
Essa página fez seis meses.
Nunca gostei de blogs, nem de diários.
Aliás, mesmo meus cadernos de escola eram um enigma até pra mim.
Frequentemente eu não anotava nada nas aulas, e para estudar para as provas acabava tendo que xerocar os cadernos dos meus amigos CDFs.
Escrever era coisa para aliviar quando estava triste.
Escrevia mais pra falar coisas que não tinha coragem de falar e, escrevendo, ficava mais aliviada.
Geralmente eram textos bem melodramáticos, aquelas coisas bem apaixonadas, misturadas com a dor do desprezo. Escrevia sempre movida por muita angústia.
Até que um dia decidi não escrever mais nada, afinal, cultivar aquele sofrimento todo era horrível! Aquela papelada guardada cheia de "barriga-me-dói" devia me trazer até azar.
Joguei tudo fora! E me senti bem melhor.
Passei muito tempo sem escrever nada, tanto tempo que comecei a ter muitas dúvidas de português. Fiquei incapaz de escrever até mesmo uma simples redação.
Aí ingressei numa nova fase. Passei a escrever coisas alegres, engraçadas, a me divertir com os textos, tirando sarro das desgraças. A começar pelas minhas próprias, que não foram poucas.
Quando montei essa página, foi por indicação de um colega que me disse para disponibilizar meus textos na internet para nosso grupo se organizar direitinho.
Então montei apenas para guardar os textos, como se fosse aquela pasta amarela que um dia joguei fora com as minhas lamúrias de adolescente. Mas, para a minha surpresa, recebi milhares de acessos. Até eu mesma me surpreendi.
Então os amigos começaram a gostar, e eu comecei a ficar com medo! Porque nos textos sempre tem muito da vida particular da gente, muitas visões dos amigos, da família, e nem sempre são das melhores!!!
Aí comecei a tomar bastante cuidado com isso, até mesmo a me censurar! E pensei em montar uma outra página onde eu pudesse escrever sem me identificar, para ter mais liberdade de falar sobre qualquer assunto.
Mas aquela história de escrever quando estava triste não mudou muito. Os textos é que mudaram.
Tem horas em que estou triste e escrevo coisas alegres, mas, no fundo, as historinhas não deixam de ser um pedido de socorro.
Então comecei a pensar até que ponto esse hábito não colabora para que a gente fique cada vez mais sozinho! Nada mais solitário do que escrever. Quem está triste e conversa com os amigos acaba trocando idéias, se distraindo, rindo, falando bobagens. Mas quem desenvolve o hábito da escrita, nada mais faz do que falar o tempo todo sozinho.
E vai construindo uma imagem em torno de si que nem sempre é verdadeira. Algumas pessoas até mudaram o tratamento comigo. Uns ficaram mais simpáticos, outros, mais distantes. E eu entendo o por quê.
Sou uma pessoa tranquila - até demais. Mas a internet constrói uma imagem totalmente diferente daquilo que somos na realidade. O que escrevo aqui é mais ou menos uma fotografia do que qualquer pessoa pensa. A diferença é a escrita.
Mas, como milhões de coisas passam na cabeça de todo mundo ao mesmo tempo, quando alguém organiza meia dúzia de idéias e transforma num texto, dá a sensação de que aquela pessoa é diferente de todo mundo. Mas isso é errado.
Os textos são como os pensamentos, os julgamentos: Aparecem na cabeça da gente agora, mas daqui a pouco nem lembramos mais daquilo. E quando lembramos, muitas vezes já estamos achando outra coisa, e outra e outra...
Falar sozinho é meio perigoso, ainda mais quando se fala alto, como aqui. E a sensação que dá é que tudo o que se escreve é verdade, é baseado na vida real do escritor, e isso não é verdade.
No texto sobre São Paulo 450 anos, por exemplo, escrevi uma realidade que nunca teve nada a ver com a minha. E as crônicas são assim mesmo, a gente acaba maquiando aqui e ali para ficar interessante, inventa para ficar mais engraçado e é aí que mora o perigo.
Quem lê vai idealizando mil coisas sobre a gente e quando vamos ver, ganhamos amigos virtuais, mas perdemos amigos "reais" e isso é muito ruim.
Mas estou dando um tempo no blog não somente por causa disso. Escrever poesias para mim é apenas uma brincadeira de juntar palavras. Não me considero "poeta" nem "intelectual" como dizem meus amigos. Não sou nada disso. Sou simples - até demais. Acho os intelectuais chatos e arrogantes. Deus me livre de ser um deles! E Deus me livre também de ser uma dessas mulheres executivas, cheia de manias de dar ordens e de se achar grande coisa.
*A internet até tem o "dicionário das rimas", o cantor Latino se utiliza muito dele. ;)
O que eu gosto mesmo é das coisas simples, das crianças, da família. E a internet rouba um tempo incrível da convivência com a família.
Nesse final de semana minha tia adoeceu gravemente, e isso veio ao encontro da vontade que sinto de voltar a ser eu mesma, de voltar a conviver mais com as pessoas. Vontade de aproveitar o tempo com as pessoas importantes, e parar de correr atrás daquilo que eu não tenho.
Na verdade, quando escrevo bastante geralmente estou movida pelo desejo de dizer algo para alguém que não tem disponibilidade de ouvir. E fico tentando, e esperando, esperando... Enquanto isso, perco tempo de convivência com aquelas pessoas que estão mais perto. E a gente nunca sabe até quando estarão.
Aproveito para agradecer aos amigos queridos que me encheram de elogios depois de lerem as coisas que escrevo, o que é uma honra, já que esse mundo conta com infinitas informações! Esses milhares de acessos ao blog me deixaram super envaidecida!
Já há muito tempo minha convivência com os amigos tem sido mais virtual do que real.
Com o orkut, o blog, o MSN, até mesmo meus amigos reais acabaram se tornando "amigos virtuais". E isso é horrível. Porque no orkut estamos sorrindo o tempo todo, no MSN a gente é mais um boneco verde e no blog eu sou a pessoa mais crítica do mundo. E nada disso é verdade.
(Apesar que hoje é Dia da Mentira, o que pode trazer dúvidas quanto à credibilidade daquilo que escrevi. Mas eu juro que é verdade.)