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Sabores que eu não gosto

Se tem uma coisa que eu não gosto é hamburger com gosto de churrasco. Se eu quisesse fumaça de churrasco (cancerígena, por sinal), eu iria ao churrasquinho de gato lá do centrão e pediria um espetinho. Puta que pariu, o burger king tem o lanche com gosto de fumaça. Ainda bem que o Mc Donalds aboliu aquele hamburger que também tinha esse sabor. A Elma Chips chegou a fabricar batata frita sabor churrasco. Tirou da praça. Hoje comi um desses hamburgeres sabor churrasco. Tudo em nome do amor que eu sinto pelo meus sobrinhos.

Impressionante como os valores de família estão se perdendo. Geralmente cabe às mulheres manter a união de todos. Fazer cara de paisagem quando muitas vezes a vontade seria rodar a baiana. Aguentar pessoas de mau caráter e fingir que não vê.

Hoje estou meio perdida para escrever. Sinto que o passar dos dias traz novas responsabilidades que a gente não procurou, mas que é importante abraçá-las para manter o conforto dos entes queridos.

Novamente o passar dos anos faz meus olhos se voltarem para o poder financeiro como sendo um dos poderes mais importantes, para deixar os bons valores fluírem em toda sua plenitude. Disponibilidade, tempo, beijos e abraços são essenciais, mas uma firme estrutura econômica reforça o caminho para as boas decisões.

Ter poder econômico para prover o básico com boa sobra para eventualidades é ter poder para abraçar a família em todas as suas eventualidades.

A Igreja Católica tem dito que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Para mim, manter a união da família preservando dignos valores, é servir a Deus. E isso muitas vezes não é possível quando falta o básico, ou falta a sobra. A Igreja é irresponsável e sabe disso. Se não soubesse suspenderia as coletas nesse ano de 2010 onde a Campanha da Fraternidade fala sobre a importância de se desapegar das coisas materiais.

Nada levaremos dessa vida além dos valores. E para que esses sejam mantidos em toda sua plenitude, é preciso ter poder financeiro para nos permitirmos dizer não às traições, não à vida de infelicidade. Separações onde a mulher não pode manter os filhos muitas vezes não são possíveis. Ou são dificultadas. Manter a família infeliz não é manter uma boa família. A boa família une os membros de bons valores e se fortalece com reserva suficiente para caminhar rumo a um futuro mais feliz.

Reflexões de Final de Ano



E novamente já é Natal. E ainda não comprei nenhum presente.
As pessoas mais chegadas também fazem aniversário no final de ano. Então eu fico preguiçosa pra comprar presentes.


Ao invés de me organizar, todo ano faço a mesma coisa: espero o dia ir chegando e vou pensando pensando... e penso também que não sei porque a gente tem que comprar presentes em datas específicas. O gostoso é levar alguma coisa quando olha e vê que tem a cara da pessoa, em qualquer data. Com obrigação quase sempre compramos por comprar, ou andamos até não poder mais para achar alguma coisa que a pessoa nem vai usar.


O problema maior é que hoje todo mundo tem quase tudo, então a pessoa ganha e não usa porque até esquece o que tem. Alguns presentes então, melhor nem virem, como aqueles comprados por obrigação pra compensar a falta de atenção dispensada durante o ano todo.


As convenções do comércio são chatas, mas necessárias. Muitos criticaram Lula quando ele mandou comprar e comprar. Mas se for refletir, a nossa economia e o nosso trabalho está intimamente ligado ao comprar. Realmente, um Presidente que quer aumentar o PIB não pode mandar o povo não comprar. Mas ao mesmo tempo, comprando a gente destrói a natureza e as tempestades e enchentes já estão começando a dar as caras e a mostrar que nosso lucro logo logo vai virar um prejuízo e tanto.


Aquele velho papo que Natal é Deus e não presentes, ainda não colou. Papai Noel ainda é muito mais pop nessa época do que o Menino Jesus. É só olhar pros enfeites de Natal espalhados por aí. Jesus veio peladinho, sem saco de presentes, e os Reis Magos trataram de levar alguns apetrechos para adorá-lo. Papai Noel tem um saco sem fundo, desses que a gente acha que vai sair coelho, namorado, emprego e tudo o que alguém pode sonhar. Então, para a economia, Papai Noel é o canal.


O final de ano me faz refletir sobre o que de bom fiz pra mim. Nesse ano fiz algumas coisas boas, mas uma barbeiragem um pouco antes do meio do ano empatou a minha vida. É, tudo na vida tem um preço, e depositar a felicidade em outro ser humano é quase sempre um investimento de alto risco. Mas não tem jeito, eu sempre faço isso. E quando vejo que fiz mau negócio, ao invés de mudar a aplicação de minhas expectativas, espero o banco falir. Sou demorada.


Ser demorado, nos tempos de hoje, é suicídio. Eu tenho essa tendência. Não mudo os meus valores básicos, não mudo o ritmo e acabo sempre ficando pra trás. Por isso mesmo não me sinto com a idade que tenho. Olho pros mais jovens tratando de amores como quem faz barganha em feira livre e acho que o coração dessa gente é velho. Olho pra eles falando em dormir de conchinha e reflito que venho de uma criação onde isso nem dava pra se fazer, porque tinha hora pra chegar em casa, então, dormir nem pensar! Eles viajam com os namorados, levam vida de casado, estão sempre procurando algo que nem sabem o que é e vivem espalhando por aí que isso é aproveitar a vida. Porém, estão sempre insatisfeitos. Então por isso mesmo me sinto jovem quando olho para eles. São muito calejados e vividos. Alguns já endureceram o coração antes dos trinta. E até na idade se acham velhos. Vê se pode...


Ao mesmo tempo penso que eles têm alguma razão. A rotatividade também nos traz bastante experiência, e nesse ponto sinto que pequei. Deveria ter encontrado um meio termo e não ter acreditado que um dia o príncipe ia perceber que eu era a mulher da vida dele. A gente faz muitas loucuras na vida, as maiores delas relacionadas à paixão. Mas, o que é a vida sem ilusão?


Enfim, espero que muita coisa em minha vida mude, mas que nunca perca a capacidade de me apaixonar e de acreditar que uma pessoa pode ser muitas, que as pessoas mudam com o tempo, que nunca se conhece um ser humano em sua totalidade e é aí que está a graça de apostar num relacionamento apenas.


Querer relacionar a felicidade conjugal ao desfrute desenfreado com vários parceiros é subestimar a inteligência e a versatilidade da obra de Deus. Uma das coisas que mais me irrita atualmente é ter que explicar o porquê de querer namorar uma pessoa só, ser mais reservada, canalizar energias para alguém interessante sem com isso ficar zanzando por aí enquanto espero a pessoa aparecer. Vivo ouvindo que preciso rever meus conceitos, que perco meu tempo e durmo no ponto. É, pode ser. Mas quando a gente ingressa no mundo da falta de princípios, a viagem é interessante porém nos despe de todo e qualquer tipo de censura. E quem se machuca com isso, não preciso nem dizer.


Mas mesmo assim vou pedir que Papai Noel não permita que eu me afaste dos sentimentos mais puros, da confiança no ser humano e na intenção de construir coisas boas. Ser honesto nos dias de hoje é se agarrar num tronco de árvore enroscado no leito do rio em meio à forte correnteza.


Que meu tronco me suporte, que a tempestade seja leve e que, com sorte, nesse rio haja alguém perdido e que também tenha os sonhos parecidos com os meus.


Feliz Natal!

(publicando novamente) Reflexões de Final de Ano (original em 20/12/2008, 00:10)

Levemente maluca

Minha tia era louca. Mas não nasceu assim. Teve uma depressão pós-parto e começou a se afastar do mundo, até não falar mais coisa com coisa. Morreu há alguns anos, quase idosa,
sem nunca ter sarado.
Ela falava que quem tomava muito café ficava preto e conversava mil vezes o mesmo assunto. Perguntava alguma coisa pras pessoas e quando elas respondiam, ela comentava a resposta e em seguida fazia a mesma pergunta de novo. E de novo. Aí, quando a gente começava a rir, ela ria também. Quando ela me ligava eu ficava um bom tempo no telefone, até que chegava uma hora em que ela mesma percebia que já era hora de desligar. Eu ficava com pena dela, mas ao mesmo tempo ela me encantava, pois estava sempre de bom humor. Às vezes alguma coisa a deixava injuriada, como por exemplo quando alguém brigava com alguma de suas filhas. Ela gritava, falava alto e depois de um tempo voltava a ficar contente.
Ela xingava os vizinhos. Ficava na varanda de casa e mexia com quem passava na rua. Tinha gente que ficava p. da vida com ela, porque há pessoas que são mais loucas que os próprios loucos e são capazes de se ofender com eles.
Quando minha tia morreu, todo mundo ficou pensando no porquê dela ter tido uma vida tão difícil, e ao mesmo tão fácil, porque depois que ficou doente, nunca mais teve que se preocupar com contas e com as mesquinharias da vida. E eu fiquei pensando se mais louca era ela ou somos nós, que nos enredamos em mil intrigas e picuinhas, a troco de conquistar o respeito dos outros durante certo tempo, porque se for ver, todo mundo fala mal de todo mundo.
Se um é rico e não tem tempo de olhar a mãe, é acusado de coração duro. Se o outro tem bastante tempo mas não pode ajudar com dinheiro, é chamado de vagabundo. Mas o vagabundo e o sem tempo se completam na hora de ajudar alguém. Um cuida (o vagabundo) e o outro banca (o rico). Se disser pro rico dar uma de vagabundo ele vai achar que dá muito trabalho. E se disser pro vagabundo dar uma de rico, ele não se sentirá capaz.
Acho que no fundo Deus faz tudo certo. Enquanto uns servem para prover, outros servem para cuidar. Enquanto uns vêem a parte prática, outros são mais delicados, trazendo uma visão de sensibilidade. Nem dureza nem fragilidade são boas em excesso, então o negócio é valorizar o que cada um pode dar e procurar distribuir as tarefas da melhor forma para todos.
Estava pensando que às vezes é bom ser maluco. Não maluco, louco de pedra. Mas meio doidinho assim, desses que fazem a vida ficar mais leve.
Ontem passou uma italiana de 98 anos, sobrevivente do terremoto, que esperou 42 horas pelo resgate fazendo tricô. E avisou que estava muito triste por ser entrevistada descabelada. Deliciosamente maluca, fez com que todos sorrissem, mesmo naquele panorama de imensa tragédia.
Aqui está o video com ela, e não é difícil entender a razão dela estar viva até essa idade:

Aos Amigos

Essa página fez seis meses.
Nunca gostei de blogs, nem de diários.
Aliás, mesmo meus cadernos de escola eram um enigma até pra mim.
Frequentemente eu não anotava nada nas aulas, e para estudar para as provas acabava tendo que xerocar os cadernos dos meus amigos CDFs.

Escrever era coisa para aliviar quando estava triste.
Escrevia mais pra falar coisas que não tinha coragem de falar e, escrevendo, ficava mais aliviada.
Geralmente eram textos bem melodramáticos, aquelas coisas bem apaixonadas, misturadas com a dor do desprezo. Escrevia sempre movida por muita angústia.

Até que um dia decidi não escrever mais nada, afinal, cultivar aquele sofrimento todo era horrível! Aquela papelada guardada cheia de "barriga-me-dói" devia me trazer até azar.
Joguei tudo fora! E me senti bem melhor.

Passei muito tempo sem escrever nada, tanto tempo que comecei a ter muitas dúvidas de português. Fiquei incapaz de escrever até mesmo uma simples redação.

Aí ingressei numa nova fase. Passei a escrever coisas alegres, engraçadas, a me divertir com os textos, tirando sarro das desgraças. A começar pelas minhas próprias, que não foram poucas.

Quando montei essa página, foi por indicação de um colega que me disse para disponibilizar meus textos na internet para nosso grupo se organizar direitinho.

Então montei apenas para guardar os textos, como se fosse aquela pasta amarela que um dia joguei fora com as minhas lamúrias de adolescente. Mas, para a minha surpresa, recebi milhares de acessos. Até eu mesma me surpreendi.

Então os amigos começaram a gostar, e eu comecei a ficar com medo! Porque nos textos sempre tem muito da vida particular da gente, muitas visões dos amigos, da família, e nem sempre são das melhores!!!

Aí comecei a tomar bastante cuidado com isso, até mesmo a me censurar! E pensei em montar uma outra página onde eu pudesse escrever sem me identificar, para ter mais liberdade de falar sobre qualquer assunto.

Mas aquela história de escrever quando estava triste não mudou muito. Os textos é que mudaram.
Tem horas em que estou triste e escrevo coisas alegres, mas, no fundo, as historinhas não deixam de ser um pedido de socorro.

Então comecei a pensar até que ponto esse hábito não colabora para que a gente fique cada vez mais sozinho! Nada mais solitário do que escrever. Quem está triste e conversa com os amigos acaba trocando idéias, se distraindo, rindo, falando bobagens. Mas quem desenvolve o hábito da escrita, nada mais faz do que falar o tempo todo sozinho.

E vai construindo uma imagem em torno de si que nem sempre é verdadeira. Algumas pessoas até mudaram o tratamento comigo. Uns ficaram mais simpáticos, outros, mais distantes. E eu entendo o por quê.

Sou uma pessoa tranquila - até demais. Mas a internet constrói uma imagem totalmente diferente daquilo que somos na realidade. O que escrevo aqui é mais ou menos uma fotografia do que qualquer pessoa pensa. A diferença é a escrita.

Mas, como milhões de coisas passam na cabeça de todo mundo ao mesmo tempo, quando alguém organiza meia dúzia de idéias e transforma num texto, dá a sensação de que aquela pessoa é diferente de todo mundo. Mas isso é errado.

Os textos são como os pensamentos, os julgamentos: Aparecem na cabeça da gente agora, mas daqui a pouco nem lembramos mais daquilo. E quando lembramos, muitas vezes já estamos achando outra coisa, e outra e outra...

Falar sozinho é meio perigoso, ainda mais quando se fala alto, como aqui. E a sensação que dá é que tudo o que se escreve é verdade, é baseado na vida real do escritor, e isso não é verdade.

No texto sobre São Paulo 450 anos, por exemplo, escrevi uma realidade que nunca teve nada a ver com a minha. E as crônicas são assim mesmo, a gente acaba maquiando aqui e ali para ficar interessante, inventa para ficar mais engraçado e é aí que mora o perigo.
Quem lê vai idealizando mil coisas sobre a gente e quando vamos ver, ganhamos amigos virtuais, mas perdemos amigos "reais" e isso é muito ruim.

Mas estou dando um tempo no blog não somente por causa disso. Escrever poesias para mim é apenas uma brincadeira de juntar palavras. Não me considero "poeta" nem "intelectual" como dizem meus amigos. Não sou nada disso. Sou simples - até demais. Acho os intelectuais chatos e arrogantes. Deus me livre de ser um deles! E Deus me livre também de ser uma dessas mulheres executivas, cheia de manias de dar ordens e de se achar grande coisa.

*A internet até tem o "dicionário das rimas", o cantor Latino se utiliza muito dele. ;)

O que eu gosto mesmo é das coisas simples, das crianças, da família. E a internet rouba um tempo incrível da convivência com a família.

Nesse final de semana minha tia adoeceu gravemente, e isso veio ao encontro da vontade que sinto de voltar a ser eu mesma, de voltar a conviver mais com as pessoas. Vontade de aproveitar o tempo com as pessoas importantes, e parar de correr atrás daquilo que eu não tenho.

Na verdade, quando escrevo bastante geralmente estou movida pelo desejo de dizer algo para alguém que não tem disponibilidade de ouvir. E fico tentando, e esperando, esperando... Enquanto isso, perco tempo de convivência com aquelas pessoas que estão mais perto. E a gente nunca sabe até quando estarão.

Aproveito para agradecer aos amigos queridos que me encheram de elogios depois de lerem as coisas que escrevo, o que é uma honra, já que esse mundo conta com infinitas informações! Esses milhares de acessos ao blog me deixaram super envaidecida!

Já há muito tempo minha convivência com os amigos tem sido mais virtual do que real.

Com o orkut, o blog, o MSN, até mesmo meus amigos reais acabaram se tornando "amigos virtuais". E isso é horrível. Porque no orkut estamos sorrindo o tempo todo, no MSN a gente é mais um boneco verde e no blog eu sou a pessoa mais crítica do mundo. E nada disso é verdade.

(Apesar que hoje é Dia da Mentira, o que pode trazer dúvidas quanto à credibilidade daquilo que escrevi. Mas eu juro que é verdade.)

Brigadeiros conciliadores

Festa de criança sem brigadeiro é decepcionante.
Pode faltar tudo, até o bolo, mas se faltar o brigadeiro, parece incompleta.
O brigadeiro é fácil de fazer, mas mesmo com poucos ingredientes, cada hora sai de um jeito.

O problema maior dos brigadeiros de má qualidade está no granulado. Tem uns que são muito duros, outros têm sabor de gordura hidrogenada, e aí comprometem o resultado final.
Lembro como se fosse hoje, quando eu era pequenininha e vi um brigadeiro gigante na vitrine da padaria. Não tive dúvidas: Já que estavam falando para eu escolher um doce, nada melhor do que aquele brigadeiro maior do que eu. Ah... foi decepcionante, pois era um daqueles brigadeiros feitos com batata-doce, pra render mais. :(

Naquele dia aprendi que a beleza não é tudo, e passei a ser fã dos brigadeiros pequenos, desde que não fossem do Paraguai, como aquele.
Brigadeiro é bom a qualquer hora: É bom sem enrolar, comido direto da panela, na xícara. Costumo fazê-lo quando brigo com a minha sobrinha e preciso encontrar um método infalível de reaproximação.

O melhor granulado de todos é o da Turma da Mônica, mas o da Garoto também é gostoso.
Não costumo por muita margarina, senão fica enjoado.
Outro dia não tinha margarina e eu usei creme de leite, ficou uma delícia.
Se for feito com chocolate do padre é gostoso pra comer até quente, e se for com Nescau, gostoso mesmo fica quando esfria.

Só de falar em brigadeiro já estou ficando com água na boca. Sei lá, acho que é porque estou com saudades dos tempos em que eu era criança e ficava feliz quando o céu estava azul de doer, como hoje de manhã.

Procissão


Hoje foi dia de procissão. Todo ano tem, o que varia é o caminho. Traçar a rota aqui pelo bairro é um desafio, devido ao grande número de veículos e de ladeiras. Como a maior parte dos fiéis é formada por idosos, o Pároco sempre leva em conta o bem-estar de todos para a definição da trilha de Jesus.

Mas hoje foi diferente. O Padre definiu um caminho incomum, bem mais longo do que o normal. Como a missa já havia sido bem demorada, e as seção de longos beijos à Jesus crucificado fora interminável, já estava cansada e decidi acompanhar apenas a saída da procissão da igreja. Assim que Jesus passasse eu iria embora, descansar em casa.

Fiquei lá fora, quando um grupo de escoteiros veio com uma corda e isolou a faixa da esquerda da avenida, para que os veículos continuassem passando apesar da procissão. A polícia colaborou e os fiéis lotaram as ruas, seguindo o carro de som. Jesus e Nossa Sra. vieram atrás, carregados pelos homens e pelas mulheres, respectivamente.

Mas a estátua de Jesus é imensa. Ele está deitado, e o peso daquela imagem é digno de nota. Os homens da comunidade colocaram Jesus sobre os ombros, e estavam visivelmente abatidos já na porta da igreja, antes mesmo que o cortejo começasse.

O caminho seria longo, com 14 estações reproduzindo o martírio de Cristo. Logo que olhei aquela cena, dos homens cansados, tremendo com Jesus nos ombros, pensei que hoje seria o último dia que veria aquela estátua inteira. Seguramente deixariam Jesus cair, pois o peso tenderia a aumentar ao longo do caminho, apesar do rodízio combinado entre eles.

Decidi acompanhá-los movida pela imensa curiosidade de saber como eles poderiam suportar aquele peso todo. E ao lado deles segui descendo a avenida. Vários quarteirões. As pessoas, que há poucos minutos beijaram o filho de Deus na igreja, na rua pareciam outras. Incrível como um ambiente pode fazer um povo, mas hoje vi que isso é pura verdade. Dentro do templo assumem uma postura. Na rua, outra. E lá iam os rapazes e Jesus, equilibrado.

O Padre ia parando em frente às casas, ao hospital, rezando pelos doentes. Ele conhece a residência de muita gente, porque frequentemente é chamado para orar por eles, para dar a unção dos enfermos ou mesmo para abençoar as casas. Reza missas em domicílio, o que faz com que ele conheça um grande número de pessoas pelo nome e pelo endereço.

Nossos rapazes, impávidos, seguiam com Jesus. E na subida, não se fizeram de rogados. Continuaram firmes, imprimindo passo cadenciado e rápido, suportando o peso bravamente. Quando o Padre parou em frente a uma boutique chamada "Divino Pano", olhando para aquelas roupas transadas falou em alto e bom tom:

- Nós deveríamos nos preocupar em nos cobrir com o Divino Pano da Dignidade, ao invés de pensarmos apenas nas vestes!

Naquela loja havia um cachorro poodle que ficou olhando para a multidão sem latir. E algumas pessoas riram diante das palavras do padre, que em tom de crítica à futilidade humana não poupou esforços para demonstrar sua chateação com algumas pessoas da comunidade.

Teve gente que buzinou, porque a procissão começou a atrapalhar o trânsito. Outros montaram altares nas portas das casas, e receberam mil bênçãos. Quem buzinou para a procissão seguramente não reclama de usufruir do feriado, pois nosso calendário ainda é católico - apesar de hoje o Brasil ser um país predominantemente evangélico.

Hoje, para variar, vim para falar sobre uma coisa diferente que notei na comunidade: Hoje não me irritei com meus amigos fanáticos. Talvez porque tenha ficado com pena deles, pois chegaram muito cansados e suados, mas mesmo assim mostravam um sorriso no rosto de grande satisfação.

Essas pessoas não foram viajar para compor a festa católica da Páscoa, e estão a semana toda trabalhando em eventos diários para a conclamação de Jesus.

Eles são amigos, conhecem os vizinhos, sabem de muitas histórias. O fato de se reunirem sempre, proporciona a eles uma grande gama de informações sobre a comunidade e nossa gente. Dá pra ver que sentem muito amor pelo bairro, pela cidade, e trabalham para que nos tornemos uma grande família, banhada por união e muita paz.

Embora tenhamos diferenças grandes, hoje deixo registrada a minha admiração pela dedicação e abnegação com que trabalham durante o ano todo, a troco de nada. O único pagamento que recebem é a alegria dos vizinhos, que sempre têm um lugar alegre e organizado na hora em que sentem vontade de rezar.

Feliz Páscoa a todos, especialmente aos que se dedicam a construir essa festa. Não só a dos chocolates, mas a da palavra de Deus, que se resume sempre no amor que devemos sentir pelas pessoas. E na necessidade de compreendermos e aceitarmos a todos, apesar dos pesares, mais e mais a cada dia.

Pelo menos eu já conheço os defeitos deles, e eles conhecem os meus. Mas isso não nos impede de continuarmos juntos e, cada um ao seu modo, vai ajudando a fazer de nosso bairro uma grande família, que graças a Deus tem conseguido conviver em paz.

Conquistando papéis

Meu avô é lembrança distante. Um chapéu com cheiro de naftalina. Alguém que falava outra língua, mas que eu sempre entendia. Talvez porque ele me dissesse sempre as mesmas coisas: "Bella di Nonno".

Ele era sapateiro e de seu trabalho lembro bem do cheiro de cola. Alguns discos de histórias que me deu (quando os livros vinham com música.) Eram discos coloridos. Outro dia fiquei felicíssima ao encontrá-los para download, e para a minha supresa, após décadas ainda conseguia cantar as historinhas. Mas me faltaram as cores e os livros. O chapéu, e a cola.

Meu avô morreu quando eu tinha sete anos, portanto, tenho poucas lembranças dele. Ele teve um AVC e ficou no hospital. No dia de sua morte (poucas horas antes), minha mãe subiu as escadas do São Camilo comigo para vê-lo pela última vez.
Entrei escondida atrás de sua saia, porque crianças eram proibidas.
Ele estava paralisado e minha mãe (também sem permissão dos médicos), deu água para ele numa colher, pois sua boca ficava aberta e sentia muita secura na língua.

Naquela mesma noite ele morreu, e no dia seguinte fui ao primeiro velório de minha vida. Fiquei olhando para ele deitado no caixão, com muitas flores vermelhas e um véu roxo. Como éramos amigos, tentei abrir seus olhos quando não havia ninguém por perto. Minha mãe quando percebeu quase me bateu, pois, devido à paralisia, tinham demorado quase uma hora para conseguir fechar seus olhos.

De meu outro avô não trago nenhuma lembrança, já que morreu quando meu pai era muito jovem e minha avó não guardou nenhuma foto dele (coisa que nenhum dos netos consegue se conformar até hoje). Os primos de Portugal disseram que essas fotos existiam. Se nunca tivessem existido, seria diferente.

As lembranças do avô que eu nunca vi são formadas por histórias contadas pelos parentes mais velhos. Às vezes, quando estou desanimada da vida, fico pensando nas lembranças que deixarei caso meus descendentes venham a me conhecer apenas por histórias.

Nessas horas penso em ser boa. Mas nem sempre consigo. Melhorar como ser humano é uma luta difícil e diária. Pode ser que um dia não reste da gente sequer uma foto. Mas ficaremos sempre nas lembranças de alguém, e com certeza, faremos parte de muitas histórias. Talvez a vida não seja muito mais do que isso. A luta diária pela conquista de um belo "papel".

Enxugar o mar

Hoje choveu uma chuva diferente. Avisou que chegaria bem devagar. Quem sabe ver os sinais da natureza, tratou de sair mais cedo do trabalho, de pegar o guarda-chuva ou de arrumar um barzinho para esperá-la passar.

Ela caiu bem na hora do rush, para deixar o trânsito do túnel da Paulista parado. Os ônibus embaçaram. Os motoqueiros aproveitaram o coberto e estacionaram. Quem teve sorte, entrou na livraria. Quem estava desprevenido, ou foi tomar café ou ficou num cantinho, contando que ela fosse embora logo.

Mas a noite veio e a chuva continuou. Alternando períodos fortes e suaves, quando permitia que alguns tomassem seus caminhos. Eu fiquei na livraria procurando técnicas e métodos para atrair a atenção do leitor. Procurando algum autor com quem me identificasse. Buscando inspiração para mais trabalhos. Mas ali, nada encontrei - além de um tédio tremendo.

Às vezes a cabeça da cansa. Tem hora que de tanto achar mil coisas, acabamos não achando mais nada. Livros infantis de poesias com rimas melosas e estridentes me deram ânsia de vômito. Aqueles milhares de livros me tontearam, me deram vontade de fugir para a Ilha da Fantasia, onde o que existe é um copo de batida, uma música animada, o sol, o mar e mais nada.

E aquelas pessoas da livraria? Gente estranha, esquisita, gente que dá medo até de comentar qualquer coisa com eles sem que comecem a tecer uma filosofia daquelas que a gente tem vontade de virar um "cone" enquanto escuta. O problema é que aqui em São Paulo nem o cone tem sossego.

Um dia li um livro que dizia que as pessoas só devem se alimentar daquilo que quiserem se tornar. Por exemplo: se eu não quiser ficar pirado, não devo estudar psicologia e suas mil nuances do comportamento humano. Se eu quiser desenhar meu nome com o compasso no tronco da árvore, nunca devo estudar ecologia, porque a partir daí vou começar a me sentir culpada por isso. Se eu quiser comer um milho no camelô do ponto de ônibus sem achar que vou morrer, não devo saber o que é intoxicação ou bactéria. E por aí vai.

Tenho uma amiga que fala que sua vida nunca mais foi a mesma depois que estudou Gestão do Meio Ambiente. Diz que depois disso, nunca mais conseguiu admirar uma árvore sem analisá-la num contexto mais global. E foi ela quem me ensinou uma das coisas mais importantes do ano passado:

Essa minha amiga canta muito bem, mas muito mesmo. E eu perguntei a ela se algum dia quis se tornar uma cantora profissional. Ela me disse que não, nunca. E explicou que não é porque a gente goste de fazer algo, que isso tenha que se tornar uma profissão. É feliz em cantar só pra si ou pra família. E ponto.

Hoje senti saudades dos tempos em que eu tinha a cabeça vazia, antes de entrar na faculdade. Saudades de andar de mochila e tênis. Hoje a Paulista me transportou há muitos anos, quando naquele mesmo lugar, àquela mesma hora, eu voltava do cursinho. Ali, onde hoje é uma grande livraria, era um imenso cinema. O melhor da cidade, o Bristol. A livraria é linda. Mas o cinema me fez falta. E eu nem gosto de cinema.

Hoje a chuva molhou tudo, caiu sem parar. As milhares de gotas transformaram o asfalto num grande gramado prateado. E as luzes dos carros refletindo na água, faziam a rua toda brilhar.

Lembrei de quando, há muitos anos, naquele mesmo lugar, protegia minhas apostilas do temporal. De lá pra cá, muita coisa mudou dentro e fora de mim. Mas naquele tempo eu era muito mais feliz. Eu era feliz porque sabia menos coisas. Porque tinha muitos sonhos. E de tanto estudar e ouvir tantas opiniões diferentes, acabei desacreditando da metade deles. Sem falar que as opiniões são tão controversas, que atualmente não acredito em quase nada do que escuto.

Hoje para mim, além da força da chuva, que determinava quem iria para onde, fez sentido somente uma carona que ganhei num guarda-chuva.

O sanduíche gelado que comi reforçou a sensação de que o que eu penso ou deixo de pensar pouco importa. Mais vale o trabalho daquele que deveria ter esquentado o meu lanche - pois ao menos teria me feito feliz.

E vale mais ainda a carona da minha irmã, que sempre se preocupa comigo quando estou na rua.

E a minha sobrinha que estava me esperando em casa com um saco de pirulitos, me aconselhando a consumir o pirulito verde; e que embora o papel seja verde, o pirulito é de abacaxi. Eu discuti um pouco dizendo que prefiro o vermelho, mas ela acabou me convencendo a pegar aquele e estava certa: era mais gostoso mesmo.

Nessa noite trago a livraria e a sensação de tédio infinito que ela me proporcionou. Os livros e a canseira que me dão. As dúvidas que me colocam. A simplicidade que me roubaram, dos tempos em que era feliz olhando para o nada.

Hoje senti vontade de falar pouco. De não saber muita coisa. Quis ser a menina que protegia as apostilas do temporal. Se eu pudesse voltar a ser ela, deixaria, feliz da vida, que a chuva molhasse todas.

Aniversário de São Paulo


Por que devo dar um presente a essa cidade que tão poucas coisas me deu?

Na infância e juventude, a cidade me ofereceu um ensino público de baixa qualidade, e tive que me esforçar bastante para conseguir entrar na faculdade.

Quando saí da faculdade, encontrei uma seqüência de nãos, uma série de portas fechadas na cara enquanto buscava emprego. Isso me custou seqüelas psicológicas incríveis, mas já era tarde para buscar consolo ou norte na faculdade. Lá, depois que paguei a última mensalidade, não pude mais entrar.

Aqui, até hoje não encontrei uma pessoa sequer disposta a facilitar a minha vida. Alguém que me estendesse a mão em meus piores momentos. Alguém para me dar rumo, para me dar as mãos, nas centenas de vezes em que andei perdida. Perdida não por essas ruas, mas dentro de mim mesma.

Quando quis abrir uma empresa, esbarrei em toneladas de gastos e burocracias que me amedrontavam, e o tal incentivo ao empreendedorismo se disfarçava em uma série de obrigações com o Estado, que já queria se tornar meu sócio remunerado com adiantamentos, antes mesmo de eu começar a trabalhar.

Meus pais, que sempre trabalharam e pagaram impostos corretamente, por serem estrangeiros, nunca tiveram direito ao voto. Nunca puderam escolher um representante.

Depois, quando comecei a inventar saídas criativas para meus problemas, não obtive respaldo financeiro nem em associações, nem em bancos, nem em lugar algum.

Meus inventos guardo numa caixa de sapatos, e como um político iniciante, sonho um dia encontrar alguém que financie minha campanha.

Aqui encontrei muitos amigos de conveniência. Depois, sumiram quando mais precisei. Eram muito bacanas enquanto a gente tomava chopp e falava abobrinhas. Depois, cada um foi cuidar da sua vida.

Aqui em São Paulo prestei dezenas de concursos, paguei preços altíssimos em inscrições e fui tratada como componente de um rebanho, deixando impressões digitais enquanto me enfileiravam com a multidão em saídas estreitas. O resultado deles nem sempre foi possível acompanhar. Nem sempre foi possível saber se aquela vaga existia de verdade. Nem é possível saber o que de mim será. Só sei que sou mais uma Fernanda, entre as centenas delas que ocupam andares inteiros de faculdades particulares.

Isso mesmo, faculdades particulares, pois o Estado, ao invés de organizar processos seletivos em instalações públicas, cobra do cidadão contribuinte o aluguel de empresas privadas, enquanto suas instalações descansam vazias.

O transporte público está cada vez mais apertado, não apenas pelo excesso de gente, mas pela proximidade das cadeiras. Meus joelhos esbarram no banco da frente, e em alguns transportes nem sequer caibo sentada. Os encostos ejetam as pessoas das cadeiras. O preço da passagem cobra viagem confortável, mas a realidade é que tiraram os bancos dos ônibus para mais gente viajar em pé. Mas quem anda de carro sem cinto de segurança, é multado.

Se uma árvore estiver podre, não posso contar com a Prefeitura para podá-la. Eles têm pedidos demais, então temos que pagar para alguém podar a árvore - escondido. Por causa disso, alguns acidentes com vítimas fatais têm acontecido, mas não há com quem reclamar.

Se meu vizinho me inferniza 24 horas por dia com cachorro latindo e gritaria, também não posso chiar. Não existe ninguém habilitado a cuidar disso. Mas o carnê do imposto chega religiosamente todo começo de ano, sem atrasar.

Para se ter uma idéia, essa cidade é tão bem organizada que um farsante foi descoberto quando já possuía 56 postos de gasolina. Isso porque adulterava combustível de uma forma vexatória. Não fosse por isso, continuaria prosperando livremente.

Quase todos os shoppings da cidade funcionam sem o "Habite-se", até mesmo o badalado "Shopping Iguatemi". Mas ai da gente se tirar uma telha para fazer reforma. O fiscal bate na porta no dia seguinte.

Para assistirmos a uma partida de futebol temos que desembolsar R$ 30,00. Fora o estacionamento. Quem prefere deixar o carro na rua também tem que por a mão no bolso, porque a rua tem dono. E os donos da rua estão por toda parte. Trabalham livremente com o consentimento da Polícia. Tem gente tão cara-de-pau que vende o Zona Azul e depois pergunta: posso olhar?

Essa cidade não me apresentou ao amor da minha vida, meus filhos palmeirenses não nasceram, meu sucesso profissional ainda não chegou. Vivo organizando minha vida pensando em segurança, em violência, temendo a instabilidade. Vivo procurando um plano de saúde digno para meus pais, que da última vez que passaram mal, mesmo tendo convênio, não encontraram leito para serem hospedados. Aqui, não podemos confiar na Justiça, nem na Polícia.

Então, por que cantar as maravilhas de São Paulo? Por que falar dessa cidade com tanto amor? Para que o esforço em despertar paixão por suas ruas, sua história, seus encantos?

Porque a cidade de São Paulo não tem nada com isso. O que há de errado aqui, foi fruto do trabalho de pessoas que nunca amaram essa cidade. E cabe a nós, cidadãos paulistanos, construirmos uma nova história.

Tragédias e audiência

A televisão separou minha família.
Esse monte de notícias sanguinolentas fazem de nosso convívio diário um inferno.
Os mais novos sempre acabam acompanhando os mais velhos na escolha dos canais, mas está ficando difícil suportar tanta notícia ruim, uma atrás da outra.

Outro dia estava almoçando e o repórter falou que os bandidos cortaram as cabeças e rasparam as digitais para que os cadáveres não fossem reconhecidos.

É sangue pelo chão, trombada, roubo, sumiço e pontaria.

Então estava pensando no porquê das pessoas darem audiência para esse tipo de jornalismo. E cheguei a uma conclusão:

A vida é muito monótona. Todos os dias são mais ou menos iguais. As pessoas falam as mesmas chatices de sempre. A gente já até sabe o que muitos vão falar, antes mesmo de abrirem a boca. E a vida é assim mesmo, não tem como mudar.

Só que muitas vezes a gente fica irritado, querendo largar tudo, tomar chá de sumiço.

Aí aparece alguém na TV que deu um tiro na sogra, roubou o banco ou tirou a roupa na rua. E por dentro a gente sente que há coisas diferentes a serem feitas. E essas coisas, por mais tristes que sejam, dão uma quebrada na monotonia.

Pode até ser que a gente não admita, mas no fundo, já tenha pensado em dar um tiro em alguém. Porém, munidos de nossa consciência do certo e errado, rapidamente desviamos esse pensamento, baseados nos princípios e na lei de Deus e dos homens, que não consideram certo fazermos justiça com as próprias mãos.

Muitos de nós não saem de casa sem antes encher a cabeça de gel e deixar o cabelo 100% arrumado. As mulheres gastam os tubos em salões de beleza para esconderem os cabelos brancos. Aí, quando aparece alguém que pinta o cabelo de azul, enche o corpo de tatuagem e piercings, acaba chamando atenção mesmo.

Quando aparece a Mulher Samambaia, a gente fica pensando se nossa vida seria diferente se tivesse aquele corpo. E que seria muito mais fácil ganhar dinheiro assim, na cara de pau, ao invés de ficar se esfolando todo. Será que a Mulher Samambaia também toma tantos chifres quanto a gente? Dá a impressão que não. Quem seria mais gostosa que ela? Acho muito difícil - até mesmo impossível.

Talvez no fundo a gente queira ter a coragem de fazer outras coisas, de falar um NÃO bem redondo para esse sistema quadradinho. De ir pra praia de nudismo, de subir no balão do padre ou montar uma igreja pra ganhar dinheiro no mole.

Já pensou em arrancar a roupa no meio da rua? Ia ser engraçado ver a cara das pessoas. Não que fosse um ato libidinoso, porque depois de tantos peitos e bundas na TV, ninguém tá nem aí para a nudez. Mas pela possibilidade de cometermos um ato transgressor.

Matar alguém já é demais, eu penso. Mas que tem dias que essa idéia passa pela cabeça da gente, isso tem.

Eu mato!


Dizem que é só a gente reclamar de alguma coisa que acaba atraindo ainda mais.
Foi falar mal do vizinho pra ele piorar.
Dessa vez o molequinho aqui do lado arrumou um amiguinho e o que eu achava impossível aconteceu: o menino é absurdamente mais levado do que ele.

Num dia desses, enquanto eu tentava raciocinar em cima de um trabalho que não consigo terminar, eles começaram a aprontar. O balde virou tambor, inventaram de cantar a música "beber cair e levantar" toda bagunçada (porque ainda são muito pequenininhos e não conseguem decorar a ordem das coisas) e a ver quem tacava pedras mais longe (todas caíam aqui no quintal).

Enquanto ouvia aquela zôrra toda, comecei a elocubrar um jeito de dar um fim nos meninos. Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse acabar com a raça deles. Foi quando, enfurecida, abri a janela disposta a dar um esfrega nos dois.

Dei de cara com eles. O menorzinho, que é filho da vizinha e já me conhece de longa data, na hora em que me viu, abriu o maior sorriso e falou, feliz da vida:

- Oooiiii Finanda!!!

E mais do que depressa tratou de me apresentar pro outro menino:

- Rafa, essa é a Finanda. Ela é minha amiga!!!

Ficar pra Titia

- Nossa! Você gosta tanto de crianças! Porque não tem seus próprios filhos?

Essa é a pergunta que sempre vem quando a gente é pego se derretendo de amores pelos sobrinhos ou por quaisquer crianças da família ou não.

Todo mundo que tem mais de trinta e adora seus sobrinhos infalivelmente tem que responder a essa pergunta ao menos umas dez vezes por ano.

E a resposta é meio complicada, porque, se for ver, é uma boa pergunta.

- Ah, é que eu não achei alguém pra ter!

Mas será que é preciso TER tudo aquilo que a gente GOSTA?
Eu gosto daquela montanha, então vou dar um jeito de comprá-la. Gosto daquela marca, então vou levar a loja toda. Gosto de chocolate, então vou comer todos.

Essa mania do ser humano querer TER aquilo que GOSTA é uma pergunta que todo mundo deve se fazer. Será que eu gosto justamente porque não tenho? Preciso mesmo ter? Talvez não seja mais gostoso admirar de longe?

E se a gente parar pra pensar nisso com atenção, talvez da próxima vez alugue aquele carro dos sonhos ao invés de comprá-lo. Um final de semana com ele, e pronto! Adeus lombriga!

Que tal as pessoas aprenderem a ter alguma coisa durante um tempo, sem quererem guardar só pra si? Usar uma roupa emprestada, alugar um quarto de hotel ao invés de manter um apartamento na praia vazio o ano todo, trocar a bolsa com a amiga ao invés de entulhar o guarda-roupa com mais uma. E encher os filhos dos outros de beijos quando sentir vontade de brincar com crianças.

Nem sempre a gente tem tudo aquilo que gosta. Algumas vezes porque não queremos ter. Outras, porque não podemos. Mas que é chato responder a perguntas que nem mesmo a gente sabe a resposta, isso é.

Mulher Invisível

Após oficializarem o namoro, foi logo se gabando:
- Eu saía com duas meninas ao mesmo tempo, mas larguei as duas para ficar só com você.
- É mesmo, amor?
- Verdade - disse, sorrindo.

Ela já começou a pensar que se ele saía com duas ao mesmo tempo e ainda procurou por ela, boa coisa não devia ser. Mas tudo bem, bola pra frente que atrás vem gente. E vinha mesmo.

Foram alguns meses de namoro até ele começar a quebrar o pescoço para tudo que era mulher que passava na rua, no shopping ou em qualquer lugar. Não perdoava. No parque, teve um dia que chegou a fazer uma manobra indecorosa para olhar uma loira de cabelo comprido que passeava pela pista de cooper. Era muita cara-de-pau.

Ela tentou se vingar. Começou a ensaiar umas olhadas para os rapazes também, mas ele andava tão afoito para caçar outras mulheres que nem percebia pra onde ela estava olhando. Ela então arrumou um amigo (com quem ficava horas ao telefone), e mesmo sem fazer nada de errado com ele, sentia-se de certa maneira vingada. Porém, era séria demais para dar um passo além disso.

Ela nunca ligava para ele. Na única vez que ligou a noite, ele não estava. Disse que tinha ido se encontrar com um amigo, com quem encontrou de fato numa banca de jornal algum tempo depois, e comentaram que há anos não se viam.

O namoro ia de mal a pior, até que apareceu um telefone no meio do encarte de um disco. Era o telefone da Ana, que depois de muitas perguntas ele jurou ter pedido só pra se livrar da donzela que todos os dias ficava no caminho do trabalho, perseguindo o pobre coitado.

Mesmo assim o namoro não terminou. Foram feitas juras de amor e promessas de verdade e fidelidade a qualquer preço. Mas novamente sua agenda o traiu, e junto àqueles nomes mais algumas mentiras vieram de brinde.

- Acabou.

Alguns anos depois, mesmo sabendo que ele andava direto com uma "amiga" pra cima e pra baixo, tentaram a reconciliação. Na bagagem, ele trazia uma filha (de uma transa sem compromisso, com uma mulher de bem, que tinha um filho de cada pai). Estava grávida de mais um filho, mas ele jurava que não era dele - mas também não sabia de quem era. Só sabia dizer que a filha fora feita exatamente naquele tempo em que eram namorados. Impávido, alegou ser um pouco atrapalhado com contas.

Mesmo assim veio a pergunta fatídica:

- Quantas namoradas você teve nesses anos que passamos longe?
- Ah... não sei dizer.
- Como, não sabe dizer?
- Ah... foram várias! Com umas eu transei, outras eu só beijei, outras nem beijei.

Ela, que naqueles anos estivera sozinha e seu último beijo tinha sido exatamente o último beijo deles, ouviu aquela frase calada.

Aquela conversa, junto com um sanduíche devolvido ao garçon porque fora cortado em quatro pedaços ao invés de dois, selaram o fim definitivo do relacionamento.

Outro dia ela encontrou com ele no shopping. Ele estava bem acompanhado - com uma mulher loira, gordinha, de corpo violão (bem parecida com aquelas mulheres que ele quebrava o pescoço para olhar na rua). Sereno, caminhava de mãos dadas. Dessa vez não procurava por outras mulheres em volta - tanto, que deu de cara com ela, mas nem a viu.



É fogo!

Confusão e gritaria na hora da janta. Não, não era em casa. Estava jantando sozinha mas os vizinhos me tiraram o apetite.

Entre berros e xingamentos, confrontavam conhecimentos no mais sórdido vocabulário de adjetivos depreciativos.

- Afff, que maloca! - pensei.

Mas a encrenca parecia não ter fim, e quando vi que a coisa tava esquentando, subi na parte mais alta da casa para ter visão privilegiada.

- Vagabundo! Não trabalha!

- Vagabunda! "Prostituta*"!

- Vai embora safado!

- Eu não, me deixa em paz, você não tem nada a ver com a minha vida! Piranha!

- Eu vou chamar a polícia!

Nessa hora pegou uma faca, tomou o filho nos braços e ameaçou matar o menino.

Quando vi essa cena, aquela pessoa se tornou para mim a figura mais detestável do pedaço. Felizmente tudo acabou bem e ele não machucou o menino. Após algum tempo a polícia veio e durante horas fiquei matutando uma forma de dar um jeito desse cidadão sumir dos arredores.

Quando encontrei com ele no dia seguinte, não cumprimentei. Mas voltei a cumprimentá-lo após saber que estava sob o efeito do álcool - e do alcoolismo, ninguém está livre. Mesmo assim a idéia de execrá-lo da convivência de todos não saiu mais da minha cabeça. Maloqueiro desgraçado!

Hoje, algum tempo após deixar o lixo reciclável encostado no poste da rua, toca a campainha. Era ele, muito afobado, para avisar que alguém passara na calçada e jogara uma ponta de cigarro no nosso saco de lixo. A fumaça, que já entrava portão a dentro, confirmava sua informação. Bem ao lado do saco em chamas estava nosso carro, já quase sendo atingido. Ele, solícito, pedia uma mangueira para apagar o fogo antes que a labareda atingisse o carro.

Após receber a mangueira, apagou o incêndio cuidadosamente, acalmou minha mãe e foi embora.

- Nossa... ele foi bacana em avisar a gente, né?

- É sim, ainda apagou o fogo!

- E eu que falei tão mal dele outro dia...

- Pra você ver como é a vida...

São Silvestre


Já é assunto do ano passado (para um paulistano que se preze já considerado "antigo") mas não me sai da cabeça: a corrida.
Nessa hora a maioria já deixou a cidade mas, quem fica, tem a oportunidade de presenciar um dos eventos mais interessantes da face da terra: a São Silvestre.

Não sei se a emoção maior é para quem corre ou para quem assiste. Aos que correm, ganhar as ruas a pé desafiando os próprios limites e sentindo o impacto do asfalto sob os pés, deve ser uma experiência de superação pessoal muito intensa. Sentir-se solto pela rua podendo imprimir o passo que quiser, na velocidade que julgar apropriada, alheio às placas de contra-mão, ao relógio, ao compromisso. Sentir o cabelo ao vento e ainda ser ovacionado pela platéia que aplaude e grita - ufa, quanta emoção! Chegar e ganhar uma medalha. Independente de quanto tempo durou sua jornada - o importante é que chegou - parabéns!

Assistir é estar preso em liberdade. Preso porque nunca conseguimos ver tudo, tem sempre gente na frente e quando olhamos para um lugar deixamos de enxergar o que está no outro. É tanta coisa interessante passando na nossa frente ao mesmo tempo que dá até aflição.

Aquela música (igualzinha a da TV - clique para ouvir "Carruagens de Fogo") dá um toque especial e não são poucos os que choram ao olhar tantas pessoas aglomeradas em passos e expectativas passando pela avenida da vida.

Muitos dos corredores são os mesmos que trafegam naquela avenida durante o ano e, naquele momento, vêm despidos de suas armaduras permitindo serem vistos de verdade. São paulistanos e turistas passando com o mesmo uniforme ou com a fantasia que quiserem. Ali cada um passa a seu modo. E quanta gente passa...

Penélope Charmosa acenando, um homem correndo de costas, o outro equilibrando um vaso na cabeça, uma mulher berrando o nome de Jesus, um robô, Bin Laden, Obama. O Corpo de Bombeiros cantando, um casal correndo e se fotografando ao mesmo tempo. Senhores suados quase não conseguindo chegar. Jovens andando exaustos, gente que chega inteira e outros que param no meio do caminho. É São Paulo passando pela Paulista.

São tantos sonhos na avenida, tantos sorrisos e aflições, tantas preces. Brasileiros e estrangeiros que naquele momento têm pela frente o mesmo caminho (mas que cada um escolhe trilhar de um jeito). Alguns de olhares fixos, outros saudando aos que assistem - às vezes focando em paisagens, outras no nada. São tantas pessoas diferentes e iguais - pais e mães e filhos. É gente que passa sem parar, gente que não acaba mais. São palmas e olhares admirados. A quem assiste fica a possibilidade de correr também ou de continuar só olhando, ou de no próximo ano tentar ser a Penélope ou o Obama. De fotografar os corredores, de ajudar a recolher o lixo para que ninguém se machuque. De oferecer água, sorrisos, aplausos e lágrimas.

Fica o céu e a cidade oferecendo luz e caminho para o Ano Novo. Fica o exemplo de esforço e de alegria de cada um que, a seu modo, ajuda a compor uma das festas mais bonitas que nosso Brasil conhece.

Fica aqui o convite para quem estiver em São Paulo no último dia do ano: não deixe de ir pra Paulista ou para qualquer trecho da rota da corrida e ajude a compor esse lindo evento, que nada mais é do que o desfile dos homens passando pelas ruas da vida.


Deixo aqui poemas de colegas componentes dos Poetas do Tietê sobre a São Silvestre:


Na via advém, mas se não vem, adivinha?

(Guilherme Montoia)

O que é o que é que:
entre erres e esses
de ruas e pedestres
homens e mulheres
não querem perder?

Tempo, tempo, tempo...

Parece com um teste,
são novatos e mestres
nativos campestres
com trajes e vestes
do mesmo porquê.

Passa tempo, passa tempo, passatempo...

E no último dia
que o ano padece
São Paulo conhece
com data de prece
o que vai pra tevê.

Há tanto tempo, há tanto tempo, há tanto tempo...

Que quando é hora de ir,
mesmo que chova canivete
só então se percebe
como são todos silvestres
quando querem correr.

Mas daí...

Falta tempo, falta tempo, falta tempo...


estúpida são silvestre

(Paulo D'Auria)

É o início,
Só há o verbo
E o caos.

Deus ainda não jogou os dados, as fichas,
Não girou a roleta do tempo.

Não há nada,
Ainda não foi dada a largada
Desta estúpida são silvestre.

Uma nova chance, passarinhos,
Desta feita romperemos a fita da vitória
Ou mais uma vez nos perderemos
Pelo caminho?

Dia de (re)começar


Hoje, no dia internacional do recomeço, começo cheia de medo de escrever bobagens.

Com medo de criar histórias com fundos morais sem fundamento, alicerçadas em valores arraigados pela sociedade mas que no fundo só servem para atrapalhar muita gente.

Nesse dia primeiro, começo refletindo.
Pensando que nem sempre amor com amor se paga.

Nem sempre a maldade é castigada.

Nem sempre a donzela encontra o príncipe.

Nem sempre Deus ajuda a quem cedo madruga.

Onde então encontrar forças para continuar escrevendo fábulas, contos e ensinamentos?

Onde buscar a sabedoria necessária? Onde estará a fonte da verdade?
Quem sou eu para querer ensinar algo aos outros, sendo que nem eu mesma consegui aprender o que gostaria?
Será que a uma pessoa excessivamente subserviente, os evangelhos são cabíveis? Ou só servem para agravar características que acabam prejudicando aquela pessoa?
Existem ensinamentos apropriados a todos? Sendo que somos tantos e todos tão diferentes? Passando por fases e momentos de vida diferentes?

Quem me garante ser educadora eficaz num mundo dinâmico como o nosso?

Pau que nasce torto nunca se endireita? Mais vale um gosto do que dinheiro no bolso? Mas não era de grão em grão que a galinha enchia o papo?
Um empréstimo pode arruinar alguém, mas pode ser o início da fortuna de outros.
Uma caridade pode ser sublime a alguns, mas péssima para outros.

Gosto muito de fechar meus textos com finais interessantes. Histórias sem finais convincentes para mim são decepcionantes. Alguns colegas escritores falam sempre sobre essa minha característica: gosto de histórias com começo, meio e fim.
Mas vivendo numa cidade de contrastes, onde o bom e ruim convivem sem cerimônia, em meio a seres humanos dúbios por natureza e geminiana, pra completar, vivo em constante briga comigo mesma. Mil paradoxos me rondam. É muita confusão pra uma cabeça só.

A única certeza que tenho é que tudo é dúvida.

Mas agora que escrevi isso lembrei que talvez tenha uma certeza a mais comigo.

Lembrei de uma história recente:

Sempre fui muito admiradora da Escola de Samba daqui do bairro. Não por ser sambista, nem rata de carnaval, mas por conhecer a história deles, adorar a bateria e os shows que ela dá na avenida e principalmente pelo fato dela exaltar o nome do bairro via satélite lá na Globo.

É muito bom ouvir o Chico Pinheiro cantando "Sou da Pompéia, pode crer..." e essas coisas que são bobas mas deixam a gente feliz.

Mas nesse ano que se foi decidi me engajar no projeto e conhecer essas pessoas que produzem esse show mais de perto.

As visitas à quadra foram ótimas, o som invadiu o meu ser (tanto pela altura como pela emoção).

Mas um pouco mais adiante fui conhecer algumas dessas pessoas e dei de frente com suas vaidades, egoísmos, complexos de superioridade e outras coisas mesquinhas que fazem parte do bicho chamado Homem.

E a paixonite aguda foi pro espaço. Em meia dúzia de conversas com aquelas pessoas já percebi que ali há muita gente fechada, que quer palpites até a página dois e que chega a dizer que Amor é de quem trabalha lá. Os outros têm o direito de admirar. Poderão sentir amor quando trabalharem pela Escola. Ora ora, para quem trabalha com o mundo da imaginação, querer impor até onde alguém pode desenvolver um sentimento é no mínimo frustrante.

Como se um evento não fosse composto por trabalho, integrantes de última hora, patrocinadores que nunca aparecem por lá, público presente e telespectadores. Talvez não saibam que o nome da Escola é muito maior do que eles, como o nome do Santos, da Portuguesa ou de outro clube de futebol. Estão agarrados à agremiação e não querem intrusos. Depois se queixam de falta de quorum. Poderiam estar abertos a todo e qualquer tipo de colaboração. Via e-mail, via orkut, via carta ou pombo-correio. Mas querem forçar as pessoas a agirem do jeito deles, sem respeitar o tempo, as limitações ou outros tipos de dificuldades. Mas na hora do desfile aceitam as palmas e a exaltação - sem cerimônias. Aí não se importam que aquela pessoa não freqüentou. Precisam de 3.500 componentes para fazer bonito na avenida, mas logo após o desfile se esmeram em criar todo tipo de barreira para que essas pessoas participem do jeito que lhes melhor convier.

Isso acontece em muitos lugares e com muitas pessoas, principalmente com ídolos. Quando a gente vai conhecer mais de perto, é uma decepção.

Por isso é fácil manter um amor platônico por anos, adorar um time, exaltar uma cidade, um brasão. É muito gostoso fazer isso e talvez nos coloque em contato com uma forma sublime de amar. Um amor como o de Policarpo Quaresma.

Então, com base nesses ensinamentos, começo o ano pensando em cultivar amores intangíveis.
É mais ou menos como ser um profissional de branding. No branding a gente nunca se decepciona porque a marca é maior do que as fraquezas dos seres humanos, seus ciúmes e seus defeitos.

Começo o ano pensando em amores universais: pelo país, pela cidade, pelo clube. Quando encontrar nova escola de samba não vou querer saber quem fez a música para não correr o risco de perder a vontade de cantá-la. Amar meu país, apesar de quem o governa. Amar minha cidade, apesar de quem a maltrata. Amar meus amigos, aceitando suas ausências e seus descasos, pensando que aquele desinteresse todo por mim e por minhas necessidades é porque me consideram como uma irmã - e com irmão a gente não tem frescura. Quem dera na vida real eu tivesse ínfima porcentagem dos amigos que tenho no orkut. Quem dera tivesse ao menos um.
Peço para 2009 um pouco mais de companhia nas horas que realmente preciso. E alguma ajuda para conseguir o que realmente me falta. Enquanto isso vou pensando na palavra amizade como um sorriso no rosto de quem se encontra na rua, troca meia dúzia de palavras e segue sua vida, contando que o acaso promova novo encontro - ou não.

Meu bem, meu mal


Lembro como se fosse hoje o dia em que eu vi essa faixa.
Estava parada dentro de um ônibus, num trânsito infernal na Francisco Matarazzo por causa de um Shopping que veio pra tomar conta do pedaço.
Um pedaço que nos pertence por direito. Usucapião. Ora bolas, esse bairro é de quem mora aqui... Vem um pessoal sei lá de onde e faz um monstro gigante para bagunçar o coreto, sem dó nem piedade! Tenha paciência!

Mas a faixa indicava que alguma coisa estava errada e ainda em tempo, antes da desgraça ser oficializada, alguém finalmente tinha feito alguma coisa.
Inauguração adiada, bem feito! Pensam o que? Que aqui não tem lei? Que daqui ninguém cuida?
Enfim... o lançar de luzes neon pelas paredes da fachada e para o céu indicava que a inauguração realmente tinha sido apenas adiada, mas não cancelada.
Tanto que no dia seguinte, milhares de pessoas finalmente puderam conhecer o tão esperado centro de compras, após uma briga judicial ferrenha, muitas passeatas, olhares de esguelha e principalmente o suor de centenas de operários incansáveis no cumprimento de prazos e metas.
A grandiosidade da obra trouxe a muitos moradores um "quê" de nostalgia, de amargura e de medo.
Quantos anos se passaram sem que a gente percebesse?
Quantas coisas gigantescas foram construídas sem que nós nos déssemos conta?
E nesse meio-tempo? O que eu fiz por mim mesma? Olha só o tanto que as coisas mudam!
O tanto que eu não mudei! Olha só... minha vida ali, parada, diante daquela grandiosidade...

O Shopping veio para me lembrar como sou pequena. Parece que quando olho para ele fico menor. Fico mais pra trás, mais antiga. O Shopping me faz ver que muitas coisas podem ser construídas em pouco tempo. E muito mais ainda em muito tempo...
Quanto tempo perdi? Quanto tempo esperei? Ninguém espera.
E pensando assim, hoje tentei fazer amizade com ele, pra ver se consigo me sentir menos rélis. Não falo em condição social, mas em ímpeto. Em coragem. Em construção.
O que construo? Aceito as mudanças? Aceito com complacência coisas com as quais não concordo? Aceito a opinião da maioria? A maioria usa e curte o gigante de concreto. E eu? Por que me queixar tanto? Como uma velhinha que não pára de dizer que tudo é escandaloso e impróprio?

E nessa mania que tenho de deixar tudo para a última hora, o Shopping me mostrou que além de bagunçar o coreto, também pode ser muito útil.
Nele consegui encontrar quase tudo que precisava a um preço justo.
Fui caminhando pelos seus andares e ouvindo músicas natalinas com a lágrima na garganta. Vi casais de namorados, grupos de amigos, famílias.
Enquanto escolhia os presentes, prestava atenção às pessoas ao meu lado e notava que o ato de comprar não é apenas uma obrigação pura e simples. É uma hora em que as pessoas se concentram em lembrar das cores que os amigos gostam, seus tamanhos, seus hábitos, suas chatices e suas alegrias.

Hoje fui às compras reclamando de ter que fazer isso. Mas naquele incômodo Shopping acabei percebendo que comprar não é apenas uma compulsão, uma obrigação, uma convenção. Comprar é também um ato de amor.
Comprar comida. Comprar roupas. Comprar presentes. Dar. Receber. Lembrar.
Encontrei sem querer minha sobrinha com seu grupo de amigas. Ela, que até ontem eu carregava no colo. Ela, que naquele mesmo lugar, onde outrora funcionara um supermercado, agarrei com força quando acabou a luz e ficamos numa escuridão completa. Tinha pavor de perdê-la.
Hoje eu mesma procurei deixá-la em paz, deixá-la com suas amigas e seguir sozinha o meu caminho.

Enquanto pensava nas pessoas da família e nos presentes que ainda precisava comprar, olhava casais de namorados, casais com filhos, jovens enamorados, amigos animados. Assim, segui meu caminho.
Continuei procurando pelos presentes e os corredores do indesejado Shopping, indiferentes por terem sido por mim tão rejeitados, me acolheram generosamente. Encontrei nele tudo o que precisava. Menos o essencial.

S U N D A Y_M O R N I N G _D I A R Y

Esse texto foi escrito pelo meu primo, Toninho.

Ele é uma daquelas pessoas que conseguem contar piada e deixar as pessoas com dor de barriga de tanto rir. Ele conta a piada, mas parece que ele está falando sério... e o pior é que no final ele não ri. Já sabia que ele escrevia bem, mas acho que agora a família decidiu mostrar novas faces, o que eu acho ótimo! Dizem que as pessoas convivem uma vida toda e não se conhecem. E eu acho que isso é mesmo verdade.
(Toninho, espero que esse seja o primeiro de vários!)
S U N D A Y _M O R N I N G_ D I A R Y
Este frio na barriga que antecede a escrita de um tão novato blogueiro parece ser normal, entretanto, a idéia de postar reclamações e acontecimentos diários me parece tão coerente que, como uma luz no fim do túnel, estou indo ao encontro.
Era domingo, dia 14 do mês de dezembro para ser mais exato, e acordando as 06:45 tive para ir ao trabalho tive a certeza somente bons fluídos me arrebatariam naquele dia.
Leve engano...
Tive de acordar cedo para deixar minha namorada na rodoviária, afinal, ela mora em uma pacata cidade de somente 250 mil habitantes no interior de São Paulo. Inveja? Infelizmente não mais me atrevo a responder esta questão.
Tudo ia muito bem. Tomamos um café da manhã reforçado – trabalho na área de vendas de uma concessionária – pois sabia que teria um dia mais agitado por conta da redução do IPI, até chegar à Marginal do rio Tietê perto da altura da Avenida do Estado. Estava tendo um “desvio” por conta da prova de corrida denominada “Gonzaguinha”, portanto fecharam o acesso as rotatórias e pontes por um raio de 3 km. Perguntei a mim mesmo, ainda “zen” por ter acordado há pouco, quem no mundo fecharia uma das avenidas mais movimentadas do mundo para um prova sem qualquer importância ou mesmo isenta de uma quantidade expressiva de inscritos?
Ingenuidade? Imagina...
Creio que 3 siglas da corporação que estava tomando café e comendo algo saboroso em meio ao canteiro da avenida devem respondem a questão.
Mudei totalmente o trajeto, enfrentei um trânsito sem qualquer medida logo de “madrugada” para entrar na rodoviária, de repente percebo que a mesma está totalmente abarrotada de pessoas que nos “visitam” para comprar presentes natalinos e visitar seus “cumpadres”.
Descendo as escadas rolantes fico imaginando o preço do progresso quando inúmeras pessoas, por medo e desconhecimento do funcionamento da primeira – a escada rolante – não adentravam nela! Conclusão, mais congestionamento!
- “Cavalo!”, gritou um indivíduo para outro que tentava orientar como usar as rolantes.
- “Aqui é assim mesmo, tudo cavalo!”, murmurou novamente para uma senhora que o acompanhava.
Ululante informar que um coral de paulistanos e pseudo paulistanos responderam aos berros adjetivos singelos e graciosos para o indivíduo acima, inclusive elogiando por demais, os genitores do mesmo.
Muito bem, passado as escadarias foi a vez de voltar à Marginal Tietê para tentar chegar ao trabalho. Lembro-lhes que a via estava paralisada devido à famosa prova de maratona que ninguém conhece. O trânsito estava comendo solto e todos travando os dentes ou cantarolando alto dentro de seus veículos quando alguém, aos berros, exclamou para uma corredora um pouco tanto quanto fora dos padrões do atletismo:
- “Corre gordinha, corre! Corre pro hospital!”
E as gargalhadas ecoaram pela pista...
Não era somente uma questão de probabilidade até aquele poço de lipídios entrarem em colapso, mas sim um fato! Difícil conseguir visualizar um singelo coração do tamanho de um melão bombear sangue para todo seu corpo. Algumas partes devem já estar entrando em necrose! Meia dúzia de passos depois ela sentou no chão e tirou de sua bolsa uma Coca Cola. Queria ver se era a Zero, para tirar uma foto e mandar para a empresa alimentícia, mas não tive condições de enxergar.
Continuando a saga – saliento a todos vocês que este é um retrato fiel ao dia que tive, não estou inventando nenhuma situação ou ainda querendo agradar a você leitor! – finalmente o trânsito alivia e algo inédito acontece, uma Ferrari branca saindo fumaça azul do escapamento! Se todos conhecessem somente os símbolos, ninguém iria perceber que um VW Passat rebaixado caindo aos pedaços, do ano em que minha graciosa vovozinha era sexy, estava a desfilar pelas avenidas paulistanas, extrapolando qualquer perspectiva do protocolo de Kyoto ser eficaz.
E o Brasil ainda preocupado com as queimadas... tsc... tsc..., deveríamos mesmo era fazer uma ligação internacional e impedir a comercialização destes veículos por aqui!!! Eu disse internacional? Desculpem, mas é que algumas localidades da cidade e algumas pessoas me parecem tão distantes de uma realidade mundial que somente uma chamada internacional poderia surtir efeito. Ou talvez um muro e policiais fortemente armados.
Depois disto, tirando o fato que pessoas compram bens de grande monta como se comprassem pastéis invadiram o local onde trabalho para comer pipoca e algodão doce, o resto até que foi bom, pois dormi!

Parabéns pra você


Hoje faz alguns anos que larguei o cigarro. Uns quatro, pra ser mais exata. Dizem que a gente só deixa realmente o vício após cinco anos de abstinência. Então só falta um.
Mesmo quem fuma pouco, sabe como é difícil parar de fumar.
Quem já parou, sabe que a gente nunca é um não-fumante, mas sempre um ex-fumante.
Porque a vontade é danada, e mesmo depois de tanto tempo teima em nos tentar.
Os amigos fumam por perto e não estão nem aí.
Quando isso acontece, o negócio é fingir que não está acontecendo nada em volta, fazer cara de paisagem e meditar.
Entrar num estado alfa (como aquele em que a gente entra quando senta no metrô e fica olhando pra um monte de gente, sem olhar).
Mas tem umas coisas engraçadas: teve um dia em que alguém acendeu um cigarro no shopping, apoiou no cinzeiro e o deixou lá queimando, inteirinho, bem ao meu lado.
Justo a marca que eu fumava. Eu fiquei ali, olhando pra ele e ele pra mim, soltando aquele cheirinho que só quem fuma sabe a tentação que é. (Coisa do demo, na certa).
O "coisa ruim" também tem outras maneiras de atiçar, como quando a gente está parado na rua vazia e de repente passa um carro e estaciona bem na nossa frente, só pro motorista acender o cigarro. Oooo tentação, viu?
E no barzinho então? É possível alguém que fuma pensar em beber sem acender um?
Pois é... hoje é dia de comemorar.
Vade retro satanás. Mais um ano, menos um ano.
O cigarro sai da vida e deixa aquele vazio. Nada entra no lugar.
E esse buraco existencial pro ser humano incomoda que só!
Mas dá pra agüentar. Tantos vazios a gente sente na vida...
Às vezes eu sonho que estou fumando. E no sonho mesmo lembro que não posso fumar porque parei de fumar.
Aí logo lembro que fumar no sonho pode.
Largar o vício me ensinou que é possível abrir mão de hábitos de anos, abrir mão de qualquer coisa e que fazer isso pode ser uma coisa boa.
Isso vale pra comida, pro trabalho, pras paixões.
No começo a gente sofre. Depois fica orgulhoso, vê novos horizontes e dá graças a Deus.

Recital da Rê

Recital de formatura da minha talentosa prima Regina Migliore, que neste sábado, dia 06/12/2008, concluiu seu TCC tirando nota dez com louvor de todos os examinadores, na ECA, USP.