Saúde x Dinheiro




Que alguém pire e queira colocar peitões para ganhar muito dinheiro (quanto maiores mais dinheiro), não é de se estranhar.

Mas que um profissional da área da saúde compartilhe da piração e aceite praticar uma bizarrice surreal como os seios de Sheyla Hershey, é inaceitável.

Será que o médico autor dessa obra irresponsável poderia continuar a clinicar?

Cadê o Conselho Regional de Medicina numa hora dessas?

Revolução dos Bichos


Quem somos nós?
Os porquinhos do patrão?
Os porquinhos do governo?
Ou nossos próprios porquinhos?

Mulher Vegetal



Vocês conhecem o jogo da Mulher Vegetal?

É um jogo de memória pra ver se você lembra da cara dela.

Dá uma olhada:

http://charges.uol.com.br/game_ver.php?game_pk=35


Deprimente, não é?
Família é a base de tudo?
E a mulher não é a base da família?
Que tal começar a mudar o mundo pela mulher?
Isso mesmo, por nós, mulheres. Seria um bom começo. Basicão.

Machuca?


Um escândalo a mais, um a menos, já não faz tanta diferença.
Uma bofetada, um empurrão, decepção.
Dado agrediu a amada publicamente e agora pode ser preso.
Num passado não tão distante, Luana, aos beijos com não sei quem, cortou o coração de ninguém menos que Rodrigo Santoro.
Há muitas formas de agredir alguém.
A alguns, cabem represálias.
A outros, não.

Olhares Encantados



Ter fé é acreditar no invisível. Muitos não conseguem ter fé nem em Deus. Preferem crer no jogo de futebol, na loteria... apesar que nessas coisas também não está dando mais pra "botar uma fé".

Mas existe um assunto que é praticamente uma unanimidade. Embora muitos se declarem incrédulos, vira e mexe estão reverenciando à essa força invisível. Refiro-me ao olho gordo.

Esse assunto, entra ano sai ano, está sempre atual. Presente nas conversas de todas as classes sociais, em várias idades, parece estar por aí como uma ameaça iminente, causadora de medos e desconfianças.

Outro dia mesmo, um amigo trocou de carro. Optou por um modelo executivo, a coqueluche entre os mais abonados. Não que ele seja rico. Não mediu esforços para comprá-lo, já que andar com um carrão desses por aí não tem preço. Carro preto, vidros pretos.

Antes era um frisson desfilar por aí de carrão. Todos torciam pelo sinal vermelho para poder parar e dar aquela olhadinha de lado. Enfim, ver e ser visto. Agora, com a violência, o ar condicionado e a liberação da película protetora, é mais chique (quer dizer fashion) andar dentro de um carro bem grande (quanto maior melhor) e parar sem poder ser visto. Fica aquele breu, aquela expectativa de ser um figurão, um artista, um político (bem, político não - ninguém sonha em ser confundido com um deles).

E lá se foi meu amigo para o trabalho de carro novo. Mas no caminho, já pensando em olho gordo, decidiu esperar um pouco até que a galera do trabalho soubesse da notícia. Como estacionava o carro longe dos olhos dos colegas, poderia esconder a novidade. Esperou então uma semana para comentar sobre a aquisição. Pretendia esperar mais - mas não agüentou.

Durante o expediente, num comentário "casual", disparou a boa nova. Ao fim do dia, em festa, a turma correu para conhecer o carango. Entraram, sentaram, elogiaram. Alegres, despediram-se.

Lá vinha meu amigo, todo orgulhoso, de volta pra casa. A certa altura do trajeto, imprevisto: furou o pneu. Na mesma hora teve certeza: obra do olho gordo! Pensando bem, não só gordo como obeso. Ele sabia! Bando de invejosos!

Mas não é preciso ter dinheiro pra se sentir alvo de vampiros. Quem tem um amor, fica de olho na concorrência. Quem está sem ninguém, é porque está "encantado" - deve ser torcida contra, só pode! Quando termina então, deve ter sido macumba!

Minha prima teve um filhinho todo fofinho de olhos azuis. Ela, também de olhos verdes, orgulhosíssima por tudo, parece carregar consigo uma simpatia pela doutrina de Hitler. Está sempre falando em AA, aa, Aa, à mínima brecha de oportunidade. Eu, AA ou Aa, sei lá, devo ser da turma dos olhos mais gordos de todos. É, os castanhos! Mas o que seria do castanho se todo mundo gostasse do azul?

Bem, esse belo bebê está sempre com quebrante. E minha mãe, que aprendeu a benzer lá na Itália na noite de Natal, vive sendo solicitada para realizar a limpeza espiritual do pimpolho. Já falei pra mamãe: fala que benzeu e não benze! Ela respondeu que se fizer isso vai perder seus poderes de cura. Isso não, Deus me livre! E toda hora tem que benzê-lo.

Vou confessar: vivia com dor de cabeça. Até descobrir que poderia andar com umas ervas (pode ser só uma folhinha ou um galhinho), mas tem que ser de arruda, alecrim ou guiné. Eu pego sempre guiné. Ao sair de casa, passo num canteiro plantado em volta da árvore bem em frente ao portão e arranco uma folhinha. Ponho no bolso da calça ou por dentro da blusa, faço o sinal da cruz e vou embora. Pensando nisso, agora gelei! Hoje fizeram a calçada nova aqui na porta de casa e meu pé de guiné foi pra caçamba de entulho! Nossa, que estranho... não estou me sentindo bem...

Pensando bem, acho que a gente mesmo, só de pensar nesse assunto, já fica carregado. Não dizem que os pensamentos constróem a vida da gente? Não serão nossos próprios olhos os responsáveis? Bem, como nesse mundo moderno tenho visto de tudo (como uma padaria feita especialmente para cães e gatos e o mutirão de DNA com duas mil pessoas na fila), não duvido assistir ao lançamento do SPA para olhos acima do peso. Os clientes potenciais são muitos. Mas quem vai admitir que precisa de um regiminho?

Simples Cidade


- Um de carne.
- Pal me too.
- Tá quente hoje, né?
- Demais.
- Meu apartamento tá um forno.
- De quarta só como pastel.
- Engraçado, nunca tinha te visto.
- Estranho mesmo, né?
- Aceita um suco?
- Tem açúcar?
- Podemos por.
- Prontinho!
- Bom esse pastel, né?
- O melhor da região.
- Sorte a gente morar perto.
- Ô se é.
- Mais um pra sobremesa?
- Hoje sim, não tô com pressa.
- Que bom, também tô livre.
- E então, já decidiram?
- Romeu e Julieta, pra viagem.

Tudo, menos...



Malu Mader vende eletrodomésticos.


Dá mil nomes às muitas profissões que se enquadram em apenas uma:
dona-de-casa. Mas, atualmente, ser "dona de casa" é vergonha. Ser mãe, mulher, cozinhar e cuidar do lar, é tarefa de quinta categoria.

Ser mãe e cuidar da casa e dos filhos, hoje em dia é visto como coisa ruim.
Se tomar conta da casa dos outros, trabalha.
Se for da sua própria casa, "não faz nada".

E já que esse tipo de mulher nem todos vêem ou aplaudem, melhor o comercial utilizar muitas palavras que enfeitem o pavão - menos a mais simples.

Vamos complicar para dar mais lucro! Para ficar mais VIP! A Malu não é dona-de-casa, porque encontrou um novo nome para isso.
E para o povo, um nome muda tudo.

Já pensou em mudar seu nome hoje? Pensa que não faz diferença?

Assista Malu, em "A MULTIMULHER"


*Para descomplicar sua vida? =/

Palmeiras na TV

Deve ser praga de gambá. É só estourar pipoca e sentar pra ver o Verdão na tela da Globo que é batata: toma um saco de gols!

Nem com Luxemburgo no comando a sorte não muda.

Convencer os miúdos a serem palmeirenses está cada vez mais difícil.

Sofrimento por sofrimento, melhor torcer pro Corínthians que dá mais emoção.

Lá tem um bando de loucos. Que cantam até ficarem roucos.

Nós, palmeirenses, cantamos o quê?

Pânico na TV



E não é que eu fui mudar de canal durante o intervalo do jogo do São Paulo e do Santos e encontrei a Gretchen no Gugu?
Parei para escutar - não por nada, simplesmente para ter mais tempo para observar aquelas maçãs do rosto.
Gente... o que foi aquilo?

Logo pensei que ela estava lá para denunciar algum cirurgião plástico, mas não!
Estava falando sobre as mais recentes cirurgias a que se submetera: braços, bumbum, seios.
Ela tem um prazer meio mórbido em mostrar as ataduras, parece gostar de sentir dor.
Sabe como é... já beira os cinqüenta anos e precisa driblar a gravidade (achei que tivesse mais!).

Mas a "Rainha do Rebolado" já está calejada nessa história do estica e puxa e nem bem cicatrizou os cortes já pensa em fazer novos.
Pior: falou sobre a necessidade de se cuidar porque não quer que seu público a veja feia.
(Mas pensando sob essa lógica deveria se retirar do palco imediatamente!)

Espera um pouco... agora percebo... Ela está se achando... bonita! E talvez até mesmo... linda!
Cê vê que bacana? Ostenta as bochechonas sem complexos.
Mas o mais legal ainda estava por vir: disse que ninguém percebe que mexeu no rosto, porque não mudou a fisionomia. Hum hum!

Também mostrou umas cicatrizes atrás das orelhas (foram retiradas e recosturadas).
Certo. Então entendi... a plástica é como quando a gente puxa as duas orelhas com as duas mãos, com bastante força. Mas como não dá pra costurar as orelhas na parte de trás da cabeça, o negócio é arrancá-las fora, repuxar tudo e recolocar as pobres orelhas no lugar. Acho que se a mãe dela soubesse que um dia ela faria isso, teria puxado mais suas orelhas quando ela era criança.

Ah! Gretchen também avisou: seu trigésimo oitavo marido estava grávido de oito meses mas apressou a cesariana no mesmo doutor. E aproveitou pra dar uma levantada nos peitinhos.
Ué? Nem vai esperar para amamentar?
E ainda ia enxugar as costas, mas não poderia fazer tudo junto, senão, como iria se deitar?
Nossa, ainda bem, pelo menos ele ainda sente dor!

Aos fanáticos por plástica, fica aqui um aviso: favor consultar primeiro um oftalmologista antes de injetar mais botox. Barbaridade! Ainda não eram nem seis horas e já tinha começado o Pânico na TV.

Parem o mundo que eu quero descer!


(esse texto tem três anos, e já está ultrapassado)

A verdade é uma só: não consigo assimilar tantas mudanças. A máquina do tempo disparou e as pessoas estão muito estranhas. Não entendo como tudo se modificou em tão pouco tempo! Produtos, serviços, valores humanos... Confesso nem saber mais quem eu sou.

Quando o cronômetro disparou, ninguém sabe. Pelos meus cálculos, foi há cerca de vinte anos. De uns dez pra cá, os efeitos podem ser sentidos. Hoje, admito: sinto-me velha aos trinta anos. Não pela aparência. Ainda não fiz nenhum retoque, mas se quisesse, apenas alguns cosméticos e minha pele se esticaria feito balão de aniversário. Falo de meu interior.

Cresci vendo filmes românticos, sonhando em ser feliz para sempre, pensando em ter não só um príncipe, mas uma profissão, uma casa - tudo para sempre. Amigos para sempre embalou majestosamente minha colação de grau, onde todos choraram, emocionados com a despedida. Dessa noite, guardo apenas um álbum e uma fita VHS (comprada de uma empresa já falida), e só posso assistí-la porque ainda não adquiri meu DVD. Disso nem me arrependo, porque os primeiros modelos vieram sem a função gravar, o que hoje é o mínimo que se espera de um bom equipamento. Quanto ao álbum de fotografias, ocupa um espaço enorme no armário, desproporcional à importância dessas pessoas em minha vida. Qualquer dia desses, compro uma câmera digital minúscula, gravo tudo num arquivo e libero esse espaço para algo mais importante. Caso perca o arquivo, por um incidente qualquer, lamentarei muito (cinco minutos). Difícil mesmo será imaginar o rosto dos colegas novamente. Nunca mais os vi. Já devem estar muito diferentes.

Agora entendo o porquê de ter recebido um canudo vazio. Desse tempo, nem mesmo a profissão me restou. Para seguir carreira, precisaria de mais uns dez ou quinze cursos de atualização. Alguns profissionais nem essa sorte tiveram. Suas profissões foram extintas, tragadas pela voracidade dessa máquina impiedosa, sob a desculpa da evolução tecnológica. Tudo isso em dez anos.

Num tempo onde o que se comprou ontem, amanhã está velho, um dia é muito! Falar em ano é ousadia. Nem sei como os bebês continuam demorando nove meses pra nascer. Já devem desconfiar que estarão mais tempo com as babás eletrônicas do que com suas próprias mães. Se eu fosse um deles, também não me apressaria.

Nem todos são infelizes. Os animais de estimação, por exemplo, são mais mimados do que filho único. Sou do tempo onde a rainha do lar era a mamãe! Hoje é a gata ou a cadela. Desfilam pelas ruas feito nobres donzelas. E isso está em toda parte, não dá mais para conter. Outros "reis do pedaço" são os cirurgiões-plásticos. As pessoas, percebendo como o tempo passa rápido desenvolveram uma preocupação fora do normal com a aparÊncia. Incrivelmente, alguns pagam para ficar mais feios do que antes! E ainda saem satisfeitos. Eu digo, as pessoas estão perturbadas e deve ser culpa da máquina acelerada! Sou do tempo em que, injeção na testa, nem de graça. Hoje custam caro e vendem bem.

Não é só isso. "Antigamente", distingüir uma pessoa gorda de uma magra era tarefa fácil. Também falávamos em feio ou bonito. Agora usa-se o compasso para mesurar ângulos de inclinação das nádegas, dos bicos dos seios, da ponta do nariz. Alguns magrinhos estão fazendo cirurgias para remover excessos microscópicos (de tirar o sono), umas mulheres estranhas vão removendo costelas, outras passam aspirador pelo corpo. Os colos fofinhos das mamães estão entrando pelo cano, literalmente. Atualmente, as pessoas enxergam gorduras até nas costas! As únicas ruguinhas ainda aceitáveis são as das dobras dos dedos. Mas é bom não espalhar...

Engraçado como todos querem ser iguais. As mulheres, de cabelos lisos a todo custo, parecem pertencerem à mesma raça. Os homens, por sua vez, não tiram a barriga da cabeça. Os brancos entram numas máquinas bronzeadoras. Os negros pesquisam métodos de clareamento. Japoneses pagam para abrir um pouco mais os olhos. Também háhomens que parecem mulheres. Mulheres que parecem homens. Alguns que nem uma coisa nem outra. Enigmas, até para eles próprios.

Veja só, lá no passado não tão distante, sonhava com meu príncipe encantado. Despertava-me com um beijo e conduzia-me na garupa de seu cavalo. Hoje vejo donzelas carregando príncipes no colo, buscando seus príncipes em casa, guiando seus próprios cavalos enquanto os príncipes pisam sobre donzelas desfalecidas.

Lembro quando minha avó confundia ator com personagem. Para ela, o que passava na TV era verdade, ninguém conseguia convencê-la do contrário. Ela se foi. Hoje sou eu quem não consegue acreditar como os programas de TV podem ser verdade. Mas são.

Em tempos de facilidades, há dificuldades por toda parte. Comprar um simples produto para cabelos, por exemplo, tornou-se um dilema! Um mísero fio ganhou denominações complexas! O processo de lavagem conta com várias fases. Eu, indecisa, passo um bom tempo decifrar qual grau de oleosidade figura em meu couro no momento da compra. Saudades de lavar a cabeça com o próprio sabonete. Os cabelos ficavam ótimos! Já sei, excesso de pensamentos faz o cabelo ficar arrepiado. Talvez seja preciso um xampu bem penetrante, limpador de mentes poluídas e um creme desembaraçante de dúvidas.

Falando emmente, já fico com dor de cabeça. Agora está quase certo: a mente é a fonte de todos os males. Até mesmo aquela gripe por falta de blusa ou chinelo pode ter sua origem num pensamento indevido. Passo o tempo todo tentando vigiar meus pensamentos. E com medo de ficar doente, apesar dos milhares de remédios dispostos nas parteleiras das farmácias, espalhadas aos milhares por aí. A população está com depressão - e não é para menos. Estranho seria se não estivese.

Esquisitices figuram por toda parte: ninguém mais enxerga apenas seu próprio umbigo, porque os umbigos estão de fora até no inverno. Os brincos não estão apenas nas orelhas. Aparecem no nariz, na língua e sabe lá Deus onde mais. Ah, até Deus está sendo oferecido à prestação em muitos templos cantantes. É verdade! Um cidadão por aí matou aos milhares e foi reverenciado como agente da paz. Mexeram até com o conceito do bem e do mal.

Compras podem ser feitas sem dinheiro. Telegramas são escritos nas teclas do telefone. Cachorros são tratados melhor que gente. Até o português ficou estranho. Deve ser escrito muitas vezes em siglas e falado em códigos, para economizar tempo. Por exemplo, escrever virou tc. Também virou tb. Os verbos também mudaram. Quando alguém fala em ficar, significa que não é pra ficar. Viajar é não entender nada. Navegar é sem sair do lugar. Tem gente tratando mulher de meu. E elas atendem!

Esse texto, por exemplo, já me custou muito tempo. Não disse que estava velha? Não paro de reclamar. O jeito é me conformar. Vou correndo dar uma olhada na internet e fazer meu upgrade diário, para ver se sobrevivo a mais um dia de evolução. Nin-guém merece!

Surpresas da Vida


Namoravam há algum tempo. Não se entendiam, é verdade. Mas prendiam-se ao fato de serem gente de bem.
- Não gosto muito dele, mamãe. Mas acredito não encontrar outra pessoa com o coração tão bom! Trabalhador, sem filhos. Vale a pena investir.
- Ela tem o gênio muito forte, papai. Mas acredito que será uma mulher responsável e uma boa mãe de família.
Assim iam tocando o relacionamento. Mas não deu. As brigas eram freqüentes e o desgaste falou mais alto.
- Santa liberdade! Não quero saber de homem tão já.
- Ela não vai encontrar alguém que goste dela mais do que eu. Isso eu garanto!
Ambos estudados, tinham a mesma profissão e até desfizeram um projeto de negócio no qual ela vinha trabalhando sozinha há muito tempo. Nunca mais se ligaram e foram conhecendo outras pessoas. De vez em quando, usavam o passado como parâmetro para julgar as novas conquistas. Por vezes saudosos - outras vezes aliviados. A idéia seguia: acabou e ponto.
Ao passar dos meses, a poeira foi assentando. Ela sentia saudades dele pelo ilibado caráter. Ele sentia falta de tanto carinho.
Quatro anos se passaram até que numa tarde de Natal a campainha da casa dela tocou. Era o correio, trazendo um presente. Na caixa, um anel de pérolas com um cartão. Continham os seguinte dizeres: "quem sabe um recomeço". Ela ficou muito feliz, mas à esta altura já estava com outro na cabeça. Mesmo assim deu um voto de confiança ao ex-amado - pessoa tão boa, merecia consideração. Foi encontrá-lo.
Conversaram bastante. Ele confessou nunca a ter esquecido. Ela, temendo ofendê-lo e cheia de peso na consciência, omitiu a informação de já viver um novo amor. Ponderou e decidiu dar uma nova chance ao relacionamento.
- Sem compromisso, só para nos conhecermos novamente, está bem? (fez essa pergunta pensando no outro).
- Que história é essa de conhecermos novamente? Ninguém muda!
- Não?
- Agora eu quero casar, já estou ficando velho!
- Não sou prêmio de consolação. Você pode estar ficando velho, mas eu não! Só aceito se for assim.
- Está bem.
Os beijos já não eram mais os mesmos. Por mais esforços que fizessem, não conseguiam resgatar o encanto perdido. Ela, pensando em seu bom caráter, prosseguia, insistindo na idéia de ter ao seu lado alguém de confiança.
A vida havia mudado. O trabalho, as companhias, tudo. Mas a dele mudara um pouco mais do que isso.
- Preciso te contar uma coisa.
- Fala.
- Não, não pode ser aqui, precisamos encontrar um lugar mais sossegado.
- O que você quer me falar?
- Aqui não dá pra falar.
- Nossa, estou ficando com medo!
Sentaram-se num degrau de uma praça e então veio a notícia:
- Eu tenho um filho!
Após segundos atônita, sem acreditar no que escutara, perguntou de volta:
- Com quem?
- Você não conhece.
Novamente perplexa, decidiu investigar se havia traição nesta história.
- Quantos anos ele tem?
- Quatro, quer dizer, três.
Nesse engasgo de resposta, reforçara-se a dúvida da traição.
- Quatro ou três?
- Três, quase quatro.
Confirmado. Enquanto ela trabalhava pelo futuro da empresa dos dois, presa na infelicidade do relacionamento seguro, ele se divertia conhecendo mulheres na rua.
Palavrões foram muitos.
Desse dia em diante, fez promessa para curar o ódio mortal que assolou seu coração. Não que ainda o amasse, mas não podia acreditar como pessoa tão séria poderia ter esse tipo de atitude. Em sua mente, o comportamento fora um momento de fraqueza na vida dos fortes.
- Ninguém muda. Ninguém muda. Ninguém muda...
Demorou para se convencer de que se tratava mesmo de um malandro, desses que não ficam nem vermelhos. Disfarçam-se de religiosos e com descomunal cara-de-pau, ainda têm coragem de viverem julgando os outros, orgulhando-se de levarem vida correta. Tanto assim que não teve vergonha de revelar verdade bombástica, contando ganhar perdão sincero.
Decidiu então investir no novo amor. Era o absoluto oposto do outro. Atleta e bon-vivant, vivia viajando por aí. Entre seus inúmeros atributos, estava a fama de conquistador. Para conseguir falar com ele, teve que entrar na fila. Lindo como ele só.
Esse, pelo menos, não enganava ninguém.

Silêncio Sonoro


Aluga-se. Finalmente foram embora. Brigavam, gritavam, não cumprimentavam. Vizinhança incômoda essa! Se Deus assim permitir, os próximos moradores serão de outra laia. Conversamos com o proprietário, pedindo para escolher bem os inquilinos. De preferência sem cachorros barulhentos ou jovens, pois ouvem som alto demais. Acolheu nosso pedido e pelo bem dos vizinhos, procurou filtrar os interessados. Afinal, havia de convir: estávamos num bairro decente, não em qualquer lugar.

Casa alugada. Um jovem casal, sem filhos, com carrão na garagem. Lindos e loiros, nada de forró. Animal de estimação: gato. Silencioso que só. A casa foi pintada, o piso lustrado. A calçada, antes suja, foi desencardida à jato d'água. Para nossa surpresa, o casal, distinto, veio se apresentar. Tentando fazer amizade pediram dicas de reforma e nos ofereceram um café. Aceitamos, encantados. Gente educada assim não se encontra mais nem de lupa!

Barulho faziam, mas moderado. Convidavam amigos para noites de pizza ou tardes de churrasco e, de quando em quando, até dançavam. As festas demoravam um pouco, mas não ultrapassavam o limite do suportável, tanto em horas como em fumaça. Praticavam a política da boa-vizinhança. Gente fina é outra coisa.

Véspera de Natal. A rua inteira em ritmo de "jingle bells". As cozinhas agitadas, o entra-e-sai de sacolas, os corações mais amorosos. Nesses dias, dá vontade de cumprimentar até gente esquisita, ligar para amigos antigos ou fazer as pazes com parentes turrões. Vizinhos como esses então, mereciam um prato de rabanadas quentinhas. Enfeitamos um prato com laço prateado e fomos até lá, alegres pela bênção da comunidade unida.

De repente, um choro. Vinha da garagem. Pelas grades vimos nossa querida vizinha guardando uma quantidade enorme de pertences no carro. Seu rosto, desfigurado pelo pranto e por uma série de traumatismos, estava irreconhecível. Pensamos imediatamente em bandidos.

Perguntada sobre o que estava acontecendo, explicou, aos soluços, ter sido agredida pelo próprio marido. À socos, golpes e "vassouradas". Apontava para o enorme galo no canto direito da testa e mostrava falhas no couro cabeludo. Seu companheiro puxou-os com força, chegando a arrancá-los.

Oferecemos nossa casa para cuidar de seus ferimentos, mas ela recusou. Precisava ir embora, porque ele estava lá dentro muito violento e alterado, exigindo sua partida. Estava muito aflita por não ter família por perto, mas mesmo se tivesse, ninguém poderia conhecer suas reais condições de vida. Poderiam aniquilá-lo.

Oferecemo-nos então para acompanhá-la até a delegacia. Sugestão rejeitada veementemente. Essa não foi a primeira vez. Declarava ter sua parcela de culpa no ocorrido. Recebeu então compressas de gelo no meio da rua mesmo, bem debaixo dos olhos do resto da vizinhança curiosa. Mais calma, pegou o gato, subiu no carro e foi embora. O silêncio imperou por alguns instantes. Ficamos paralisados, atônitos.

Cinco minutos depois, o carro estava de volta. O gato foi o primeiro a saltar. Ela entrou sem olhar pra ninguém. De lá não saiu mais. A partir de então foi só silêncio, cortante. A noite de Natal foi tensa. Não conseguíamos parar de pensar em tudo aquilo. As rabanadas não foram tocadas.

Os objetos permaneceram no interior do veículo por mais três dias. Nem sequer uma fresta da janela foi aberta e nenhum dos dois foi visto. Suspeitávamos de homicídio ou suicídio. Ou de uma vergonha descomunal, maior que a necessidade de cumprir compromissos.

Algum tempo depois a vizinha voltou a circular normalmente. Agradeceu-nos pelo apoio daquele dia. Retornou à casa logo em seguida por ter recebido um telefonema dele, arrependido. Não que fosse violento, mas estava naquela noite sob efeito de drogas lícitas e ilícitas. Deu a entender que também estivesse, por isso se declarou culpada. Porém, garantiu: estavam se tratando. Ele mudou muito, até mesmo de visual. Começou a freqüentar uma comunidade espiritualista. Segundo ela, regenerou-se.

Afastaram-se da vizinhança. Ele é visto sempre em casa. Ela sai pra trabalhar logo cedo, e agora espera um bebê. Algumas vezes, quando ela sai, um velho conhecido aqui da rua é visto entrando na casa deles. Trata-se de um vendedor de pequenos pacotes, leves no peso - mas que peso!

Outro dia, num cumprimento rápido, comentaram sobre a oficialização do casamento. Animados com o bebê, decidiram constituir uma família de verdade. Desejamos felicidades. E que o choro do bebê seja alto, e as brigas cheias de gritos, como as de todo mundo. Afinal, quando daquela casa vem silêncio demais, os vizinhos perdem o sossego.

Loja de Dúvidas


Não consigo esquecer desse dia. A dona da loja de roupas lá do shopping é aquele tipo de pessoa que não se esquece de ninguém. Como boa vendedora, guarda nomes e fisionomias, e assim vai faturando algum a mais. Eu, aérea, que mal consigo gravar o nome de todos os parentes desde que os primos-sobrinhos começaram a pipocar, sempre fico em situação embaraçosa quando alguém me chama pelo nome o tempo todo.

Numa dessas saídas de sábado à tarde, minha irmã decide entrar justo nessa loja para fazer umas compras. Enquanto outra vendedora a atendia, loja vazia, fiquei de papo com a dona. Entre como vais e tudo bens, lá vem ela com aquela conversinha intimista, lembrando do dia em que nos encontramos por acaso numa happy hour, falando dos novos bares da cidade e querendo saber de meu trabalho e companhias. Ela, toda animada, me tratava como se fôssemos comadres. Eu, meio sem assunto, dava graças a Deus quando conseguia desviar o papo para o campo das amenidades e das fofocas de salão.

Minha irmã, indecisa, pedia para baixar todo o estoque da parteleira e parecia sem previsão de sair dali nos próximos quinze minutos. E dá palpite aqui, experimenta dali, comecei a reparar no ambiente pra fazer o tempo passar. Balcão, carpete, balinhas. Foi quando a dona da loja saiu de trás do balcão. Não pude deixar de reparar em "seus trajes". Quase todos reparam nas vestes das vendedoras. Afinal, elas adoram dar opinião sobre o que a gente deve levar, mesmo sem serem solicitadas. Por isso o estilo é a medida do bom gosto. E não é que ela, já com seus quarenta e muitos anos, estava com uma boa parte da barriga de fora?

O problema é que a barriga era grande! Ao observar aquele detalhe, tive certeza absoluta: estava grávida. Eu, que adoro crianças, vi nesse fato minha tábua de salvação para novo fio de conversa. Mas antes de introduzir o assunto, fiquei refletindo sobre o adiantado de sua idade. Bem, pensar que avó não pode ter filho é pensamento antigo demais. Hoje todo mundo começa a ter filhos com mais de trinta. Mesmo assim fiquei em dúvida: sua mão sem aliança e os cigarros sobre o balcão reforçavam minha insegurança. Solteirice e fumaça não combinam com bebês. Pronto, mais um pensamento retrógrado. Além do mais, ninguém, em sã consciência, se não estivesse com muito orgulho daquela gestação usaria uma roupa daquelas. Ainda mais sendo profissional da moda!

Preferi não falar sobre a gravidez diretamente, para evitar constrangimentos. Comecei comentando sobre o calor (grávidas sentem muito calor). Agradei, estava no caminho certo. Depois sobre passar muito tempo em pé. Cansativo, concordou. Aí, eureca, perguntei quando ela ia parar de trabalhar para curtir as férias (licença). Resposta: sem previsão. Então insisti (afinal, a criança já estava bem crescidinha). Ela, estranhando a insistência, notou minha desconfiança, já que meus olhos não paravam de procurar por seu umbigo. Ficou muito séria. Gelei.

Embora em nenhum momento tivesse falado sobre bebês, ficou implícito. Minha irmã já fazia o cheque quando o silêncio imperou na loja. Para quebrar o gelo, comecei a tecer elogios à decoração. Tarde demais.

Sacolas nas mãos e muito obrigadas. Saí de lá vermelha. Meu Deus! Que fora! Nem preciso dizer: a criança não nasceu até hoje. Mas teve um saldo positivo: mesmo no calor, o umbigo nunca mais foi visto sem coberta.

A caminho


(São Paulo em Versos Femininos, vencedora do Concurso de Poesias do Jornal Interligado, circular em todos os ônibus do município de São Paulo)

Bem-vindo a essa metrópole
de tão gigante, megalópole
e encontre seu cantinho

Tenha nesse transporte
um dia de muita sorte
na cidade dos caminhos

Aproveite esse momento
no veículo em movimento
olhe em volta de mansinho

Observe a paisagem
tenha uma boa viagem
acompanhado ou sozinho

E nessa oportunidade
pense na possibilidade
de buscar novos caminhos.

Solteiro?



Sou do tempo em que só podíamos ser ou solteiros ou casados.

Namorar era uma fase da solteirice.
Ser “amigado” era ser casado.
Separado era separado, ou seja,
Nem solteiro, nem casado.

O príncipe viria “a cavalo”.
O perigo todo se resumia à maçã.
Nela estreparam-se Branca de Neve, Cinderela, Adão e Eva.
Não era difícil vencer na vida.
Quanto mais se estudasse, mais se ganharia.
O resultado viria no dia-a-dia.

Hoje tá tudo meio diferente.
Ser solteiro é só quando não se tem ninguém.
Se tiver já é ficante – ou até amante.
Tem namoro que é amizade, amizade que é namoro.
Tem romance que é aberto, não chega a ser compromisso
Embora quase sempre um dos dois nem desconfie disso.

O príncipe ta de Porsche e a cavalo mesmo,
Só chega o castigo.
Embora nem sempre merecido.
O perigo, em toda parte, ainda está nos alimentos.
A falta deles gera a violência
O excesso, a doença.

O estudo não te garante
O maior exemplo disso está no Congresso – ignorante.
E aqui termino essa história,
Triste até, quem sabe?
Mas é pura realidade.

Presentes



Na vida, pessoas e organizações adquirem conhecimentos das seguintes formas: através da compra ou através do mérito.


Para adquirir gratuitamente (através do mérito), é preciso saber ganhar presentes.


Ter braços abertos para recebê-los, mesmo que, aparentemente, não nos sirvam para nada.


Nesse caso, devem ser guardados e oferecidos a quem fizer por merecê-los. Porém, podem ser exatamente aquilo que se estava precisando.

Mas se forem jogados fora antes mesmo de serem abertos, certamente terão que ser comprados.

Igreja não é clube, Deus merece mais respeito


Como eu gosto do orkut!!! Nele consegui ver coisas que jamais teria oportunidade... Vou explicar: por gostar da cidade e dos assuntos da comunidade, procurei freqüentar a igreja para saber em que poderia ser útil, e também para conhecer mais sobre a Bíblia e suas histórias. Lá conheci os grupos.
Aqui onde moro há movimentos variados... o dos jovens, o dos que estudam “a palavra”, dos descasados, dos noivos, dos carismáticos... enfim... há reuniões para todo tipo de gosto e interesse, é só procurar e participar. E nesse vaivém (oito anos, pra ser mais exata), em dezenas de missas, reuniões, eventos e ladainhas, conheci melhor a Bíblia e um pouco da filosofia de vida dos que tomam para si a responsabilidade de falar “em nome de Jesus”.
Não estou falando dos padres – esses, dos que conheci, só tenho a tecer elogios, o que guardarei para outra hora. Hoje quero mesmo falar dos colegas da linha de frente dos grupos... aqueles que gostam muito de “ajudar”, tomando para si a responsabilidade de “evangelizar”. No começo achei esquisito: pareciam perdidos ou viciados em algo que não sei dizer o que... só sabia que por ali havia alguma coisa estranha, e as interpretações - muito confusas, não pareciam lá muito “católicas”.
Descobri porque se acham tão fiéis... primeiramente se apegam ao compromisso de bater cartão para Jesus, como se ele não andasse com a gente o tempo todo e marcasse um encontro “lá pelas tantas” (sem falta). O próximo passo dos fiéis de carteirinha é lançar mão do microfone e dar o tal “testemunho”. Não sei se são tomados por certa “força maior”... só sei que se empolgam e começam a falar sobre respeito ao próximo, caridade, castidade, alcoolismo, drogas, vida mundana... Repudiam o carnaval (convidam para vigílias nessas noites), dizem que a TV é coisa do demônio, e, bom mesmo, é louvar.
Palavrões... nem pensar... Músicas? Melhor prestar muita atenção à letra, para não sair por aí cantarolando indignidades... Assim que nos despedíamos, logo observava alguns, de posse de seus carrões, convertendo a avenida na contramão. No dia seguinte, encontrava outro “irmão” (que fingia nunca ter me visto) no supermercado...
Notava que seus cumprimentos eram reservados aos abonados, aos enturmados ou aos mais queridos. E então veio a bênção do orkut!!! E aqui pude ver a outra face de nossos líderes: embora preguem a castidade, alguns dos solteiros participam de comunidades como “adoro dormir de conchinha”, “adoro acordar com beijinhos”, “não me provoca que eu gosto”, mas lá, nos grupos, tratam de encher a cabeça dos jovens de culpa e de criar um glamour em torno de si. Só falta a auréola.
Os que criticam os palavrões estão na comunidade “fudeu”, “deu merda”... (é, deu mesmo!!!) Outros, que pregam o tempo todo a paz, compõem a “homem mentiroso merece bala”. E nos álbuns, nem preciso dizer.... fotos insinuantes de biquíni (com direito a caras e bocas), ahhh e os abstênios... com o copo de cerveja na mão, claro!!!
Bem... não é de se estranhar que o microfone esteja aberto a todos – num lugar onde descasado não pode comungar, mas mulher grávida pode se casar. Onde se proteger de doenças é errado. Onde um salão pode ficar a noite toda vazio enquanto um mendigo dorme na rua, do outro lado da parede. Eles vivem dizendo que Jesus vai voltar. Mas se ele estiver olhando tanta hipocrisia, acho que não volta. Eu se fosse dele, não voltava não. Escolhia ir para outro lugar.

igreja não é clube - testemunho a gente dá quando é de verdade - senão, melhor ficar calado

Mentiras

Atualmente, irritada com as mentiras...
as grandes, as pequenas, aquelas mentiras sociais, as venais, as mortais, as que são só pra encerrar o assunto, as que são só pra não magoar...
...as mentiras da imprensa, as do governo, as dos amigos distantes e as dos próximos também... e também pensando nas próximas mentiras que escutarei dos próximos amigos...
... atualmente pensando em quantas idéias criei baseada em mentiras, e naquelas que inventei mentindo pra mim mesma...
... atualmente pensando em mentiras que acreditei de tanto contar... e que me serviram de apoio para continuar inventando um mundo que não era meu, atraindo gente que mentia como eu, pra si e pros outros...
... atualmente pensando em quantas mentiras eu contei pensando que estava falando a verdade, e em quantas verdades falei contando mentiras - muitas vezes sem saber que eram mentiras...
... atualmente pensando em quantas mentiras ainda vou escutar e como vou lidar com elas... pensando em como vou fazer para ouvi-las e continuar fingindo que não percebi nada... (mas o que me garante que serão mesmo mentiras?)
... e também pensando num jeito de viver sem nunca mais precisar contar nenhuma, nem que seja daquelas do tipo "primeiro de abril"...
... enfim, atualmente, carente de verdades.

Escola de Cachorros



Ninguém poderia imaginar. Encrenca entre vizinhos, todo mundo já conhece. Implicância de homem para homem também. Mas agora existe um novo duelo ocorrendo na cidade: a guerra dos cães.

Essa mania de ter cachorro pegou. Está espalhada por aí. Não sabemos se há mais peludos ou crianças. Com eles vieram as alegrias que só o melhor amigo do homem pode proporcionar, mas também os problemas.

O cachorro do vizinho latir a noite inteira incomoda à quase todos. Só não incomoda a quem? Ao dono. E vai falar pra ele que o bichano faz barulho. O quê?

Já há algum tempo em que se falou sobre operação de cordas vocais dos amados pets. Também não, né? Mas enquanto não conseguimos dormir, pensamos em coisas ainda mais radicais.

Os felizes proprietários (não todos, é claro) saem alegremente para os passeios diários, já que a maioria dos cachorrinhos mora em apartamentos e precisa se exercitar. Desfilam pelas ruas segurando, geralmente, apenas a coleira. Dão uma paradinha aqui, outra ali... e vão carimbando.

Eles fazem para todo lado. E tome sujeira. Entradas de estabelecimentos em que o cliente já chega de sapato engraxado, residências, jardins, praças, rodas de carros, postes - tudo. Até consultórios. Andar pela rua virou maratona com barreiras e é muito chato ter que limpar o sapato sujo de cocô. Mas os donos falam assim: "imagina... ele só come ração...". Cocô é cocô. E ponto.

Existem os donos semi-limpos ou semi-sujos, como preferirem. Carregam saquinhos para recolher a obra mas depositam-na no primeiro canteirinho florido que encontram. Outros pedestres do mesmo estilo, limpam os pés sujos nas soleiras das portas. Imagine se alguém escorregar ao pisar "naquilo"? De quem será a responsabilidade? De quem não limpou a calçada, do dono, do cachorro, da Prefeitura ou do sapato?

Quem não limpa a porta de casa, não sabe como é. Todos os dias encontramos de tudo: panfletos, folhas, embalagens, "cuspis", e, claro, as marcas territoriais caninas e suas lembrancinhas. Não devemos lavar a calçada - tudo bem, precisamos economizar água, concordamos plenamente. Mas o que fazer com tanta pasta grudada, com tanto fedor?

Por aí a guerra já está travada. Não é só entre quem tem cão e quem não tem. Essa já era de se esperar. Existe guerra de dono pra dono. E não é preciso muito motivo: basta um encontro furtivo durante um passeio em que os cachorros se estranham e pronto! Lá estão quatro inimigos, entre humanos e caninos. Outro dia vi uma briga na rua em que uma mulher gritava: "com você eu não vou fazer nada, mas cê vai ver com seu cachorro..." Ih... isso dá B.O.!

A vizinha aqui de cima fica escondida atrás da janela para pegar os porcalhões e dar um susto neles. É para dar o bote naquela mulher do prédio que nem penteia o cabelo antes de sair de casa, de tão apressada em passear com o amiguinho. Essa é federal! Não perdoa um cantinho. E ainda olha feio pra todo mundo. Gosto mesmo quando ela carrega o fofinho no colo porque quando ele vai pelo chão... barbaridade! Faz xixi pra todo lado. Intrigante como tem tanto líquido naquela bexiguinha! E tome parede manchada.

Essa que se esconde, jurou: assim que conseguir, entrará escondida no prédio, subirá pelo elevador até a porta do apartamento daquela descabelada e fará suas necessidades ali mesmo, só por vingança.

Quer saber qual é o point mais agitado aqui do pedaço? O supermercado Laicão. É, a quantidade de empregos que a indústria pet gerou é um show. Ninguém pode negar. E vem crescendo cada vez mais.

As notícias trazem novidades de cair o queixo, como plano de saúde para animais, padaria temática, spa com clínica psicológica, tratamentos holísticos e outros luxos mais. Claro, quem se dispõe a ter um a ter um bichinho precisa mesmo cuidar bem dele. Jamais abandoná-lo na rua, como muitos fazem ao vê-los doentes.

Mas tem coisas que parecem demais: camas de grife, ofurô, jóias. Perfume Oh my dog! Oh my God! Tudo bem. A gente ama tanto esses bichos que fica doidão! Numa dessas videocassetadas vi um cachorro fumando. Nem me espantei. Daqui a pouco virão atender a gente de gravata. Mas é preciso ter bom senso.

Teve uma festa de aniversário super comentada que fez rir e chorar. Casamento de véu e grinalda. Tem agência, terapeuta, cirurgia plástica e tudo mais. Bem, quase todos os produtos e serviços disponíveis aos humanos já estão disponíveis também a eles. Outro dia, nos EUA, uma dentista foi processada por extrair indevidamente um dente de uma cadela. É... eles têm advogado também...

Nada contra. Usem e abusem! Mas fica aqui o apelo: já que os investimentos são certos, que tal reservar parte do montante à educação? Adestrar ou simplesmente ensinar o cãozinho quais são seus limites. Os donos que ainda não estiverem preparados para ensinar, precisarão aprender. Coisas básicas como respeito e noções de higiene. A campanha de educação precisa ganhar força em todos os níveis.

Aqui bem perto, devido à quantidade enorme de habitantes de quatro patas, já existe uma campanha intitulada "Calçada Limpa" onde o slogan é: "calçada não é privada, é pública". Que bênção! Já tem sucesso, mas precisa de mais.

O bom senso impera em alguns lugares, não podemos generalizar. Certos donos não apenas recolhem as fezes de seus animais como forram o local onde acontecerá o despejamento. E nessa hora enviamos energias positivas a ambos, tantas, que nenhum banho de pétalas poderia gerar. A eles, nossos vivas! E que façam escola.

Quem sabe?


Quem sabe mais ônibus enquanto esperamos a demorada obra do metrô?

Quem sabe planejamento familiar enquanto aumentamos o número de creches?

Quem sabe menos filhos ao invés de apartamentos populares de três dormitórios?

Quem sabe fiscalização nas áreas públicas, ao invés de urbanização de favelas?

Quem sabe recolher indigentes das ruas, ao invés de buscar quem atirou neles?

Quem sabe podar as árvores, ao invés de pagar o tratamento dos atingidos?

Quem sabe mais assentos nos ônibus, ao invés de corredores?

Quem sabe a cultura da simplicidade, ao invés dos financiamentos de produtos inúteis?

Quem sabe multar os que despejam lixo na rua, ao invés de cobrar pra recolher o lixo?

Quem sabe prédios mais baixos, ao invés de avenidas mais largas?

Somos nós que elegemos o Prefeito. Mas somos nós que construímos nossa cidade.
Não é só votar e esperar.
Tem que recolher as fezes dos cães, varrer a rua, cuidar da cidade.
Ser cidadão não é só votar. Não é o Kassab quem entope os bueiros.
Nem é ele quem despeja lixo nos rios.
Manter, é o mínimo. E reclamar é o máximo.

Quanto vale?

Quem são aqueles homens olhando para nossas casas ali do outro lado da rua? Apontam, cochicham, planejam. Não notam nossas presenças desconfiadas na janela, nem os olhares de esguelha pelas varandas. Continuam falando em projetos grandiosos que arquitetaram sobre uma folha de papel. Com caneta e régua construíram edifícios sobre casas desenhadas a lápis.

Num dia desses, numa carta (dessas de propaganda), finalmente se identificaram. São de renomada incorporadora, parceira de grande construtora (dessas que é até difícil pronunciar o nome – pomposo) e vêm, respeitosamente nos participar da construção de luxuoso condomínio sobre nossos lares. Claro, alguns detalhes ainda precisam ser ajustados, mas basta apenas uma assinatura abaixo. Nela, se autoriza a comercialização e a locação do imóvel. Assinado, Sr. Fulano de Tal.

Após a notícia da desapropriação de imóvel próprio por empresa particular, começo a fazer contas. Para onde iremos?
Sim, para onde, pois infelizmente, por ironia do destino, não poderemos mais morar no mesmo lugar. Pelas nossas contas, para morar aqui, em espaço três vezes menor, teremos que desembolsar cinco vezes mais. Coisas do progresso.

A empresa do Sr. Fulano de Tal é especialista em avaliação de imóveis. A fórmula é simples: vendem apartamentos financiados a preço de ouro e compram nossas casas a preço de lata. Sr. Fulano de Tal e seus amigos foram treinados a fazer o seguinte: explicar aos compradores que aqui será o paraíso, enquanto convencem os atuais moradores de que aqui virará um inferno.

Sr. Fulano de Tal
(Rua não sei qual, sem número):

Venho respeitosamente, por meio desta, oferecer dados à sua avaliação. Uma vez sabendo que sobre nosso terreno figurará um arranha-céu, gostaria de colaborar com o plano de marketing dessa renomada empresa e seus parceiros, através de preciosas informações sobre o valor deste local.

Sei que é uma pessoa muito ocupada, por isso ofereço uma visita virtual à minha casa. Entremos pela garagem.

Nesse local brinquei sobre montes de areia, passei horas fingindo que estava na praia enquanto meus pais construíam nossa casa. Foi aqui que conheci meus amigos de infância. Aqui também funcionou uma loja de automóveis, onde meus pais fizeram fama e amigos, vendendo os melhores fuscas de toda região. A garantia era o fio de bigode. E o pagamento, nota promissória. Minha irmã enquanto trabalhava aqui cuidava de mim, que brincava o tempo todo na rua. Aqui a família toda suou e sorriu, trabalhou junta e foi feliz.

Nessa grande escada da entrada eu jogava bola sozinha. Eu e a escada éramos muito amigas. A gente só parava de jogar quando eu ficava cansada. Quando minha mãe a encerava, eu descia de tapete. E também passava tardes inteiras sentada aqui conversando com a turma da rua.

Essa sala era um quintal. Aqui ficava meu balanço e minha piscina. E aqui havia um banquinho de alvenaria onde minha mãe conversava com meu nono. Eu e muitos dos moradores da região somos descendentes de italianos.

(Venha até a varanda)

Daqui se vê a casa do seu Michelle. Ele também veio do sul da Itália. Todo mundo era conhecido, por isso brincávamos na rua sem preocupações, pois não éramos vizinhos, éramos uma família. O lanche da tarde, acontecia cada dia na casa de uma criança.

Atrás daquele prédio está o morro. Lá a gente escorregava de papelão, empinava pipa, soltava balão. A noite daqui era animada. De vez em quando passava o Bloco do Faísca, que hoje é o Águia de Ouro. Nessa rua, em várias procissões eu saí de anjinho, e bem nesse muro ficava uma vela e uma santinha. Daqui minha mãe me via desfilando na fanfarra. Jogava vôlei no meio da rua e quase fui atropelada. Daqui também ficava esperando meu pai passar dentro do ônibus, quando ia fazer compras na cidade. É, esse ônibus está aqui até hoje. Demora... mas quando aparece... que alegria! Mas o melhor dessa varanda era no carnaval. Confetes e muita água dentro da xeringa. Hoje, nessa varanda brincam meus sobrinhos, se penduram na mesma grade, igualzinho eu fazia.

Aqui na Pompéia conhecemos o padre, o traficante, a cartomante, a grega da esquina, a dona da pizzaria. O ar daqui é diferente, o senhor precisa ver. Sr. Fulano de Tal, o carteiro se chama Joílson e, faça chuva, faça sol, está sempre sorrindo.

Aqui tem uma Feira de Artes fantástica, vem gente de toda parte. Vem para a Feira de Artesanato também. A cada dia da semana tem uma feira em local diferente, com um pastel mais gostoso do que o outro, o senhor precisa experimentar.

Em julho, a rua inteira fica coberta por ipês. É bonito de chorar. A gente vai a pé até o Sesc, ao Metrô Vila Madalena, ao Palmeiras. Falando em Palmeiras, o senhor precisa ver que lindo que é em dia de jogo. Os avôs que moram aqui há quarenta anos ou mais, ficam lá na lanchonete relembrando o Palestra dos velhos tempos. A Pompéia é pura história escrita nos idosos que estão dentro dos sobrados. E o São Camilo mesmo, subiu com a ajuda de muitas quermesses onde vários casais se formaram. Os filhos dessa gente se conhecem até hoje, pois estudavam em ótimas escolas estaduais que existiam por aqui. Não é de se estranhar que hoje consigam comprar os apartamentos de luxo que o senhor vende aqui no bairro.

Senhor Fulano, aqui na Pompéia há pássaros coloridos, muitos pés de amora e pitanga, mangueiras e goiabeiras dentro das casas. Pelas ruas é possível colher limão e flores. Aqui em frente à minha casa, há uma árvore que foi plantada pela gente e que cresceu junto comigo. Aqui pertinho há uma pracinha que conta muitas histórias, onde moram sabiás e bem-te-vis. Nessa mesma praça há o cachorro mais querido do mundo, meigo e carinhoso, e eu brinco com ele sempre que volto da sorveteria Cristal, lá na Vila Romana, que também existe há mais de quarenta anos.

Mas nem tudo aqui são flores, é verdade. Há dias em que demoro tanto pra chegar em casa... sabe Sr. Fulano, por aqui atualmente circula muita gente e os carros acabam obstruindo algumas ruas. Nesses dias, eu não vou mentir, fico um pouco aborrecida. Mas é só chegar perto de casa, bater um papo com o dono da padaria, cumprimentar algum amigo que passa pela rua, olhar seu Michelle sentado escondidinho e espiando atrás da cortina, avistar meus pais me esperando nessa varanda... Sr. Fulano... é uma felicidade... mas uma felicidade, que não tem preço!

Sem tempo para mais, embora com muito mais,

Emocionadamente,

Uma Moradora.


Leandro, nós mendigos da Pompéia

Há alguns anos, apareceu andando pela rua, um lindo moço. Chamava a atenção pela sua beleza e também pela sua disposição para caminhar o dia todo sempre pelas mesmas ruas.

Ninguém conhecia o rapaz, mas era o começo de uma longa história. Suas roupas foram ficando sujas, seus cabelos foram crescendo, sua pele encardindo.

Ninguém sabia de onde ele vinha, nem para onde iria. Aos poucos, solidarizados, a mesma "meia-dúzia" de moradores começou a alimentá-lo. Ele, educado, devolvia prato e talher. Levava com ele apenas o alimento e o cuidado de não pedir novamente comida no mesmo lugar no dia seguinte. Variava para não abusar.

Tentei conversar com ele muitas vezes, conhecendo sobre sua vida menos que o mínimo. Tentei persuadí-lo a voltar para casa. Em vão. O motivo de sua partida, um mistério.

Meses e meses se passaram, Leandro já não falava mais, seu cheiro, insuportável. Num dia de calor escaldante chamei a Prefeitura para removê-lo. Ele dormia no chão e após algumas horas, recusou nosso auxílio. Preferiu continuar por aqui, pois já tinha seu abrigo certo. Já conhecia os degraus, o asfalto e os vizinhos. Nunca foi judiado. Aos cumprimentos, já não respondia mais.

O pároco e alguns solidários, decidiram salvar Leandro de tamanha agonia. Talvez por ser jovem. Talvez por ser loiro. Talvez por já fazer parte da rotina de absolutamente todos os moradores do bairro. Não há, na Pompéia, sequer uma pessoa que nunca tenha encontrado com ele. A maioria sabe até seu nome.

E assim se fez: Leandro passou a tomar banho e a dormir na igreja. Um dia, enquanto tomava café no Pão de Açúcar, Leandro me pediu dinheiro. Foi um momento de muita alegria. Como nunca antes fizera isso, demonstrava ter galgado um degrau na escala social. Da miséria absoluta, conseguia agora ser pedinte. Sua voz voltara, e ali, ao meu lado, dessa vez sem o cheiro insuportável, tomou sossegadamente seu café.

Leandro continua andando pelo bairro. Dá voltas e mais voltas em torno dos bancos da igreja. Voltas e mais voltas pelas ruas. Hoje, limpo e calçado, aparentemente deixou de ser mendigo. No fundo, em sua alma ainda carrega as mesmas mazelas de sempre, como a incerteza e a dor. Talvez já não sinta mais nada, apenas a alegria de ter um lugar para voltar. Talvez, não.

Toda vez que o vejo, olho para mim. Tão diferentes, tão iguais. Dando voltas em torno de nada. Caminhando sem saber para onde ir, amarrada à centenas de dúvidas. Leandro é meu espelho. Às vezes, me sinto ele. Dando voltas em torno de mim. Leandro não cheira mais. Mas ainda incomoda.

Receita do "sabe-tudo"


Já viu alguém fazer curso de informática sem ter computador? É um monte de teoria, um monte de palavras desconhecidas, que, ao primeiro vento, somem da cabeça para nunca mais. Não é por distração. Ensinamentos são inúteis quando não têm aplicação.
Agora, para alguém dominar o computador rapidinho é só falar que no MSN dá pra namorar, no orkut dá pra rever amigos, mostrar fotos. Aí, em dois tempos o analfabeto virtual fica expert, dá dicas e sai navegando sozinho, sem medo de ser feliz.
Para aprender uma língua? Arrume um namorado estrangeiro. Para emagrecer? Marque um encontro com ele daqui a dois meses. E assim os estímulos vão nos guiando, a motivação vai surgindo sem precisar fazer consulta com o Shinyashiki.
O tal do "sabe-tudo", nada mais é do que uma pessoa que, um dia, se perdeu. Ou pior, que nunca se achou. Aí sai procurando aqui, estudando ali, até que um dia, tem uma cultura geral de fazer inveja. A base de tudo é o incômodo, o "estar perdido".
Quem não se perde, não se procura. Nem sempre quem procura, acha.
Às vezes achamos sem querer. Outros, mesmo procurando, não acham.
O tal do "sabe-tudo" não "se acha". Se procura.

Vetando o voto



A tal informatização
limita a cidadania
Se pudesse votar à mão
alguns versos escreveria:

Para Marta e os mensaleiros
sua corja e seus comparsas
perguntaria do dinheiro
advindo das trapaças

Ao Kassab e seus santinhos
nomeados protegidos
falaria dos pobrezinhos
concursados esquecidos

Mas a tecnologia
roubou-me a liberdade
Em plena democracia
voto só pela metade.

É dose!



Marta pegou a cidade de São Paulo na lama. Segundo ela, herança de Pitta e Kassab.

Logo depois tentou se reeleger, para continuar mais quatro anos provando de tão amargo veneno.

Kassab, por sua vez, lutou para tomar a granada das mãos de Marta e conseguiu.

Hoje, tenta se reeleger para continuar, durante mais quatro anos, empossado de cargo tão amargo e desgastante.

Marta, por sua vez, tenta novamente tomar a bomba das mãos de Kassab.

A pergunta que fica é: se Kassab deixou São Paulo na lama, Marta veio e consertou, Kassab voltou e zoneou e agora ela quer novamente comandar?

Esse veneno não deve ser assim tão de amargar... pra tanta gente querer tomar...

Pensamentos Nublados

Como minha vó trazia muitos cigarros de presente pro meu pai, comecei a experimentar desde cedo. E não parei mais. Aqueles de Portugal eram tão ruins, mas tão ruins que eu fiquei cismada: como cigarros podiam ser um produto de tanto sucesso entre os adultos? Então comecei a tirar a prova dos 9, experimentando diversas marcas, até enfim, virar fumante.

Desde jovem, dois cigarros ao dia eram sagrados. Mas dois cigarros não é vício... não?

Dois hoje, dois amanhã, seis no barzinho, um maço na faculdade... no CPD onde eu trabalhava não podia fumar, então voltei aos dois. Dois, três.

E anos e anos. Não deixava os benditos porque eles me acalmavam. Qualquer nervoso, acendia o cigarro e pronto. Dispersava os pensamentos.

O fumante de poucos cigarros não se sente viciado. Não até tentar parar de fumar completamente. Quem disse que dá?

As amizades são compostas conforme os hábitos. Meus amigos, quase todos fumantes, nas saídas dos bares nem comiam. Nosso negócio era papo, bebida e cigarrinho. E éramos felizes assim.

Até que aos 32 a vaidade começou a pegar: a preocupação com as rugas em volta dos lábios... vou parar. Ai que sofrimento!

Fugir da vontade era um sacrifício: comecei a caminhar, a cuidar de plantas e principalmente a escrever. Travei o compromisso de escrever um diário falando como tinha sido meu dia sem o cigarro. E comecei a perceber que tinha sido muito bom, obrigada.

Na hora do nervoso, ao invés de fumar eu "pensava". Ou escrevia todas as asneiras que se passavam na minha cabeça. Às vezes chorava de desespero. Andava, andava, andava. E a vontade passava.

Na virada do ano, um balanço: quinze dias sem fumar. Entrada do ano novo sem cigarro, com quinze dias de abstinência, era a única coisa boa que tinha feito por mim. E assim fui pegando gosto por vencer o vício. E lá se vão quatro anos sem nenhum cigarro.

No começo, segurava o bendito apagado. Chegava a tragar. Coisa de louco, né? Ex-fumante é sempre ex-fumante, tem sempre aquela hora onde a vontade de fumar não se substituiu por mais nada. Mas vem cada vez mais fraca. Até hoje não sumiu.

Mas a surpresa é que o cigarro não me acalmava. Eu estava sempre ansiosa e nervosa, porque o cigarro nublava meus problemas. Eu fumava e esquecia. Igual beber para esquecer.

Hoje fico nervosa e sinto vontade de fumar. Mas dura um instante apenas. Some do jeito que veio e cada vez mais fraca, quase imperceptível.

Escrever é uma boa terapia de apoio para quem quer deixar o vício. Tenho diários extensos do primeiro mês de martírio.

Meu olfato é incrível, e acredito que não daria tanto valor a ele não fosse por ser ex-fumante. Com o passar dos meses sem o cigarro, o olfato foi renascendo e me mostrando uma nova vida. Mudou até o sabor da comida.

O mais legal que aprendi com isso tudo foi notar que o cigarro não me acalmava. Eu ficava nervosa por causa dele. Minha mente tentando me ajudar a resolver os problemas e o cigarro embaçando os pensamentos.

A fumaça nublava a minha vida. Hoje, é bem mais colorida.

São Paulistanos

(Prêmio Biblioteca Mário de Andrade, São Paulo 450 anos)



Domingo à tarde. Estrada cheia, certeza de sentido certo. Do rádio, informações sobre alternativas de acesso. Trânsito intenso mas fluindo bem - sinal de sorte. Aproximam-se as primeiras nuvens cinzas. Chuva? Não, São Paulo!

Rápida olhada na marginal para conferir perigo de enchentes. Tudo sob controle. A noite próxima e ainda muito a se fazer. Uma leve dor de cabeça por excesso de oxigênio inspirado durante a viagem. Volto a respirar curtinho. Saída à direita, sinalizando bem, cuidado com as motos...

Alívio por chegar. Responder aos e-mails, rever a agenda da semana e atender a um telemarketing. Pequeno impasse para o jantar - pizza, esfiha, ou chinês? A idéia de desfilar o "bronzeado" inibe abusos.

Corridinha ao supermercado, com parada na drogaria. Da padaria, pães quentinhos. Ainda há movimento nas ruas afinal, domingo é o dia universal do louvor. Lá do hospital vem a turma da troca de plantão. Sorte ainda poderem dar uma olhada nas notícias e quem sabe um lanche ali pertinho, no cyber café.

Segunda-feira. Acordar bem cedo é necessário. Se for dia de rodízio, então, melhor madrugar. Checada no tempo para escolher a roupa. Por prevenção, blusa regata, casaquinho para o frio da tarde e o guarda-chuva, providencial.

Abastecer. Não raro avenidas triplicam de comprimento em questão de segundos. Horários? Freqüentes imprevistos já estipularam novas terminologias. Há os compromissos do período da manhã e os do período da tarde.

No trabalho, novas metas a serem cumpridas. O departamento de marketing apresenta outro público-alvo, a terceira-idade. Atraídos pelo pagamento certo. Penso em voltar à universidade e à academia. A terceira-idade voltou.

Entramos numa nova era. Lixo, plástico, vidro, papel e pessoas devem ser reciclados. Ou reutilizados, como a água. Já andam pensando em banho coletivo para economizá-la. Para limpeza, até o álcool líquido foi racionado. Só gel.

Outra obrigação indispensável: ser digital. Mais informações, www. Saber a receita, www. Fazer a inscrição, ponto com ponto br. Ser visto na fila do banco mais de uma vez ao mês pode ser comprometedor. Será taxado de antigo. Taxado?

Cartões pré-pagos, contas, depósitos e recadastramentos são serviços da loteria, onde antes fazia-se apenas uma "fézinha". Todos podem freqüentar a casa de apostas sem medo, não é maravilhoso?

Bem, São Paulo não pode parar, nem nós. As crianças daqui falam palavras desconhecidas. Ensinam atalhos no micro. Indicam como cortar caminho por dentro dos bairros. Ansiosos por novas atividades, conhecem bem o dinheiro e dão palpites nos shoppings, escolhendo onde devemos comer. Sabem de tudo um pouco. Consumidores de respeito, muitas vezes podem ensinar mais do que aprender.

Amigos são raros, mas especiais. O amigo urbano tem muita disposição. Freqüenta restaurantes e casas de espetáculos. É atleta de fim de semana. Embora reclame da agitação, está sempre em movimento, e claro, quer levar você junto. Cheio de recursos eletrônicos, manda muitos e-mails, usa seu celular para tirar fotos e mesmo longe, se faz presente. Fala do cotidiano, mas não conhece a monotonia.

Os paulistanos em geral adoram o telefone, em busca constante de atualização. Podem ser encontrados à qualquer hora, o que nos dá muita segurança, apesar da insegurança. Têm fax, endereço eletrônico, serviço de mensagens. A agenda padrão já não serve mais para anotar seus dados. Reservemos então, no mínimo seis linhas, por precaução.

São Paulo também tem seus momentos de paz. Quem caminhar pelas ruas e observar nas casas os "pequenos paraísos" com anõeszinhos na entrada e plantinhas floridas, encherá seu coração de alegria. Cuidado apenas com os cachorros, que andam pelas ruas sem fraldas, deixando marcas e lembranças adesivas.

Paulistano é todo morador daqui, sem distinções. São Paulo foi criada assim. Sem donos, apenas habitantes. E todos sabem disso. E todos gostam disso.

Ter a certeza de mudança constante. Gente chegando, saindo, vindo pra ficar ou indo para sempre. Prédios subindo. Um exercício constante de desapego.

Ser paulistano é ter tantos irmãos quanto a mãe mais generosa do mundo possa adotar. Conhecer e incorporar a cultura de um mundo inteiro. A experiência mais enriquecedora de todas, e a mais importante também. Desenvolver a verdadeira consciência de sermos realmente iguais e interdependentes.

Morar aqui não é pra qualquer pessoa. Precisa ser inteligente para compreender o mais amplo universo de sotaques, não ter preconceito com a mistura de raças, ser paciente ao máximo. Saber ver beleza no cinza, compreender as pessoas, conhecer a necessidade de cada um só de olhar nos olhos e ajudar, sempre.

Mas quem não é assim não precisa se preocupar. O que não falta é gente pra ensinar.


Sampastel

São Paulo, cidade incrível
Tanta coisa imperdível
É difícil descrever.

Mas talvez seja a comida
Nossa atração preferida
Para a hora do lazer.

A que mais se visita
É uma massa frita
Com recheio variado.

É bem fácil encontrar
Basta na rua andar
Dia útil ou feriado.

Lá na feira da esquina
O pastel predomina
Como o lanche mais amado.

Bastam duas moedinhas
E em duas viradinhas
Tá prontinho e arrumado.

Por ser tão popular
A alguns pode causar
Certa indignação:

- Mas olha, quanta gordura!
- Dane-se, que gostosura,
nem por isso vou morrer.

- É preciso cuidado
Pode estar contaminado,
e aí você vai ver!

- Não se preocupe comigo,
Pois o japa é meu amigo,
não há de me envenenar.

E assim, toda semana,
Mesmo quase sem grana,
O pastel eu vou comprar.

Apenas ao mastigar,
Um cuidado hei de tomar,
Se estiver muito fervente.

É que a primeira mordida,
Pode ser bem dolorida,
Se o ar estiver quente.

- Faz mais um pra viagem,
Desgraça pouca é bobagem,
Nada me faz tão contente!

E de brinde, no saquinho
Mais um mini pastelzinho
Vem de graça pela frente!

Injustiça

O recheio teima em ficar

só pra um lado da metade mas não

na parte

que me cabe.

Hoje não

Vinha de longe a decepção:
O silêncio, um não
o sumiço.
A desculpa no excesso
de compromisso.
Perdi sono, alegria
o sorriso.
Foi-se até a vontade, o gosto
de comer um pastel
antes do almoço.

Piscina aquecida

Sempre quis saber

como reconhecer

o pastel que mergulha

misturado com outros

lá no meio da gordura.

Então tomei coragem:

perguntei ao japonês

como fritar os pedidos

todos de uma vez.

Repare bem

preste atenção:

No cantinho há desenhos

funcionais e divertidos

marcando as diferenças

dos sabores preferidos.

Mas é só pra quem tem olhos

pra quem presta atenção.

Especiais são todos

diferentes, é claro

mas feitos conforme

o gosto de cada um.