Eu sou um ser antissocial

É assim que se escreve agora? Antissocial? Não sei se é, mas deu pra entender, né? Anti-social. As pessoas me irritam! Não que eu fique p da vida com ninguém, nem que seja mal educada. Mas tem coisas que me enchem a paciencia demais.

Quer um exemplo? Papinho de menina apaixonada por mano véio que só quer saber de levar as mina pra balada e os mano pro futiba. Combinam churras lá pelas tantas e depois ficam miguelando pra pagar o pãozinho. Essas meninas passam o dia todo alisando o cabelo, quando não trabalhando em pé em loja popular e ainda querem treta com neguinho fdp.

Aí vc sobe no ônibus e elas tão com aqueles papos no celular, dando risadinha e pagando de trouxa. Não é irritante? Outra coisa que eu não aguento é idoso que arruma TODAS as doenças desse mundo e quer contá-las de uma vez só. Mas é só aparecer alguma coisa que interessa pra eles que te deixam falando sozinho em dois tempos.

Outra coisa é aquele povo que não para de te arrumar serviço grátis. Tudo eles querem, nada eles fazem sozinhos (faziam tudo antes de te conhecer, mas agora vc é a única esperança do fdp).

NÃO SEI ONDE MINHA MÃE ESTAVA COM A CABEÇA QUANDO ME DEU TANTA EDUCAÇÃO.

Tarde fria

Hoje estive na Livraria Cultura. Aproveitei para ler mais um livro grátis e devolvê-lo à parteleira. Assim economizei e ajudei a natureza. Adoro essa livraria. É boa porque é confortável, mas tem o defeito de deixar músicas clássicas cheias de violinos tocando ao fundo. Violinos me irritam profundamente. Primeiro vem o desconforto, depois o sono. Quando chega a vir o sono é porque o desconforto já bateu no teto. Mas tudo em nome de uma leitura grátis.

Graças a Deus os porra-louca não tavam na livraria. Detesto quando aquela gente metida a intelectual cruzado com gay fashion começa a cruzar por lá. Eles tem um ar de serem mais sabidos do que os livros. Mais descabelados que o Fiuk e mais despojados do que qualquer grife que vende trapos a preço de ouro. Quando pinta essa combinação, com direito a sapatilha alpargata, bolsa de tricô e saia rodada, fico enjoada.

Tem lugares que tem tanta gente porra-louca que até cansa. Eles fazem tanta força pra mostrar que são diferentes que acabam ficando todos iguais. Não é que eu queira ser preconceituosa. Querer eu não queria, o fato é que sou, vou fazer o que? Quando olho alguém que parece que passou o dia todo escolhendo as peças de roupas mais nada a ver da vitrine, e depois combinou tudo com cabelo cuidadosamente despenteado e uma presilhinha no cantinho... Sem falar na turma do piercing na língua. Quem põe piercing na língua não deve usá-la para nada que preste. Quem gosta da própria língua não põe nada nela, além de comida e pasta de dente. Se um dia um filho meu aparecesse com um piercing na língua, eu arrancava a tomada da parede e dava um choque nele.

Bem, voltando à Livraria Cultura... Tinha gente normal. Gente metida a rica. (Um mala falando que ele abriu uma loja para uma amiga - para ajudá-la, mas combinou que não era para ficarem só naquilo. A meta seria uma loja nova por ano. Rico ele, né? Será loja de que? Não cheguei a saber, porque mudei de lugar). Folheei um livro com técnicas de memorização. Achei muito interessante, e estou praticando. Agora também deveria haver a técnica para esquecer, e essa não sei se existe, mas seria útil pra caramba. Esquecer amores, amigos traidores. Esquecer as cagadas que a gente fez na vida. Limpar a mente das lembranças cheias de culpas e decepções.

Ah, eu também não gosto dos engravatados. Ajudam a destruir o meio ambiente e se acham o máximo. Nesse ponto prefiro os que usam piercing na língua. Pelo menos destroem aquilo que é deles. Não cheguei a tomar café na livraria, porque acho esse expresso muito caro, além de amargo demais. Prefiro o café de coador. Ao menos não preciso por açúcar. Foi bom que li bastante. O melhor de tudo é que descobri que aquela fase entre o sono e a consciência, é a melhor hora da gente aprender coisas. Pena que logo a gente dorme, e não dá pra ouvir muitas informações.

Essa vida é meio complicada. De novo o bom do meu dia foi o sorvete. E só.

Assuntos comunitários

Quer coisa mais fascinante que conhecer tudo o que se passa à volta da gente? Não tem, né? Saber que comércio está subindo ali, o que pensam em fazer com nosso bairro nos próximos anos, quais são as coisas que mais incomodam os habitantes e as que eles mais gostam... Esse mundo é tão rico! Mas até ele me cansa! Enfim, TUDO me cansa. Porque o que eu queria mesmo era ser general, ser aquela pessoa que sai na rua e fala assim: "NÃO MIJE AQUI NUNCA MAIS!" E que nunca mais a rua ficasse mijada. Queria também ter o poder de multar espertalhões que correm pelo bairro. E também os que fazem barulho. Queria tomar apitos de Copa do Mundo das bocas nervosas. Quebrar o disco do Zezé di Camargo da vizinha da frente. Queria pegar o lixo que o vizinho joga no lugar errado e socar de volta no quintal dele. E também dar um trato no bebê da vizinha quando ele não para de chorar. Enfim, queria ser a grande IMPERADORA. Arbitrária! Principalmente nas questões que estão relacionadas ao lixo e ao barulho. Mas como isso é coisa de gente truculenta e não democrática, vou tentando inventar soluções pacíficas e inteligentes para conseguir aquilo que no fundo eu queria mesmo era fazer no grito. "TETÊ! DESLIGA ESSA MERDA DESSE RÁDIO"! Será que eu sou ruim? Ou os outros que não tem educação social?

Gosto muito de muita coisa

Mas só durante um tempo. A vida é tão cheia de coisas pra gente conhecer, que se for ver, passar a vida toda vidrado num assunto só dá até aflição... Tanto que temos para desenvolver o corpo, a mente, conhecer novos pensamentos... Viajar no próprio pensamento, conhecer a lógica das coisas. Conhecer o que não tem sentido também me interessa. Um mundo tão grande, e a gente pensando a vida sempre do mesmo jeito... Andar sempre pelos mesmos lugares não me incomoda. O que me incomoda é pensar sempre da mesma forma, fazer sempre as mesmas coisas, naquelas mesmas horas... A disciplina é ótima, mas não para mim.

Pensamentos soltos


Ah, como é difícil me adequar à qualquer tipo de grupo... Fico um tempo, depois vou vendo o jeito daquelas pessoas, suas vaidades, vícios, pentelhações... Vivem inventando compromissos, toda hora a gente vai tendo que arrumar uma desculpa e em dois tempos eu começo a maquinar um jeito de me pirulitar dali o mais depressa possível. Essa expressão pirulitar é por causa do pauzinho do pirulito que acoplava hélices de plástico que quando a gente friccionava nas palmas da mãos saía voando para destino incerto. Eu me sinto sempre como um pirocóptero. Com a diferença das mãos que me conduzem serem as minhas próprias. Quando se trata de me livrar de pentelhos, tenho mãos, pernas e asas. Fico doida só de pensar em ter que andar com aquelas pessoas. Um mais marionete do que o outro.
Quer um exemplo? Católico carismático levantando os braços fazendo aleluia. Gente, o que é aquilo? Por que será que TODOS levantam os braços? Não tem ninguém que não goste de levantar? Ou que não esteja com vontade? Pior é que eu olho pras caras deles e vejo que eles estão curtindo aquele barato de montão! Eles é que devem ser felizes. Aquela dança do Padre Marcelo me incomodava. Principalmente quando chegava na parte do "balança a cabeça". Tudo bem glorificar com os braços. Até que aceito, vai. Agora, "balançar a cabeça" e "dar uma voltinha". Isso não mesmo. Eu, hein...

o que já ouvi de homens e achei um caos

  • Você está julgando! (Sim, meu bem, afinal, tenho juízo para que?)
  • Puxa vida, isso porque você não estava com fome! (após dividirmos uma fogazza que eu havia recusado educadamente porque achava que ele era meio pão duro)
  • Ah, então vc é analista de sistemas? rsrs (De um cara que pensava que eu não tinha conhecimento algum em minha profissão)
  • Nossa, meu! (Meu? Nem ao menos "minha"?)
  • Não quero te ver nunca mais. (Esse me deletou de vez, enquanto me beijava) rs - Vai ver que eu não tenho um hálito lá muito bom.
  • Você costuma se vestir como? (Dá pra repetir a pergunta?)
  • A que tribo você pertence? (Olha, meus pais são europeus, viviam em aldeias)
  • E com essa profissão você consegue se sustentar? (Isso porque ele era separado com filhos, imagine se eu tivesse perguntado sobre quanto ele pagava de pensão, afinal de contas, eu que teria que me preocupar, não é mesmo?)
  • Sabe lá naquele bairro da Casa Verde onde mora sua amiga? (Não tenho amigas que moram na Casa Verde, está me confundindo com quem?)
  • Sabe, Lu... (No MSN, com meu nome escrito na tela: Fernanda diz...)
  • Daqui a dois anos vou comprar meu carro novo e sair por aí (De um homem de 38 anos que estava me propondo entrar em casa pra namorar - imagine em que ano estaria incluída nos planos dele).
  • Metade do meu salário doei pra Igreja (De um homem que dividia conta de R$ 20,00 comigo - generoso...)
  • Você tem R$ 2,00 trocados pra inteirar a conta? (Desse mesmo homem, que 5 minutos depois deu R$ 5,00 para um flanelinha no farol)
  • Me deixa uma mensagem offline no MSN. (Offline???)
  • Quem é você mesmo? (De um homem que havia me ligado no celular um dia antes e tínhamos descoberto que éramos vizinhos)
Dá pra ser feliz?

Coisas que passam pela cabeça

Hoje ia comprar sorvete de palito. Vi as opções e não me encantei por nenhuma, já que estava um pouco frio. Mas o sorvete é um hábito que trago comigo quando estou me sentindo bem e quero andar com uma companhia na rua. Aí compro um sorvete para ir chupando pelo caminho. Quando alguém me vir com um sorvete andando na rua, pode ter certeza que naquele dia estou feliz. Hoje estava feliz porque me libertei de angústias do passado, vi a vida com novos olhos, comemorei que tudo deu errado e parti alegre, de mãos dadas com o vento no rosto e com minha liberdade. Na geladeira tinha vários sabores, limão, abacaxi, chocolate. Mas como tudo isso eu tenho em casa, comprei de goiaba. Era a opção diferente ali. No banco peço água com gás. Não que goste. Mas como da outra eu tenho em casa, peço uma diferente. Meu primo me ensinou a fazer assim. Pegar algo que não temos em casa é fazer com que a saída valha a pena. Aquele produto diferente tem duas funções: Marcar que estamos comendo fora e também mostrar que estamos aproveitando a oportunidade para provar algo diferente. Nem que seja um sorvete de goiaba. Gostoso mesmo é ir a sorveterias típicas e pedir um sabor de fruta que a gente não tem a mínima noção do que seja. Na maioria das vezes o sorvete é horrível, então para compensar a despesa a gente classifica o sabor como "exótico". "Hoje provei um sabor exótico". Depois pedi um sorvete de chocolate para acentuar o paladar. Na verdade o sorvete de chocolate só serviu para limpar a língua daquele gosto horrível. Mas admitir isso é coisa de pessoa sem classe. Ser sincero nem sempre é elegante. A mentira enfeita situações. Um exemplo clássico é aproveitar o lançamento de algum livro na Livraria Cultura e pegar uma taça de espumante. Sim, ela vem no copo de plástico, mas isso é um detalhe a ser ignorado. Passe por cima do copo de plástico e saboreie o espumante. Por mais inútil que seja o lançamento, por mais chato que seja o autor, já vai ter te trazido algum benefício. E como livros são o alimento para a alma, nada como brindar a eles, mesmo sem lê-los. Quanto mais o tempo passa mais eu acho chato ler. Eu vejo aquela montanha de livros e chego à seguinte conclusão: Se eu ler um parágrafo de cada um desses já estará ótimo. Porque não vai dar tempo de ler tudo. Então, prefiro não ler quase nada. Folhear e partir para o próximo. Geralmente brasileiro publica traduções de auto-ajudas americanas que não têm nada a ver com nossa realidade. E o brasileiro consome. É como o feng-shui. Tudo lá está projetado para uma cultura que não é a nossa, num meridiano que não é o nosso. Mas o brasileiro vai lá e põe a planta-baixa do apartamento sob a ótica chinesa e manda bala. Esse mundo é esquisito. O máximo que a gente pode conseguir colocando um espelho na entrada de casa é ter o reflexo do sol projetado nos olhos e perder a visão. O tal do olho gordo vira olho cego, então já neutraliza. Meu sorvete de goiaba não estava bom. Achei muito pequeno pra custar 1,50. No camelô lá da Tiradentes custa 0,50 e é bem maior. Essa Kibon tá roubando a gente.

Sobre tudo o que deu errado

E de novo parei pra pensar em todas as coisas que deram tão errado na vida mas que se for ver, nem deram tão errado assim. Minhas amizades de infância partiram. A vida pôs cada um para um lado e lá estão eles, sabe lá Deus como. Mas como se foram encontrei novos amigos ou novos conhecidos, e assim vivemos e trocamos ideias. Acreditava estar com pessoas sinceras, mas como tudo aqui nesse país é muito relativo, veio novamente a onda da relatividade e levou meus amigos pra primeira fila da Parada Gay. Dessa Parada eu só gostava das cores e da música, mas para isso eu não precisava ficar com eles. E lá se foram eles, até a Praça da Sé. Eu desci o túnel da Brigadeiro, subi no metrô e voltei pra casa, para sempre. Meus namorados também foram estranhos, alguns gostavam da música, das cores, e do caminho da passeata. Embora alguns acompanhassem de longe, meio envergonhados, não significa que não estavam segurando uma das pontas da bandeira com arco-íris, o que me parecia colorido demais para um pai de família. E veio a onda e levou um por um, graças a Deus. Fiquei sozinha durante muito tempo, e a liberdade me ensinou que ela pode ser criativa ou sufocante, dependendo de quanto a gente está se amando naquele dia. Meus dias de amor e desânimo foram se alternando, mas a vida foi passando e a erosão em minhas ideias rígidas me fez abrir a mente para novas descobertas. Fiz coisas que não imaginava, e não acho que foram assim tão incríveis, mas quando penso me divirto, e isso é o que importa. Com os relacionamentos sisudos tive dissabores, sofri e me decepcionei. Com outros relacionamentos me diverti tão rapidamente quanto esqueci o sofrimento, e percebi que a gente pode ser várias pessoas na mesma vida, isso só depende de quem a gente escolhe para por ao nosso lado. Quando estive ao lado de gente com cabeça de velho, envelheci junto. Quando estive ao lado de garotos, me tornei jovem. Ao mesmo tempo era jovem ao lado dos idosos, e idosa quando comparada aos jovens, então novamente percebi que tudo seria questão de eu escolher como me sentir. Filhos não tive, o que foi bom, já que quando eu era mais nova era muito impaciente e rígida. Hoje já tenho consciência que o silêncio é o melhor professor, então estaria mais preparada para educar alguém. Se meus filhos nunca vierem, também não fico triste, já que filhos são frutos de um sistema completo, e um sistema só existe quando é formado por várias partes. Não há filhos sem estrutura. E não há estrutura sem um relacionamento saudável. Sendo assim não acho que meus filhos estejam atrasados, apenas lamento não ter encontrado alguém para compartilhar a vida com alegria. O que em certo sentido foi bom, pois hoje tenho mais capacidade de encontrar alegria em situações diversas, então acredito que seja melhor companhia para alguém do que seria no passado. Então essa pessoa que me encontrar vai me ver com melhores olhos, o que significa que tudo está acontecendo no tempo certo. Se essa pessoa também não chegar nunca, vale a pena passar a vida procurando, já que os horizontes ficam cada vez mais abertos, e a liberdade me permite vivenciar qualquer coisa que eu desejar. Ser livre vai além de ter tempo, dinheiro ou disponibilidade. Ser livre é estar desprovido das angústias pelos fracassos do passado. Se aquilo que eu tanto quis não deu certo, hoje vejo que realmente não deu certo porque não tinha nada a ver comigo. Querer se unir a pessoas muito diferentes é como insistir em fazer um bolo crescer sem fermento. Embora o sal de frutas faça o mesmo efeito. Quanto à minha profissão, sorte minha ter deixado de exercê-la logo que me formei. Fiz tantas coisas diferentes, andei tanto por aí, aprendi tantas coisas... Perdi o orgulho, a impáfia, cheguei perto de lugares que nunca conheceria. Vivenciei situações que jamais esquecerei. Graças a isso consigo conhecer as necessidades alheias e olhá-las sem meu crivo crítico. Consigo enxergar a vida com olhos mais carinhosos. E acredito que nessas vivências tenha encontrado de verdade com Deus. Quer sucesso maior do que esse?

Estou farta de poesia

Mas continuo achando que rimas cabem bem em histórias.
Histórias contadas sem casamento verbal são histórias mancas. Sem graça.
Por mais interessante que seja uma história, ela não deve ser longa. Nem falar coisas óbvias com riqueza de detalhes. Nem deixar tudo tão no ar que não faça sentido algum. Uma história boa tem o tamanho certo. Tem o sentido que encanta e também pode divertir. Uma história boa deve  necessariamente fazer sentido a quem conta. Mas não um sentido qualquer ou óbvio. Deve fazer 'todo o sentido'.
Isso não significa dizer que quem conta deve 'sentir' a história. Ela pode ser decorada, ou encenada, mas o que não pode faltar é o tom certo. Se o contador sentir é um ponto a mais. Mas a entonação é necessariamente o grande tchans da parada.
Também a postura do contador de histórias diz muito a quem ouve. O silencio fala mais que um monte de explicaçõezinhas bobas, do tipo trelele. Não importa que o contador de histórias não tenha experiência. O que importa é que ele conte algo tão longo quanto sua capacidade de interpretação. Se é iniciante, que aprenda a declamar um verso curto. Não adianta ficar dez minutos sofrendo, se enrolando e contando algo que o escutador já sabe onde vai dar.
Também histórias do tipo "lá, naquela vila", "nasceu um baobá", também já estão muito desgastadas... As de suspense são o must. As de humor não podem ser debochadas. As de amor não podem ser chorosas, e sim maduras. Mas não uma maturidade com desencanto. Uma maturidade de descoberta de novos encantos, em algo aparentemente desencantador.
E falando nisso, essa brincadeira com palavras dá ânsia. Jogar com os opostos, com os sons repetitivos. Tudo muito óbvio. "O gato no mato" parece óbvio, mas não é. O gato no mato é uma rima pobre, mas com riqueza de sentido. E não é um duplo sentido. Se fosse duplo sentido seria obsceno.
Fazer da contação de histórias uma peça de teatro até que é interessante, mas geralmente o contador usa o descompromisso de ser um contador e perde o clima da encenação. Aí começa a falar bobagens no meio, a se perder, a fazer cem vozes para os mesmos personagens... Enfim...
É preciso escolher uma linha e por ela seguir. É preciso saber segurar uma intercorrência e voltar de onde parou, numa boa. Entreter o ouvinte. E fazer com que o próprio ouvinte saiba onde você estava. Histórias boas não podem ter infantilidade explicativa, nem excesso de rimas, que desconcentram. Devem ter perguntas no meio, mas não perguntas que podem ser respondidas de maneira errada. O ideal é fazer perguntas que não possam ser respondidas. Porque perguntar: Quem estava lá? Era o leão? dardiiiiiiiiiiiiiiiiii~~~.......................... O contador de histórias que escolher um acessório deve segurá-lo muito bem. Misturar conversa de criança com conversa adulta e querer fazer com que ambos os públicos entendam é um desafio imenso. Geralmente os adultos vão achar bobo e as crianças só vão lembrar de uma ou duas brincadeiras ali do meio.
Quando eu assistia o Bambalalão nunca entendia o final da história, que entrava por uma porta e saía por outra que eu não sabia onde era. Talvez por isso eu tenha tanto interesse em ouvir pessoas contando histórias. Acredito que a falta de nexo já se dava naquele tempo, ou as histórias eram muito maduras para mim, ou eu já era muito crítica para a minha idade. Mas não recordo de conseguir tecer críticas, me recordo de não entender absolutamente nada todos os dias. Ficava esperando o dia seguinte e o outro e o outro... Eu achava a Gigi uma mulher do outro mundo, mas talvez fosse porque ela falava uma língua que eu não entendia.

Passados  tantos anos, com milhares de histórias e formas de expressão, acredito que o único desafio ainda vigente seja fazer qualquer coisa bem feita. Hoje, fazer mil coisas é pros idiotas. E fazer direito para os evoluídos.