Mangá do Lukas

Meu bem, meu mal


Lembro como se fosse hoje o dia em que eu vi essa faixa.
Estava parada dentro de um ônibus, num trânsito infernal na Francisco Matarazzo por causa de um Shopping que veio pra tomar conta do pedaço.
Um pedaço que nos pertence por direito. Usucapião. Ora bolas, esse bairro é de quem mora aqui... Vem um pessoal sei lá de onde e faz um monstro gigante para bagunçar o coreto, sem dó nem piedade! Tenha paciência!

Mas a faixa indicava que alguma coisa estava errada e ainda em tempo, antes da desgraça ser oficializada, alguém finalmente tinha feito alguma coisa.
Inauguração adiada, bem feito! Pensam o que? Que aqui não tem lei? Que daqui ninguém cuida?
Enfim... o lançar de luzes neon pelas paredes da fachada e para o céu indicava que a inauguração realmente tinha sido apenas adiada, mas não cancelada.
Tanto que no dia seguinte, milhares de pessoas finalmente puderam conhecer o tão esperado centro de compras, após uma briga judicial ferrenha, muitas passeatas, olhares de esguelha e principalmente o suor de centenas de operários incansáveis no cumprimento de prazos e metas.
A grandiosidade da obra trouxe a muitos moradores um "quê" de nostalgia, de amargura e de medo.
Quantos anos se passaram sem que a gente percebesse?
Quantas coisas gigantescas foram construídas sem que nós nos déssemos conta?
E nesse meio-tempo? O que eu fiz por mim mesma? Olha só o tanto que as coisas mudam!
O tanto que eu não mudei! Olha só... minha vida ali, parada, diante daquela grandiosidade...

O Shopping veio para me lembrar como sou pequena. Parece que quando olho para ele fico menor. Fico mais pra trás, mais antiga. O Shopping me faz ver que muitas coisas podem ser construídas em pouco tempo. E muito mais ainda em muito tempo...
Quanto tempo perdi? Quanto tempo esperei? Ninguém espera.
E pensando assim, hoje tentei fazer amizade com ele, pra ver se consigo me sentir menos rélis. Não falo em condição social, mas em ímpeto. Em coragem. Em construção.
O que construo? Aceito as mudanças? Aceito com complacência coisas com as quais não concordo? Aceito a opinião da maioria? A maioria usa e curte o gigante de concreto. E eu? Por que me queixar tanto? Como uma velhinha que não pára de dizer que tudo é escandaloso e impróprio?

E nessa mania que tenho de deixar tudo para a última hora, o Shopping me mostrou que além de bagunçar o coreto, também pode ser muito útil.
Nele consegui encontrar quase tudo que precisava a um preço justo.
Fui caminhando pelos seus andares e ouvindo músicas natalinas com a lágrima na garganta. Vi casais de namorados, grupos de amigos, famílias.
Enquanto escolhia os presentes, prestava atenção às pessoas ao meu lado e notava que o ato de comprar não é apenas uma obrigação pura e simples. É uma hora em que as pessoas se concentram em lembrar das cores que os amigos gostam, seus tamanhos, seus hábitos, suas chatices e suas alegrias.

Hoje fui às compras reclamando de ter que fazer isso. Mas naquele incômodo Shopping acabei percebendo que comprar não é apenas uma compulsão, uma obrigação, uma convenção. Comprar é também um ato de amor.
Comprar comida. Comprar roupas. Comprar presentes. Dar. Receber. Lembrar.
Encontrei sem querer minha sobrinha com seu grupo de amigas. Ela, que até ontem eu carregava no colo. Ela, que naquele mesmo lugar, onde outrora funcionara um supermercado, agarrei com força quando acabou a luz e ficamos numa escuridão completa. Tinha pavor de perdê-la.
Hoje eu mesma procurei deixá-la em paz, deixá-la com suas amigas e seguir sozinha o meu caminho.

Enquanto pensava nas pessoas da família e nos presentes que ainda precisava comprar, olhava casais de namorados, casais com filhos, jovens enamorados, amigos animados. Assim, segui meu caminho.
Continuei procurando pelos presentes e os corredores do indesejado Shopping, indiferentes por terem sido por mim tão rejeitados, me acolheram generosamente. Encontrei nele tudo o que precisava. Menos o essencial.

S U N D A Y_M O R N I N G _D I A R Y

Esse texto foi escrito pelo meu primo, Toninho.

Ele é uma daquelas pessoas que conseguem contar piada e deixar as pessoas com dor de barriga de tanto rir. Ele conta a piada, mas parece que ele está falando sério... e o pior é que no final ele não ri. Já sabia que ele escrevia bem, mas acho que agora a família decidiu mostrar novas faces, o que eu acho ótimo! Dizem que as pessoas convivem uma vida toda e não se conhecem. E eu acho que isso é mesmo verdade.
(Toninho, espero que esse seja o primeiro de vários!)
S U N D A Y _M O R N I N G_ D I A R Y
Este frio na barriga que antecede a escrita de um tão novato blogueiro parece ser normal, entretanto, a idéia de postar reclamações e acontecimentos diários me parece tão coerente que, como uma luz no fim do túnel, estou indo ao encontro.
Era domingo, dia 14 do mês de dezembro para ser mais exato, e acordando as 06:45 tive para ir ao trabalho tive a certeza somente bons fluídos me arrebatariam naquele dia.
Leve engano...
Tive de acordar cedo para deixar minha namorada na rodoviária, afinal, ela mora em uma pacata cidade de somente 250 mil habitantes no interior de São Paulo. Inveja? Infelizmente não mais me atrevo a responder esta questão.
Tudo ia muito bem. Tomamos um café da manhã reforçado – trabalho na área de vendas de uma concessionária – pois sabia que teria um dia mais agitado por conta da redução do IPI, até chegar à Marginal do rio Tietê perto da altura da Avenida do Estado. Estava tendo um “desvio” por conta da prova de corrida denominada “Gonzaguinha”, portanto fecharam o acesso as rotatórias e pontes por um raio de 3 km. Perguntei a mim mesmo, ainda “zen” por ter acordado há pouco, quem no mundo fecharia uma das avenidas mais movimentadas do mundo para um prova sem qualquer importância ou mesmo isenta de uma quantidade expressiva de inscritos?
Ingenuidade? Imagina...
Creio que 3 siglas da corporação que estava tomando café e comendo algo saboroso em meio ao canteiro da avenida devem respondem a questão.
Mudei totalmente o trajeto, enfrentei um trânsito sem qualquer medida logo de “madrugada” para entrar na rodoviária, de repente percebo que a mesma está totalmente abarrotada de pessoas que nos “visitam” para comprar presentes natalinos e visitar seus “cumpadres”.
Descendo as escadas rolantes fico imaginando o preço do progresso quando inúmeras pessoas, por medo e desconhecimento do funcionamento da primeira – a escada rolante – não adentravam nela! Conclusão, mais congestionamento!
- “Cavalo!”, gritou um indivíduo para outro que tentava orientar como usar as rolantes.
- “Aqui é assim mesmo, tudo cavalo!”, murmurou novamente para uma senhora que o acompanhava.
Ululante informar que um coral de paulistanos e pseudo paulistanos responderam aos berros adjetivos singelos e graciosos para o indivíduo acima, inclusive elogiando por demais, os genitores do mesmo.
Muito bem, passado as escadarias foi a vez de voltar à Marginal Tietê para tentar chegar ao trabalho. Lembro-lhes que a via estava paralisada devido à famosa prova de maratona que ninguém conhece. O trânsito estava comendo solto e todos travando os dentes ou cantarolando alto dentro de seus veículos quando alguém, aos berros, exclamou para uma corredora um pouco tanto quanto fora dos padrões do atletismo:
- “Corre gordinha, corre! Corre pro hospital!”
E as gargalhadas ecoaram pela pista...
Não era somente uma questão de probabilidade até aquele poço de lipídios entrarem em colapso, mas sim um fato! Difícil conseguir visualizar um singelo coração do tamanho de um melão bombear sangue para todo seu corpo. Algumas partes devem já estar entrando em necrose! Meia dúzia de passos depois ela sentou no chão e tirou de sua bolsa uma Coca Cola. Queria ver se era a Zero, para tirar uma foto e mandar para a empresa alimentícia, mas não tive condições de enxergar.
Continuando a saga – saliento a todos vocês que este é um retrato fiel ao dia que tive, não estou inventando nenhuma situação ou ainda querendo agradar a você leitor! – finalmente o trânsito alivia e algo inédito acontece, uma Ferrari branca saindo fumaça azul do escapamento! Se todos conhecessem somente os símbolos, ninguém iria perceber que um VW Passat rebaixado caindo aos pedaços, do ano em que minha graciosa vovozinha era sexy, estava a desfilar pelas avenidas paulistanas, extrapolando qualquer perspectiva do protocolo de Kyoto ser eficaz.
E o Brasil ainda preocupado com as queimadas... tsc... tsc..., deveríamos mesmo era fazer uma ligação internacional e impedir a comercialização destes veículos por aqui!!! Eu disse internacional? Desculpem, mas é que algumas localidades da cidade e algumas pessoas me parecem tão distantes de uma realidade mundial que somente uma chamada internacional poderia surtir efeito. Ou talvez um muro e policiais fortemente armados.
Depois disto, tirando o fato que pessoas compram bens de grande monta como se comprassem pastéis invadiram o local onde trabalho para comer pipoca e algodão doce, o resto até que foi bom, pois dormi!

Se eu fosse milionária

Existem duas perguntas que quando escuto, sempre fico pensativa:

- O que você faria se ganhasse na mega-sena?

- O que você faria se não te faltasse nem tempo nem dinheiro?


Aí começo a pensar e a primeira coisa que sempre passa pela cabeça de todo mundo é que mudaria de casa, para uma com jardim e piscina.
E como todo rico paulistano que se preza não utilizaria a piscina. Piscina de casa de rico ou é coberta, ou gelada ou limpíssima porém sem utilidade.
O piscineiro vem, dá aquele trato, o dono da casa dá aquela chorada no preço da manutenção, mas só o tempo se encarrega de sujá-la, pois serve apenas para dar status e despesa.

Segunda coisa seria o super carrão. Sim, aquele grande, que é difícil de estacionar. Mas isso não seria problema porque teria motorista. Apesar de que atualmente quem tem esse tipo de carro é perseguido, porque os mais antenados já estão começando a perceber que o desgaste ambiental é muito grande para apenas uma pessoa se deslocar. Mas não tem problema: utilizaria os vidros mais escuros possíveis e passaria despercebida. (Porém, com isso perderia a oportunidade de desfilar por aí, ver e ser vista, e aí o intuito inicial já teria sido perdido... melhor um carro elegante, porém discreto).

Outra coisa e a mais importante de todas!!! Uma bica no trabalho!!! Todo tipo de trabalho. Os serviços domésticos, os dilemas profissionais, a mendigagem na fila do concurso. Finalmente teria a oportunidade de olhar de cima aqueles que um dia me desprezaram:
- Oi, tudo bem?
- Tudo, e você?
- Estou bem!
- Como vai o trabalho? Continua como gerente?
- Sim, minha carreira vai de vento em popa. E você? Já te chamaram no concurso?
- Não, ainda não chamaram, mas agora não tem problema. Semana que vem vou fazer um cruzeiro e na volta darei seguimento aos meus projetos culturais.
- É mesmo? Como foi isso? Ganhou na loteria?
- Não, farei isso com o dinheiro de algumas economias.
(rsrsrsrs)

Claro que a essa altura já teria dado um "up" no meu visual, aquela enxugada nas gorduras extras, um mega-hair no cabelo que insiste em cair e um bronze artificial (pra dar aquela cor de saúde). Os dentes, azuis de tão brancos, frutos do clareamento mais moderno do mundo.

As celulites teriam levado uma surra em alguma clínica de massagem. Meus sapatos doados aos necessitados e finalmente caminharia com aqueles super chiques que machucam pra caramba os pés de quem anda a pé e de ônibus. Já que teria motorista, poderia me aventurar num desses saltos da vida e descartaria meus tênis antigos junto com o meu bilhete-único.
E claro, compraria roupas de qualidade - não essas que costumo comprar nos Wal-Marts da vida.

Outra coisa que abandonaria seria minhas idas ao banco. E pararia finalmente de usar os caixas eletrônicos dos supermercados e dos postos de gasolina para economizar o estacionamento da agência.

Se eu ficasse milionária seria bom. Ajudaria o pessoal que eu conheço e sei que precisa. Mas dizem que quem pensa assim nunca ganha. E também dizem que a mega-sena é um grande engana-trouxa. As bolinhas são viciadas e o prêmio só sai quando "eles querem".

Por enquanto continuo na fila do concurso. Na loteria já deixei de jogar faz tempo. É preferível arriscar em ações porque, apesar da crise, o risco é menor.

De vez em quando encontro aqueles meus amigos executivos e fico reparando que eles ficaram ricos mas embarangaram. O excesso de trabalho e responsabilidade dá uma judiada. Ainda bem, pelo menos isso.

Hoje vou ver se faço um fézinha. Quem sabe tiro a sorte grande, compro uma empresa bacana e chamo um desses meus amigos para trabalhar? Nada de moleza, é claro. Terão que cumprir horário. Porque só assim, com responsabilidade, a gente consegue chegar a algum lugar. ;)

Parabéns pra você


Hoje faz alguns anos que larguei o cigarro. Uns quatro, pra ser mais exata. Dizem que a gente só deixa realmente o vício após cinco anos de abstinência. Então só falta um.
Mesmo quem fuma pouco, sabe como é difícil parar de fumar.
Quem já parou, sabe que a gente nunca é um não-fumante, mas sempre um ex-fumante.
Porque a vontade é danada, e mesmo depois de tanto tempo teima em nos tentar.
Os amigos fumam por perto e não estão nem aí.
Quando isso acontece, o negócio é fingir que não está acontecendo nada em volta, fazer cara de paisagem e meditar.
Entrar num estado alfa (como aquele em que a gente entra quando senta no metrô e fica olhando pra um monte de gente, sem olhar).
Mas tem umas coisas engraçadas: teve um dia em que alguém acendeu um cigarro no shopping, apoiou no cinzeiro e o deixou lá queimando, inteirinho, bem ao meu lado.
Justo a marca que eu fumava. Eu fiquei ali, olhando pra ele e ele pra mim, soltando aquele cheirinho que só quem fuma sabe a tentação que é. (Coisa do demo, na certa).
O "coisa ruim" também tem outras maneiras de atiçar, como quando a gente está parado na rua vazia e de repente passa um carro e estaciona bem na nossa frente, só pro motorista acender o cigarro. Oooo tentação, viu?
E no barzinho então? É possível alguém que fuma pensar em beber sem acender um?
Pois é... hoje é dia de comemorar.
Vade retro satanás. Mais um ano, menos um ano.
O cigarro sai da vida e deixa aquele vazio. Nada entra no lugar.
E esse buraco existencial pro ser humano incomoda que só!
Mas dá pra agüentar. Tantos vazios a gente sente na vida...
Às vezes eu sonho que estou fumando. E no sonho mesmo lembro que não posso fumar porque parei de fumar.
Aí logo lembro que fumar no sonho pode.
Largar o vício me ensinou que é possível abrir mão de hábitos de anos, abrir mão de qualquer coisa e que fazer isso pode ser uma coisa boa.
Isso vale pra comida, pro trabalho, pras paixões.
No começo a gente sofre. Depois fica orgulhoso, vê novos horizontes e dá graças a Deus.

Tristeza não tem fim, felicidade sim


"E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri"

Sempre odiei essa música.
Ora bolas, então se a gente estiver sofrendo tem que achar que as coisas não vão melhorar e aceitar essa sina de sofredor?
Se um nasce pra sofrer enquanto o outro ri e no momento estou sofrendo, logo, nunca vou deixar de sofrer já que nasci pra isso.
Tenha santa paciência!

Mas no fundo no fundo, como a música me incomoda há tanto tempo e continuo refletindo sobre ela, é sinal que me sinto ferrada em alguns assuntos e vejo outras pessoas (que nem se esforçam tanto) se dando tão bem...
Aí fico pensando que o Tim devia estar certo.


Amaury Jr.: tão engraçado quanto Zorra Total


Sabadão em casa e o programa é sempre o mesmo: acaba a novela e começamos a assistir Zorra Total.
Mas como o Zorra é mais ou menos parecido toda semana, logo lembramos de por no Amaury Jr. Lá, pelo menos visitamos alguma festa diferente ou assistimos a algum famoso falando asneiras.

Como não temos prestígio nem cacife para freqüentar as festas dos bacanas, temos em Amaury Jr. uma espécie de amigo que, solidariamente, se enfiltra nos eventos e com muito jogo de cintura arranca fofocas e confissões entre um e outro gole de champagne.

Amaury é divertido. Hoje acenou do interior de uma carruagem digna de Cinderela numa festa no Museu do Ipiranga, onde estavam sendo lançados deliciosos sorvetes de palito. Os famosos, totalmente emperequetados, tentavam lamber os sorvetes da maneira mais classuda possível. E Amaury não parava de inventar frases para tentar descrever o quanto é chique chupar sorvete. Teve um dia em que estava na festa de um grande laboratório e conseguiu encontrar formas pomposas de falar sobre o Viagra.

Amaury é, no fundo no fundo, um grande educador. Ensina que para deixar de ser alcóolatra sem parar de beber, basta apenas subir na vida e passar a freqüentar o Jockey, o Copacabana Palace e as festas do Congresso Nacional. Quem conseguir esse feito galga também outro importante degrau na escala social: suas fofocas deixam de ser "papo de maricotas" e passam a ser "bisbilhotices".

Quem não tiver grana mas quiser topar com Amaury por aí, não é difícil. Basta guardar uns trocados no cofrinho e quando for comprar algum artesanato, procurar se informar sobre os leilões e bazares beneficentes agendados pela cidade. Artesanatos comprados assim costumam ser chamados de obras de arte. Em clubes como A Hebraica, Pinheiros e Paulistano, vira e mexe rolam alguns. E aí também está nossa grande chance de por os pés nesses lugares, onde a gente nunca poderia entrar a não ser que fosse a trabalho.

Obrigada Amaury!
Você é nosso guia turístico no mundo dos endinheirados! Seu programa é muito divertido e também nos ajuda a fazer economia.
Enquanto seus entrevistados torram fortunas em clínicas para manterem nos rostos a expressão de sorriso constante, nós, desse lado, sem gastar um tostão, todo os sábados morremos de tanto rir.

Crendices atrasam a vida

- Tira essa bolsa do chão!
- Por que?

- Porque faz perder dinheiro.
- Como assim?

- É! Você não sabia?
- Ah, que bobagem! Só vou perder dinheiro se deixá-la longe dos meus olhos e alguém roubar minha carteira...

- Que nada... isso é igual espelho. Quebrar espelho atrasa a vida em sete anos e a bolsa no chão faz com que o dinheiro suma da carteira.

- Ai meu Deus! Sete anos de azar por causa de um acidente no espelho? Já não basta o meu prejuízo?
- Prejuízo vai ter se largar a bolsa no chão.

- Tá bom, eu tiro! Mas isso é besteira, é igual a história de tomar banho depois do almoço, tomar leite com manga e deixar o sapato virado.
- É nada! Uma conhecida minha tomou banho depois do almoço e morreu.

- Ah, que é isso...
- É sim! Teve uma congestão.

- Vai ver que comeu demais!
- Não... ficou com o bucho virado!

- O que?
- É... bucho virado é um problema que o estômago vira do avesso.

- Ahahahahaha isso não existe...
- Existe sim! Quando o bebê estiver com soluço, é bom tomar três golinhos de água e colocar um fiapo vermelho na testa dele pra não virar o bucho.

- Pela madrugada... soluço é soluço, mais cedo ou mais tarde passa. Se virar o bucho é muito azar...
- Nãaaaaooooo não fala a palavra azar!!!

- Por que não?
- Porque dá má sorte!

- Ai, pára com isso, vai...
- É sim, isso atrai coisa ruim! Vai buscar o incenso pra gente queimar e limpar o ambiente.

- Não tem mais incenso, acabou.
- Então pega sal grosso.

- Também não tem, usei pra por os braços de molho na última vez em que fiquei com quebrante.
- Pega alho então, vai.

- Ah, alho tem. Tem um monte, pega você lá perto da gaveta dos talheres, mas não deixa a faca virada ao contrário.
- Ah, é verdade, senão dá problema.

- Sabia que meus móveis estão todos nos lugares errados?
- É?

- É sim, li na revista de Feng Shui que tenho que por um espelho no fogão e virar a cama ao contrário.
- Espelho no fogão?

- É, sim, preciso instalar.
- Mas... e se por descuido quebrar?

- Aí, sete anos de azar.
- Melhor deixar pra lá então, melhor não arriscar.

- Melhor mesmo, cruz credo!
- Faz o sinal da cruz e bate na madeira, pra isolar.

- Pronto, já bati.
- Não.... bate com a mão direita!

- Não era o pé que não podia ser o esquerdo?
- Ah é, é verdade!

- Quanta complicação, né?
- É mesmo, melhor deixar essas crendices pra lá.

- Também acho, isso é tudo bobagem.
- Já vou indo então, está na minha hora.

- Ah, que pena, justo agora que começou a chover.
- Não tem problema, eu trouxe guarda-chuva.

- Que bom, senão te emprestava um.
- Aqui está ele, é moderno, automático.

- Nãaaooo...
- O que foi?

- Não abre guarda-chuva dentro de casa... atrasa a vida...
- A minha ou a sua?

- Deve ser a do dono da casa.
- Por falar nisso, que número dá a soma dos números da sua casa?

- Dá quatro.
- Ih... quatro é ruim.

- Por que?
- Porque tem que dar seis, que é o número das casas.

- Quem disse isso?
- Sei lá.

- O padre disse que tudo isso é besteira.
- Mas na Bíblia o número sete aparece um monte de vezes.

- Sete vidas tem o gato e os casamentos passam pela crise dos sete anos.
- Ah... só rindo, viu?

- É sim, mas andar pra trás não pode, nem bater na mãe.
- Ah, isso eu concordo. Se bater na mãe a mão fica pra fora do caixão.

- E se o sapato ficar virado alguém morre.
- É sim.

- Mas não pode sair por essa porta.
- Por que?

- Porque você entrou pela outra e ouvi dizer que a gente tem que sair pela porta que entra.
- Quem falou isso?

- Sei lá.
- Coisa de louco, né?

- Só que por aí tem uma escada, vai ter que passar por baixo.
- Isso não. Nem pensar.

Não, não e não

Celular: mudo.
Campainha: muda.
Mensagem de Texto: nenhuma
E-mail: Caixa vazia.
Orkut: nenhum recado.
Orkut: nenhuma visita.
MSN: off
Telefone de casa: meditando
Caixa de Correio: vazia
Mensagem offline: nenhuma
Caixa de Mensagens do orkut: anúncios
Comentários no blog: dos amigos
No orkut dele: nenhuma atualização, nenhum recado, nada.

entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia entra dia sai dia

Os românticos costumam filosofar sobre transmissão de pensamento, almas gêmeas, viagens astrais...

"Se eu sonhei com ele e foi real, é porque nosso sonho existiu em algum lugar..."
"Se estou pensando nele e não consigo esquecer, é porque ele também está pensando em mim..."
"Se ele não fala comigo, é porque gosta tanto de mim que está com medo de se aproximar..."

É, são bonitas filosofias, mas a verdade é menos colorida:

Sabe aquele cara chato que fica te perturbando e você não está nem aí pra ele?

Então... você para o seu amado, é como aquele chato pra você.
Você escreve pro chato?
Papeia no MSN?
Sente vontade de falar oi?
Pensa em enviar um SMS?
Está preocupada com o que ele está sentindo?

Então... fez sentido?

Ronaldo no Corínthians

Finalmente chegou!
Festa, fogos, confetes e serpentinas.
Como num eclipse, Ronaldinho em franca decadência e o Corínthians em franca ascenção cruzaram-se no meio do caminho.

Com um salário estratosférico, que segundo os dirigentes do Timão já será coberto pela venda das camisas oficiais pela bagatela de R$ 170,00 (quase meio salário mínimo), Ronaldo chega ao Corínthians fora de forma mas com muita humildade.
Por isso mesmo aceitou os R$ 120.000,00 símbólicos na Carteira. Não na carteira que carrega no bolso, pois nessa, carrega apenas cartões de crédito.
Ele um dia disse que rico não carrega mala, compra tudo novo quando chega no destino.
Agora, com tudo acertado, já deve começar a trabalhar e seu primeiro passo será ir para um SPA.
Na volta, finalmente poderá bater bola sossegado.

Com a história dos travestis fazendo parte do passado e mais alguns milhões no bolso, Ronaldo segue sua vida e nós, que nem ao menos sabemos como podem caber tantos zeros num só cheque, continuamos tirando onda das banhas do seu estômago, que se bobear são bem menores que as dos nossos.
E a gente ainda consegue dar risada (dele).

Castigo vem a cavalo?

Susana Vieira
Essa frase escuto desde que sou criança:
- Olha... cuidado... castigo vem a cavalo!
Contando com isso, pensava duas vezes antes de aprontar. Não que não fizesse as minhas, mas tinha medo do tal do cavalo, que nem sempre aparecia. Porém quando ele vinha... me derrubava da bicicleta, me fazia enroscar o dedinho do pé no cantinho da mesa ou passava a perna enquanto eu estava correndo.

Mas hoje, como tudo é feito a "toque de caixa", o cavalo já era. Castigo vem de metrô, de Ferrari. Vem até pelo Sedex 10.

A última história que lembrei foi quando os Mamonas morreram. Os mais idosos e religiosos juravam que aquela desgraça fora fruto de um destino que eles mesmos plantaram: falavam obscenidades, muitos palavrões e Deus não gosta disso. É... isso é que dá não ter religião... Olha aí que judiação...

As crendices populares não precisam de muito para serem alimentadas, mas casos como esse, da morte de Marcelo Silva, ex-marido de Suzana Vieira, logo após deitar e rolar sobre os valores morais e éticos, deixam até os mais céticos com a pulga atrás da orelha.

Morreu pelo que tudo indica de overdose. Mas morreu. O cachorro de Suzana já tentara fazer esse serviço anteriormente - sem sucesso.

Deus que o tenha no lugar que ele merece, pois o Padre me ensinou: não temos competência nenhuma para julgar ninguém.
Ele me disse que entre o coração de um homem e Deus não há nada, nem ninguém. Seja ele quem for.

Mas uma coisa já percebi: quando a gente vai se afastando de valores bacanas, vai perdendo o eixo de uma forma muito perigosa: primeiro é só uma traição boba, que ninguém vai ficar sabendo. Depois, a traição vai sendo recorrente e se torna algo normal - até ser descoberta. Aí vem o choro, a mágoa, em algumas vezes a separação e em outras o perdão.

E a essa altura a traição, assunto não mais proibido, torna a acontecer. E o traído que generosamente concedera o perdão, passa a fazer o papel de "corno manso", deixando o papel de vítima para se tornar o vilão da história:

- A culpa é sua! Quem mandou perdoar?

E o traidor, incólume e com cara de paisagem, diz que foi só uma fraqueza, um "lance" sem importância, coisa passageira. "Não é pra tanto drama".

Quem perdoa não pode mais se indignar, fica desmoralizado.

E esse é o ciclo da inversão de valores.

Ninguém sabe se quem trouxe a morte foi a droga ou o cavalo.
E também não sabemos se para quem vive num mundo como o nosso, a morte ainda possa ser considerada um castigo.

Nunca nada tá bom


Não adianta: nunca conseguiremos agradar. E eu não digo a todos ao mesmo tempo. Nunca vamos agradar a ninguém.
E isso é simples de explicar. É que pro ser humano, nunca nada tá bom.

Se a gente fala demais, é porque "enche o saco".
Se a gente fica quieto, é porque tá irritado, aconteceu alguma coisa.
- Nossa, você tá tão quieto... aconteceu alguma coisa?
(E a gente tá quieto que é pra não arrumar encrenca. Mas não adianta, porque o simples fato de estar quieto já demonstra insatisfação. E aí o outro começa)
- Que que eu te fiz?
- Nada!
- Então porque não quer falar comigo?
- Ah, hoje tô meio desanimado...
- Mentira, porque tô vendo na sua cara que tá bravo.
- Mas que cara, criatura?
- Vou pegar um espelho pra você ver.
- Agora você tá conseguindo me irritar.
- Eu não disse que tava irritado? Eu te conheço!
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Se a gente estuda pra concurso, é porque poderia estar procurando emprego melhor, pra ganhar bem mais.
Se a gente quer se arriscar num negócio novo, é doido.
Se fica naquele emprego meia-boca, é acomodado.
Se trabalha no negócio da família, é vagabundo.
E se o vizinho passou no concurso, é mais esperto do que nós.
- Mas ele passou na malandragem, tem conhecido lá dentro!
- E daí? O mundo é dos espertos!
- Ser malandro não é ser esperto! Ser malandro é falta de caráter!
- Hum, você tá com inveja.
- Não sinto inveja de gente desonesta.
- Por isso nunca vai ser alguém na vida.
- E o que chama de "ser alguém na vida"?
- Ter um bom cargo, um bom salário.
- Não acho que isso defina ninguém.
- Mas vai fazer alguma coisa sem dinheiro pra ver se você consegue...
- Não preciso de muito.
- Por isso que eu falo que você é burro!
- Burro pra mim é quem acha que a vida é só ganhar dinheiro a qualquer preço.
- Não falei que você era burro? Não gosta de dinheiro!
- É claro que eu gosto de dinheiro. Mas não preciso de milhões pra ser feliz.
- Ah, mas se tivesse milhões não ficaria contente?
- É claro que ficaria!
- Então, você é burro de não correr atrás.
- Burro é você que não entende o que eu falo.
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- Meu casamento é uma droga. Maldita hora que eu fui casar.
- Ah... todo mundo que é casado fala isso. Mas vocês podem separar. Já quem é solteiro nem sempre acha alguém pra se casar.
- Você que é feliz. Se eu pudesse voltar no tempo...
- Mas você pode, é só separar!
- Ah... agora já não dá mais.
- Claro que dá! É só querer.
- As coisas não são assim tão simples...
- Olha, ficar solteiro não é tão bom assim como você fala, viu?
- Claro que é! Não tem compromisso, não tem responsabilidade!
- Mas também não tem carinho de madrugada, nem alguém na hora da necessidade...
- Ah! Você pensa que pessoa casada é carinhosa como no tempo do namoro?
- Penso. Não é?
- Claro que não! É cada um pro seu lado a noite toda! E você pensa que é bom viver assim, sem carinho?
- Eu sei que não. Por isso te digo que ser solteiro não é tão bom assim.
- Ah, claro que é! Você que é feliz!
- Mas você tem filhos, eu não.
- Também não tem dor de cabeça!
- Ah, claro que tenho. Cada um com seus problemas, né? Você ainda tem o sorriso do seu filho pra te alegrar. Eu, nem isso.
- Meus filhos só dão trabalho e preocupação, e não reconhecem nada!
- Poxa, queria tanto ter um filho... nem iria ligar se não reconhecesse, queria tanto cuidar de alguém...
- Você é doido!
- Então porque você teve filhos?
- Sei lá, porque eu tava me sentindo sozinha e ser sozinha é ruim.
- Entendeu o que eu tô tentando te falar até agora?
- Ah... você reclama de barriga cheia.
- É, ninguém entende a gente.
- É verdade.
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Recital da Rê

Recital de formatura da minha talentosa prima Regina Migliore, que neste sábado, dia 06/12/2008, concluiu seu TCC tirando nota dez com louvor de todos os examinadores, na ECA, USP.

Hoje estou sem assunto


Mais um dia se foi e quando fui ver A Grande Família já estava começando.
Aí me deu uma aflição, porque parecia que fazia tão pouco tempo que eu tinha assistido A Grande Família da semana passada...
Bem, a mulher do prefeito da novela foi arrastada em praça pública e esfolou os joelhos como Jesus Cristo.
Imagino quantas mulheres inocentes vão apanhar essa noite por causa desse bom exemplo da novela.
É terrível pensar que tanta gente boa passa o dia todo tentando educar, pra TV vir a noite e ensinar a trocar remédio de pressão e outras malvadezas mais.
Por isso sou a favor da censura. A censura não apenas em relação ao sexo, mas em relação a assuntos que podem ferir pessoas.
O pai de meu amigo tomou soda cáustica líquida após assistir a reportagem no Gugu.
Aproveitou a idéia. Não é mentira. Alguns dias após a grave queimadura interna, faleceu.
E nesse caso, quem se responsabiliza? A TV não é concessão pública? Por que não ser o maior veículo educativo já que não temos professores que bastem para tantos brasileiros nesse sertão de "meu Deus"?
Tirando que continuo achando que o mundo tá perdido em questão de sentimentos, de resto tudo igual.
São Paulo é a quarta cidade mais gentil do mundo.
Eu imagino então como sejam as outras.
Tive a prova que o paulistano prefere muito mais fofocas a outros tipos de assunto, cuidar da cidade, por exemplo.
Quando fecho o orkut os acessos somem, mas quando abro os recados ultrapasso cento e cinquenta acessos/dia. Pessoas ávidas por fofocas e outras notícias. Que não usam para nada, mas interessam.
Por isso a TV não muda.
Nesse blog, onde falo mal dos outros e de mim mesma, cheguei aos 3.000 acessos e não sabia que em menos de dois meses ganharia tantos adeptos.
Já no de São Paulo, ninguém entra.
Talvez a educação no país pudesse ser dada em pílulas, entre leituras de Contigos e Nelson Rubens. Teria um ibope e tanto. Quem não conhece a TECPIX? Já a bandeira da nossa cidade... nem eu conhecia até bem pouco tempo atrás.
Hoje, sem mais, boa noite que nem eu mais me aguento. (isso, ¨trema, pq a reforma ortográfica mandou cortar).

Saudade

É duro sentir saudade.
A saudade a que me refiro é aquela dos que se foram de nossas vidas por decisão própria.
Lutar contra essa saudade é como tentar matar uma pessoa que está viva.
E como a saudade é alimentada pelo passar dos dias, como querer que com o passar do tempo ela passe? A saudade é matreira, e o tempo - que tudo apaga, a ela alimenta e nos consome em brasa.
Preciso dar um jeito nisso, tomar uma decisão.
A saudade não pode ser mais inteligente do que eu, isso não!
Já sei:
Ao invés de tentar evitar a saudade, vou me entregar a ela com toda força.
Vou abraçar a saudade para ver se ela, como ele, também se enjoa rápido de mim.

Como se não houvesse amanhã

Hoje estou especialmente triste. Minha vizinha foi atropelada.
Na quinta ela veio falar comigo enquanto eu varria a rua.
Eu estava num dia diferente dos meus normais, porque estava de saco cheio da folga dos vizinhos que não varrem a rua nunca e jogam na calçada todo tipo de sujeira.
Não é o caso dela, que sempre varreu pelo menos a parte que lhe cabia. E nem deveria, porque já tem mais de oitenta anos.

Mas mesmo quando ela era mais jovem, não estendia seu trabalho à nossa parte. Ela também chamou o fiscal quando a gente tirou a primeira telha para a reforma de casa, o que nos custou um dinheirão de propina para calar a boca do bendito corrupto. E a nossa grana era curta, bem contada na época, e no fim da obra aquele dinheiro fez bastante diferença, porque veio o Plano Collor e ficamos sem recursos para nada. A faculdade era cara e os guarda-roupas ficaram para mais tarde. Empilhávamos as roupas durante algum tempo. Pagar o fiscal pesou no bolso. Mas a maldade pesou mais.

Só que muitos anos se passaram e ela mudou, foi envelhecendo, ficou viúva e diferente. Era amorosa e sempre que eu podia gostava de ajudá-la, carregando uma sacola ou dando uma carona, sem mágoas.
Na quinta passada eu estava diferente, louca da vida, jurando que não ia tirar um cisco de nenhuma calçada que não fosse a nossa. Bando de folgados... que se revezem! Eu não sou burro de carga, ora bolas!
Mas assim que comecei meu serviço porco, veio um vento e desfez todo meu trabalho.
Isso fez com que eu me obrigasse a varrer da maneira de sempre: três casas para garantir ao menos algumas horas de limpeza.
Quando estava terminando, minha vizinha apareceu.

Eu, diferente do meu normal, estava meio de má vontade para conversas, afinal minha coluna já dá sinais de carregar mais do que devo nas costas.
Então não fui cumprimentá-la com o beijo de sempre, fiquei juntando meu lixo meio de longe, até que ela me chamou para conversar.
E me contou, de um jeito sofrido, que a porta do ônibus havia fechado abruptamente enquanto ela subia, e estava muito machucada.
Os homens sofreram para tirá-la de lá e os médicos falaram que 29 dias de espera seriam necessários para sanar a dor.

Compadecida, ofereci ajuda para os próximos dias, prometendo deixar meu telefone na caixa do correio. Dei um abraço de leve, já que ela estava machucada e me despedi, recolhendo com ela a última folha que estava presa no portão, para o serviço ficar 100%.
Mas sexta eu não levei o telefone, sábado também não. Fiquei tranqüila porque ela mora ao lado de uns parentes, embora em casas separadas no mesmo corredor.
Domingo, quando me preparava para entregar o número, soube pelo muro que ela está em coma. Foi atropelada na avenida, quando saiu para comprar algumas coisas. Tem fraturas diversas e pelo que escutei, dificilmente sobreviverá.

Essa noite não dormi bem. Fiquei pensando nela, lá no hospital. Se a gente ainda mantivesse os hábitos do interior, com certeza ela não ficaria sozinha nem muito menos teria saído para fazer suas próprias compras. Seu atropelamento foi a soma de muitos desamores. De muita falta de preocupação com o que mais importa, que é o ser humano e suas necessidades.

Meu mau humor de quinta foi uma exceção em meu comportamento. Não fui carinhosa como costumava. Naquele dia eu me permiti ser meio filha da puta como todos. E estou arrependida até o último fio de cabelo.
Foi um acidente. Ninguém teve culpa. Mas eu sei, dentro de mim, que tenho uma parte da culpa. Tenho por não ter sido solidária o tanto que deveria. Por engrossar a massa fria do mundo moderno. E nunca mais vou esquecer essa dolorosa lição.


Valores Modernos








São Paulo, por Washington Olivetto


SÃO PAULO
por Washington Olivetto


Alguns dos meus queridos amigos cariocas têm mania de achar São Paulo parecida com Nova York.
Discordo deles. Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não conhece bem a cidade.
Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que São Paulo seja apenas uma imensa Rua Oscar Freire.


Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com muitas cidades ao mesmo tempo e,
por isso mesmo, não se parecer com nenhuma.


São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Paris no Largo do Arouche, Salvador na
Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do Teatro Municipal, Munique em Santo Amaro ,
Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana Olinda na Freguesia do Ó.

São Paulo é um somatório de qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo,
como o Fasano, o Emiliano e o L'Hotel, mas também tem gente dormindo embaixo das pontes. Tem o deslumbrante
pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante vegetação da Cantareira, mas também tem o ar mais poluído do país.






Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove acidentes como o da cratera do metrô
e o do avião da TAM em Congonhas.

São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia dúzia de paulistanos significa um italiano, um japonês,
um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.

São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: têm diversos grandes times de futebol, sendo que um deles
leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido 'o mais querido'. Mas, na verdade, o maior e o mais
querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica perto da Portuguesa e foi fundado por italianos,
igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras.

São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas chegou a 2007 tendo como celebridade o permissivo
Oscar Maroni, do afamado Bahamas.

São Paulo já foi chamada de 'o túmulo do samba' por Vinicius de Moraes, coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini
e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância discreta de suas meninas, corretamente
constatada por Caetano Veloso, produziu chiques, como Dener Pamplona de Abreu e Gloria Kalil.


Em São Paulo se faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que os de Tóquio, lagareiras melhores
que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris, até porque em Paris não existem pastéis,
muito menos os de feira.

Em alguns momentos, São Paulo se acha o máximo, em outros um horror.
Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.

São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os cariocas que andam imitando
as suas imitações paulistanas.
São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e
pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa.
Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa que os ingleses já provaram ser
perfeitamente possível com o Tâmisa.
Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa, purificando o ar, organizando o mobiliário urbano,
regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões sonoras e melhorando o tráfego,
São Paulo jamais será uma cidade belíssima.

Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mamãe natureza, é fruto do trabalho do homem.





Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que a cidade oferece, no clima de excitação permanente,
na mescla de raças e classes sociais.

São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza, fenômeno gerado pela miscigenação, melhor se
manifesta.

São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem trabalharam direitinho, coisa que se reconhece
observando as meninas que circulam pelas ruas.

E se confirma analisando obras como o Páteo do Colégio (local de fundação da cidade), a Estação da Luz
(onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa), o Mosteiro de São Bento, a Oca, no Parque do Ibirapuera,
o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia, o palacete Vila Penteado, o Masp, o Memorial da América
Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e mais uma infinidade de lugares desta cidade que não
pode parar, até porque tem mais carros do que estacionamentos.

São Paulo não é geograficamente linda, não tem mares azuis, areias brancas nem montanhas recortadas.
Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na maioria, são sociais.


Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o quesito das belezas naturais, São Paulo se dá mundialmente
muito bem por uma razão tecnicamente comprovada.

Entre as maiores cidades do mundo, como Tóquio, Nova York e Cidade do México, em matéria de
proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor.

Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro. O mais importante é que com essa
distância nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo!

(Washington Olivetto é paulista, paulistano e publicitário).


Comentários

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Não se esqueça de citar o nome do texto comentado.

Obrigada!

Como se fosse dinheiro



(Você se deixa enganar?)

Como se Fosse Dinheiro
(Ruth Rocha)

Todos os dias Catapimba levava dinheiro para escola para comprar o lanche.

Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas.
Mas seu Lucas nunca tinha troco.

Um dia, Catapimba reclamou de seu Lucas:
- Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.
- Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?
- Ah, eu não sei! Só sei que quero meu troco em dinheiro!
- Ora, bala é como se fossa dinheiro, menino! Ora essa...
Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes.
A resposta era sempre a mesma:
- Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro... Então, leve um chiclete, se não gosta de bala.

Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.
No dia seguinte, apareceu com um embrulhão de baixo do braço. Os colegas queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia;
- Na hora do recreio, vocês vão ver...

E, na hora do recreio, todo mundo viu.
Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou de dentro... uma galinha.
Botou a galinha em cima do balcão.
- Que é isso, menino? - perguntou seu Lucas.
- É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro... o senhor pode me dar troco, por favor?
Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.
Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando...
Aí colocou uma moedas no balcão:
- Está aí seu troco, menino!
E pegou a galinha, para acabar com a confusão.

No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do braço.
No recreio, todo mundo foi comprar lanche.
Na hora de pagar...
Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba...

O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de goiabada que ele tinha levado...

Teve gente que também levou galinha, pato, peru...
E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma;
- Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro...

Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.
Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.

Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo.
E sabe o que ela achou?
Pois achou que as crianças tinham razão..
- Sabe, seu Lucas - ela falou -, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse dinheiro muito menos chiclete.
Seu Lucas se desculpava:
- É, mas e se eu não tiver troco?
- Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.

Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.
Naquele dia, nem houve mais aula.
Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.

E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais compridos de troco, seu Ângelo do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.
Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro. É, ou não é?

reforma ortográfica


Como o assunto de ontem foi reforma ortográfica, hoje queria colocar um exemplo de uma idéia que tenho para facilitar a escrita correta da língua portuguesa.
Todos temos inúmeras dúvidas quanto à grafia das palavras, então seria interessante brincar com as dúvidas e criar métodos de memorização para que não tenhamos que ficar reféns do Word ou do dicionário o tempo todo.

Isso facilitaria a vida de milhões de pessoas e o bacana de estudar português é que na língua está incluído absolutamente tudo, então nem é preciso se preocupar com a cultura geral, porque ela vem de brinde!

Aqui vai um exemplo de brincadeira com a memorização:

Você já teve dúvidas se o porco tem fUcinho ou fOcinho?
Não tenha mais, olhe bem para o nariz do porquinho!
O focinho do porquinho é bem redondinho!

fOcinhO

Bobo, né?
Mas quebra um galho danado saber que o nariz é uma bola!
Ah... e também dá pra fazer bolas com a caca do nariz!
affff... que nOjO!

Pronto: nunca mais esqueço: FOCINHO!

Salão do Automóvel



A fila do Salão do Automóvel me fez lembrar uma história.
Um dia a garota apaixonada voltava pra casa com seu namorado e ele, carinhoso, segurava em sua mão enquanto dirigia.
Guiava lentamente, numa velocidade tão doce que seus sonhos flutuavam.
Ela então perguntou a ele o porquê daquele ritmo incomum, intuindo que aquela lentidão servia prolongar os momentos maravilhosos que passaram juntos durante mais alguns minutos.
Ele, sem titubear respondeu que dirigia com cuidado porque o carro era novo, e aquele bairro onde ela morava, muito esburacado.

Tá amando? Entra na fila!

sobre as expectativas



Quanto tempo na vida a gente passa sendo esse cachorro? Hoje estou me sentindo ele.

Dia de jogo

Homem que é homem vai ao jogo de futebol. E vai cedo, ainda menino, pra pegar gosto pelo veneno. Meus sobrinhos já estavam na idade e nós, que por sorte moramos perto do Palestra, decidimos levá-los para assistir ao jogaço que aconteceria naquele dia.
Palmeiras e Santos: um clássico. A idéia tivemos perto das cinco da tarde, hora em que os ingressos para a arquibancada deixam de ser vendidos. Mas minha irmã foi correndo e conseguiu os preciosos.
A arquibancada não foi escolhida somente pelo preço, mas pela macheza. Isso mesmo: numerada é coisa de "viado". Bom mesmo é assento de concreto no meio do povão, pra sentir o calor da torcida.
Saímos bem mais cedo porque a puxada não é pequena: meia hora à pé. No caminho fui ensinando o hino do clube, estrofe por estrofe, bem direitinho.
- Quando surge o alviverde imponente...
Não fiz muito sucesso porque, dos três pequenos, palmeirense mesmo é só um, o menorzinho. Os outros dois são bambizinhos, tadinhos...
Na chegada, a massa alviverde intimidava: as crianças, embora torcedoras do time do Morumbi (por influência do cunhado afetado), logo trataram de amarrar bandanas bem fosforescentes, pra que aquele monte de maloqueiros nem de longe desconfiasse que naqueles peitinhos batiam corações tricolores (e dos mais fanáticos).
Na entrada, funil para a revista - degradante. Finalmente dentro do Palestra, escolhemos nosso lugar: bem na curva da rede. Com sorte veríamos o Verdão marcando os gols bem de perto e, com mais sorte ainda, um dos pequenos se converteria – se Deus quisesse.
A massa não parava de chegar. A TUP distribuía os folhetos com a música que declarava amor incondicional ao nosso amado Palmeiras.
Finalmente os fogos! O Santos entra primeiro, com um estádio totalmente verde e uma vaia de apitar o ouvido. Agora sim, é a vez do Palestra subir as escadas! Quem entra primeiro é o Luxemburgo, engravatado e maestro de uma orquestra milionária - aos seus ouvidos. Naquela expectativa, de repente tudo escuro... Quando percebemos, estamos debaixo de uma bandeira gigante que ninguém sabe como subiu. Após alguns segundos tentando entender o que aconteceu, meu sobrinho olha pra mim e diz:
- Justo agora que eu queria ver o Marcos!
Assim que nos livramos do incômodo, o juiz apita e o jogo começa. O barulho é apenas da torcida, nada de narrador ou alguém pra fazer com que a gente entendesse o que estava acontecendo. O Palmeiras atacava lá do outro lado do campo, onde marcou nada menos do que cinco gols, só no primeiro tempo.
No intervalo, o mais intrigante: um ambulante conseguiu encontrar no meio da torcida a quem ficou devendo um real:
- Foi praquele cara de verde!
O maledeto sentado atrás de mim insistia em fumar o tempo todo, e o que era pior: jogava as bitucas pra eu apagar quando me sentasse. Resultado: por pouco não queimei a bunda.
No segundo tempo dois gols do Santos, também lá longe. Sete gols, todos do outro lado.
O pior nem foi isso: do degrau pra baixo todo mundo ficou em pé, e do nosso degrau pra cima todo mundo mandava sentar. Nem preciso dizer que só nos restou prestar atenção na Mancha, que cantava sem parar:
- Ooooo vamo ganha porcoooo!!! Vamo ganha porcooo!!! Vamo ganha porcooo oooo!!!
E tome bandeira na cabeça!
Mas até que foi bom... O juiz apitou o final de jogo e nós, preocupados com a superlotação da saída, demos um tempo esperando esvaziar.
Em seguida descemos em fila, ainda espremidos, mas demos a sorte de encontrar uma moçada que avistou o Chico Lang lá no alto na cabine da Gazeta, e não deu outra:
- Olha lá! Jornalista gambá!
- Hei! Chico Lang! Vai ..........#$%¨&%
- Ueeeeeebaaaaaa!!!!!!!!!!!
- Palmeeeeeiraas!!! Fiu fiu fiu! Palmeeeeeiraas!!! Fiu fiu fiu!
E lá se foi, mais uma noite inesquecível no estádio do Palestra.

Palmeiras x Corinthians

Era dia de clássico na cidade. Tinha gente que logo cedo já desfilava a camisa do time do coração sem medo de ser feliz. No trabalho era aquela zoação... Quem se importa? O que vale é engrossar a torcida e fazer com que os onze jogadores virem milhares pelas ruas. Aí sim o elenco ganha mais força!
Luís foi trabalhar com a camisa do Corinthians. Deslizava suave pela avenida, enquanto sintonizava as notícias do dia. É hoje que o bicho vai pegar! Estatísticas de vitórias, de ataques e defesas. Previsão de público, entrevista dos fanáticos. Tudo soprava a favor do timão.
Mas ia tão distraído que não viu que o farol não estava mais verde e, tuuuummm!!! Encheu de alegria a traseira de um carro parado! Desceu pra ver o tamanho do prejuízo, e o motorista atingido tratou logo de berrar:
- Só podia ser corinthiano!
- Qui cê tá falano meu véi?
- Que só podia ser corintiano, domingueiro que não sabe dirigir!
- Qui dominguero o que rapái? Você qui parô no amarelo, senão dava pra nóis dois, seu bunda mole!!!
- Além de detonar meu carro ainda me chama de bunda-mole???
- É isso aí mesmo, vem falano qui eu torço pro Corinthia, qui sô dominguero... Cê nem me conhece! Sabe com quem cê tá falano?
- Não sei nem quero saber, só sei que vai pagar isso tudo, porque quem bate atrás tá sempre errado, não sabe não?!?
- Eu vô te processá por preconceito, falô qui sô corintiano e falô co desprezo! É porco né, seu filho da puta?
- Porco é teu nariz, sou sardinha com muito orgulho!
- Menos mal, si fossi do chiquero ia levá umas porrada!
- Do chiqueiro não sou nem morto, antes gambá que periquito!
- Gambá é a puta que ti pariu!
- Minha mãe nãããoo!!!
- Foi mal véi, mãe é foda, desculpa aê...
- Tá legal, foi culpa minha, fui eu que te chamei de gambá primeiro.
- É cara, verdade, eu tava distraído ouvino rádio, que merda...
- Você tem seguro?
- Seguro não tenho não, economizo tudo pra assistir meu Timão. Mas tem um chapa meu da oficina que conserta isso aí em dois palitu, nem vai parecê qui amassô, cê vai vê.
- Tá certo cara, vou confiar em você, pode me dar seu telefone?
- Belê!
Abriu a carteira para pegar um cartão, quando o ingresso do clássico caiu no chão:
- Olha, caiu um papel aí!
- É meu ingresso pru jogo de hoje a noite.
- Que beleza! Hoje torço pra vocês. Esses pontos vão ajudar o Santos no campeonato.
- Firmeza bróder, tá aqui meu cartão! Me liga amanhã bem cedo pra gente vê isso aí...
- Tá certo, vou levar na confiança. Boa sorte no jogo de hoje!
- Falô, cara. Torce junto, vamo ganhá de lavada, passá perfume na porcalhada!
Nessa hora, um palmeirense que vinha passando botou a cabeça pra fora berrou, sem medo de ser feliz:
- Aê animal! Sabe dirigir não? Porca miséria! Só podia ser ultimão!
O corinthiano, verde de raiva, mal se despediu do lambari e nem olhou se o farol tava verde pra correr atrás do suíno. Mas o adversário já tinha sumido pelas ruas de Sampa e, àquela altura, deveria estar sacaneando outros corinthianos uniformizados andando pelas calçadas, com a certeza de que nunca mais os encontraria. Porque, se encontrasse, dependendo do resultado do jogo, não haveria vergonha que bastasse...

(texto de minha autoria, no Grupo dos Poetas do Tietê)

a mais querida

Era a maior prova de amor. Deixar de ver o jogo decisivo e sair com ela. Já havia pisado na bola muitas vezes e precisava se redimir. Prova maior que essa, impossível.
Não valia ir a um daqueles bares que têm telão. Senão os olhos não iriam se desgrudar do jogo e a amada, magoada, teria certeza absoluta que em sua vida o futebol vem primeiro que tudo.
Foram então ver o pôr-do-sol. Romanticamente lindo. Aquela bola de fogo enorme escondia-se aos poucos, e lá do outro lado despontava ninguém menos do que ela: a lua cheia.
Os fogos de artifício saudavam sua chegada. Ele sorria. Ela, feliz da vida, aconchegada nos braços do amado, protegia-se quando ouvia bombas pra todo lado.
De lá foram pro restaurante. A cerveja descia redonda. Os olhos brilhavam. Na pista de dança bailavam em círculos, reforçando a aliança.
Na volta pra casa, muitos beijos estalados. Ela, feliz da vida, dessa vez acreditara ser a dona exclusiva da atenção de seu querido. Dessa vez sim. Na cabeça dele só ela – e mais nada. Mas estava redondamente enganada.

O dono da bola



O DONO DA BOLA
(Ruth Rocha)

Este é o Caloca. Ele é um amigo legal. Mas ele não foi sempre assim, não. Antigamente ele era o menino mais enjoado de toda a rua. E não se chamava Caloca.
O nome dele era Carlos Alberto.

E sabem por que ele era assim enjoado?
Eu não tenho certeza, mas acho que é porque ele era o dono da
bola.
Mas me deixem contar a história, do começo.

Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha, vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô.
E tinha bicicleta, com farol e buzina, e tinha tenda de índio, carrinhos de todos os tamanhos e uma bola de futebol, de verdade. Caloca só não tinha amigos. Porque ele brigava com todo mundo. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele. Mas futebol ele tinha que jogar com a gente, porque futebol não se pode jogar sozinho.

O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Só bola de meia, mas não é a mesma coisa. Bom mesmo é bola de couro, como a do Caloca. Mas, toda vez que a gente ia jogar com Caloca, acontecia a mesma coisa. Era só o juiz marcar qualquer falta do Caloca que ele gritava logo:
— Assim eu não jogo mais! Dá aqui a minha bola!
— Ah, Caloca, não vá embora, tenha espírito esportivo, jogo é jogo...
— Espírito esportivo, nada! — berrava Caloca. — E não me chame de Caloca, meu nome é Carlos Alberto!

E, assim, Carlos Alberto acabava com tudo que era jogo.
A coisa começou a complicar mesmo, quando resolvemos entrar no campeonato do nosso bairro. A gente precisava treinar com bola de verdade para não estranhar na hora do jogo.
Mas os treinos nunca chegavam ao fim. Carlos Alberto estava sempre procurando encrenca:

— Se o Beto jogar de centroavante, eu não jogo!
— Se eu não for o capitão do time, vou embora!
— Se o treino for muito cedo, eu não trago a bola!
E quando não se fazia o que ele queria, já se sabe, levava a bola embora e adeus, treino.

Catapimba, que era o secretário do clube, resolveu fazer uma reunião:
— Esta reunião é pra resolver o caso do Carlos Alberto. Cada vez que ele se zanga, carrega a bola e acaba com o treino. Carlos Alberto pulou, vermelhinho de raiva:
— A bola é minha, eu carrego quantas vezes eu quiser!
— Pois é isso mesmo! — disse o Beto, zangado. — É por isso que nós não vamos ganhar campeonato nenhum!
— Pois, azar de vocês, eu não jogo mais nessa droga de time, que nem bola tem!
E Caloca saiu pisando duro, com a bola debaixo do braço.



Todas as vezes que o Carlos Alberto fazia isso, ele acabava voltando e dando um jeito de entrar no time de novo. Mas, daquela vez, nós estávamos por aqui com ele. A primeira vez que ele veio ver os treinos, ninguém ligou.

Ele subiu no muro, com a bola debaixo do braço como sempre, e ficou esperando que alguém pedisse para ele jogar. Mas ninguém disse nada. Quando o Xereta passou por perto, ele puxou conversa:
— Que tal jogar com bola de meia?
Xereta deu uma risadinha:
— Serve...

Um dia, nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time do Faz-de-Conta, que é um time lá da rua de cima. Mas foi por pouco tempo. A primeira vez que ele quis carregar a bola no melhor do jogo, como fazia conosco, se deu muito mal... O time inteiro do Faz-de-Conta correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do Batata.

Aí, o Carlos Alberto resolveu jogar bola sozinho. A gente passa¬va pela casa dele e via. Ele batia bola com a parede. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido. Porque, depois de três dias, o Carlos Alberto não agüentou mais. Apareceu lá no campinho.

— Se vocês me deixarem jogar, eu empresto a minha bola.
— Nós não queremos sua bola, não.
— Ué, por quê?
— Você sabe muito bem. No melhor do jogo você sempre dá um jeito de levar a bola embora.
— Eu não, só quando vocês me amolam.
— Pois é por isso mesmo que nós não queremos, só se você der a bola para o time de uma vez.
— Ah, essa não! Está pensando que eu sou bobo?

E Carlos Alberto continuou sozinho. Mas eu acho que ele já não estava gostando de estar sempre sozinho. No domingo, ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico. Na segunda, levou o Beto para ver os peixes na casa dele. Na terça, me chamou para brincar de índio. E, na quarta, mais ou menos no meio do treino, lá veio ele com a bola debaixo do braço.

— Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?
Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Mas não podíamos dar o braço a torcer.
— Olha, Carlos Alberto, você apareça em outra hora. Agora, nós precisamos treinar — disse Catapimba.
— Mas eu quero dar a bola ao time. De verdade!
Nós todos estávamos espantados:
— E você nunca mais pode levar embora?
— E o que é que você quer em troca?
— Eu só quero jogar com vocês...

Os treinos recomeçaram, animadíssimos. O final do campeonato estava chegando e nós precisávamos recuperar o tempo perdido. Carlos Alberto estava outro. Jogava direitinho e não criava caso com ninguém.

E, quando nós ganhamos o jogo final do campeonato, todo mundo se abraçou.
A gente gritava:
— Viva o Estrela-d'Alva Futebol Clube!
— Viva!
— Viva o Catapimba!
— Viva!
— Viva o Carlos Alberto! — Viva!
Então, o Carlos Alberto gritou:
— Ei, pessoal, não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca!