e ajude a compor esse lindo evento, que nada mais é do que o desfile dos homens passando pelas ruas da vida.


Deixo aqui poemas de colegas componentes dos Poetas do Tietê sobre a São Silvestre:


Na via advém, mas se não vem, adivinha?

(Guilherme Montoia)

O que é o que é que:
entre erres e esses
de ruas e pedestres
homens e mulheres
não querem perder?

Tempo, tempo, tempo...

Parece com um teste,
são novatos e mestres
nativos campestres
com trajes e vestes
do mesmo porquê.

Passa tempo, passa tempo, passatempo...

E no último dia
que o ano padece
São Paulo conhece
com data de prece
o que vai pra tevê.

Há tanto tempo, há tanto tempo, há tanto tempo...

Que quando é hora de ir,
mesmo que chova canivete
só então se percebe
como são todos silvestres
quando querem correr.

Mas daí...

Falta tempo, falta tempo, falta tempo...


estúpida são silvestre

(Paulo D'Auria)

É o início,
Só há o verbo
E o caos.

Deus ainda não jogou os dados, as fichas,
Não girou a roleta do tempo.

Não há nada,
Ainda não foi dada a largada
Desta estúpida são silvestre.

Uma nova chance, passarinhos,
Desta feita romperemos a fita da vitória
Ou mais uma vez nos perderemos
Pelo caminho?

arbitrário

Aquele árbitro tava de brincadeira... anulou o gol de chaleira, deu impedimento onde não havia, mostrou cartão pra bicicleta do atacante. Naquele clássico, um bando de filhos de uma boa desesperados corriam atrás da bola. Fez chuva, fez sol, fez ola. E o árbitro preocupado com a camisa pra fora do volante, nem viu quando o goleiro chutou forte e, lá de longe, marcou seu gol de tiro de meta. Não validou e a torcida, emputecida, deu cartão vermelho pro trio que saiu escoltado, enquanto o pau comia solto naquele estádio.

Vitória merecida

Matemática do jogo:

1 gol no primeiro minuto
1 gol no último minuto
1 de mão do nosso goleiro = 3 do Palestra
uma dúzia de defesas incríveis
meia dúzia de faltas não marcadas
muitos litros de chuva
centenas de palavrões
mas só bastava um sãopaulino puto da vida
e já teria valido a pena.

Vencer


nessa história incomum
a torcida encantada
voltou sua atenção
à notícia apaixonada

nem à fila interminável
ou ao time do coração
nem ao craque que retornava
ou ao título de campeão

a manchete referia-se
ao romance que nascera
naquelas arquibancadas
enquanto o jogo ocorrera

entre ele e a amada
o encanto se criou
e a notícia, de tabela
foi ao time que exaltou

A Deus


Tava tudo em suas mãos.
Nessa hora, elas usavam chuteiras coloridas.
Era ele contra um cara no meio do caminho pra atrapalhar.
(como sempre)
Não que fosse difícil.
Já tinha feito aquilo milhares de vezes.
(com sucesso)
Mas era obrigação, tinha que acertar.
Não podia demorar nem errar.
(era tão fácil, ele ganhava praquilo, ué!)
Era o melhor, o escolhido.
Milhões de olhos críticos.
(e zilhões de pensamentos à velocidade da luz)
Fez o sinal da cruz, correu, chutou.
E arremessou pro céu tudo aquilo que um dia quiseram que ele fosse.
Enquanto o povo esbravejava mil maldições, ele, com as mãos na cabeça, sorria.

Meta

Gira mundo, gira bola
corre, corre, dribla

dá um chapéu no concorrente
treina, treina, até dar um olé

o juiz que corra atrás do prejuízo

chuta a bola pra fora, xinga!

rouba descaradamente
passa a perna!
o que importa se derrubar?

se o negócio é sempre somar

de um em um no placar.

Revolução dos Bichos


Quem somos nós?
Os porquinhos do patrão?
Os porquinhos do governo?
Ou nossos próprios porquinhos?

Simples Cidade


- Um de carne.
- Pal me too.
- Tá quente hoje, né?
- Demais.
- Meu apartamento tá um forno.
- De quarta só como pastel.
- Engraçado, nunca tinha te visto.
- Estranho mesmo, né?
- Aceita um suco?
- Tem açúcar?
- Podemos por.
- Prontinho!
- Bom esse pastel, né?
- O melhor da região.
- Sorte a gente morar perto.
- Ô se é.
- Mais um pra sobremesa?
- Hoje sim, não tô com pressa.
- Que bom, também tô livre.
- E então, já decidiram?
- Romeu e Julieta, pra viagem.

A caminho


(São Paulo em Versos Femininos, vencedora do Concurso de Poesias do Jornal Interligado, circular em todos os ônibus do município de São Paulo)

Bem-vindo a essa metrópole
de tão gigante, megalópole
e encontre seu cantinho

Tenha nesse transporte
um dia de muita sorte
na cidade dos caminhos

Aproveite esse momento
no veículo em movimento
olhe em volta de mansinho

Observe a paisagem
tenha uma boa viagem
acompanhado ou sozinho

E nessa oportunidade
pense na possibilidade
de buscar novos caminhos.