(2006) 2o. Lugar Concurso Internacional de Contos e Crônicas Centro Universitário Newton Paiva, Belo Horizonte - MG
De todos, foi a única sobrevivente. Criança sem avós é, de certa maneira, órfã. Minha nona italiana partiu por doença grave, antes mesmo dos filhos se casarem. O nono também se foi, deixando em minha infância a tênue lembrança do cheiro de cola da sapataria e de seu inseparável chapéu. Como nunca estivera ao lado de um defunto, tentei abrir seus olhos com as mãos. Quase fui expulsa da sala. Aqueles olhos levaram mais de quarenta minutos para serem fechados.
O vovô lá de Portugal também deixou este mundo precocemente, ao contrair uma pneumonia fulminante. Trabalhava queimando telhas em altas temperaturas, e ao terminar suas obrigações, encontrou-se com a neve. Minha única esperança de experimentar o carinho da grande mãe estava mesmo nela, a única sobrevivente.
Vovó Angelina. Seu nome significa "pequeno anjo". Os filhos vieram morar no Brasil, mas ela foi decidida, preferindo ficar lá em Portugal. Toda vestida de preto, cuidava de suas costuras, de seu casarão, de sua vida nova. Em sua aldeia, guardava-se luto para o resto da vida.
Os netos nasceram longe de seus olhos. Convivíamos harmoniosamente e a família já começava a "fazer a América", o que permitia certas extravagâncias, como bancar idas e vindas anuais da vovó. Para nós, uma oportunidade de matar saudades, para ela, época perfeita para driblar o frio do inverno.
Sozinha em Portugal, vovó também prosperou. Terras arrendadas rendiam-lhe frutos e somavam-se à remuneração advinda de seu próprio trabalho de costureira, ofício exercido com a perfeição de poucos. Passava o dia costurando em casa de patrício, outro dia em casa de comadre. Ia ganhando seus contos enquanto contornava a solidão.
O verão trazia boas notícias. Sua chegada era motivo de festa. Filhos, noras, genros e netos recebiam-na no aeroporto, com festa preparada. Já em casa, esperávamos ansiosos pela abertura das malas, aguardando as lembrancinhas, símbolo concreto de seu afeto. Posso recordar o aroma desses dias, com arroz de forno quentinho, cabrito assado, muito vinho e pastéis de Santa Clara. Parecia dia de Natal!
Singelas lembranças vinham de parentes mais próximos ainda residentes na terra-mãe, muitos dos quais mal sabíamos os nomes. Vovó trazia cigarros aos filhos, uns maços azuis com escritas prateadas. Eram lindos! Escondida, tentava acendê-los com um sopro ao invés de uma tragada. Demorei um tempo até descobrir como formar a brasa. Ao puxar pela primeira vez, não sei se foi maior a tosse ou o susto. Que gosto esquisito! Meu pai também não gostava deles, descobri mais tarde. As mulheres ganhavam pulseiras, enfeites e alguns bordados.
As malas guardavam roupas coloridas, afinal, aqui não precisava vestir-se de preto. Reservavam um bom espaço ao filho predileto. Era o mais novo. Solteiro e bajulador, já com recursos financeiros suficientes para se impor, roubava todo o carinho e atenção da mamãe-vovó. Tanto que seus presentes eram comprados por ela, pessoalmente. Os dos outros, quase sempre enviados por alguém. Conforme vovó ia tirando os objetos da mala, mostrava-os a ele. Caso titio não gostasse, dava sinal verde para oferecê-los aos demais. Camisas, presunto, azeite, ouro. Todo tipo de regalo era dividido em quantidade escandalosamente desigual. Era o caçula, afinal!
Vovó Angelina era bela. Não imaginem uma senhora de óculos, cabelinhos brancos e sorriso nos lábios. Nem fofinha, de bochechas rosadas, vestida num avental e dada a cozinhar quitutes. Como essa havia a "Dona Carmen", uma vizinha querida. Quando visitava sua neta, de minha idade, éramos convidadas a acompanhar suas alquimias culinárias. Enquanto preparava a refeição, providenciava faquinhas de plástico, tábuas de cortar e cedia folhas de repolho, couve e outros legumes. Brincávamos de "comidinha" de verdade. Sentia-me importante, desbravadora.
Nem todas as vovós são iguais. A minha, de pele clarinha, cabelos levemente ondulados e bem tingidos, sentia pavor de rugas. Sua boca fininha, vivia sempre cerrada. Seus olhos eram únicos. Um, castanho. O outro, verde. As pernas, bem lisinhas, não conheciam varizes nem celulite. Cintura fina, pernas grossas. Caminhava sobre sapatos altos feitos de pelica. Vestidos, de seda. Sua vaidade não permitia desleixo nem dentro de casa. Chinelos ou cabelos desajeitados, só em caso de doença. Compunha-se sempre, fosse à feira ou à igreja.
Passava algum tempo em nossa casa contando sobre sua vida na aldeia. Não via os tempos de casada com bons olhos, fazendo questão de ressaltar como a viuvez trouxe consigo a liberdade. Aproveitava essas conversas para tentar saber um pouco mais sobre meu avô. Dele, não nos restou uma fotografia sequer. Questionada sobre esse fato, respondia ter perdido os retratos em arrumações. Apontava para a lua cheia, ainda redonda por ter sido prometida aos pedaços a quem não se arrependesse do casamento. Já outros parentes descreviam meu avô como um bom homem, trabalhador, honesto. Era apaixonado por ela. Gostava de tirá-la para dançar ao ouvir modas e cantigas. Diante de suas repetidas recusas, enlaçava-se à filha mais nova e rodopiava pelos cômodos da casa. Declamava versos. Entre seus defeitos estavam o bom coração e o excesso de preocupação com os pobres. Não foram poucas as vezes onde os de fora ganharam mais atenção que os de casa. Vovô Domingos era um humanitário.
Dona Angelina não vivia apenas de lembranças ruins. Ao falar de um primo, seus olhos brilhavam. A família não autorizou o namoro. O sentimento, no entanto, continuou. Esse amor, combinado à desproporcional atenção oferecida ao filho mais novo, levava-nos a considerar a possibilidade deste romance, em algum momento, ter ido além dos sonhos.
Privilegiada, nunca sentira dor de cabeça. Seu único mal era a bronquite, sempre controlada por inalações periódicas. Nos almoços em família, era o centro das atenções. Exigia um cardápio farto e variado. De paladar exigente, criticava o menu, não importando a quem doesse. Fazia dos horários das refeições verdadeiros momentos de tensão, até dar seu "parecer". Todos engajados em agradá-la, decepcionavam-se ao descobrir: freqüentemente, nada estava bom. O excesso de sinceridade foi nutrindo alguns desafetos e a convivência, aos poucos, tornando-se difícil.
Não gostava de abraços apertados nem de beijos estalados. Cumprimentava os netos com beijinhos "de madame". Não permitia contatos físicos desajeitados, estava sempre "dura". Estivemos bem próximas quando precisou de uma manicure com urgência. Nesta oportunidade, peguei pela primeira vez em suas mãos. Observei-as com calma, e vivi um momento especial. Meus olhos embaçaram-se, prejudicando o resultado final do trabalho. Nem preciso dizer: nunca mais fui escalada para o serviço.
Um dos passtempos prediletos de vovó era debruçar-se sobre a grade da varanda e acompanhar o movimento da rua. Gostava de observar a silhueta alheia e de atribuir apelidos engraçados, geralmente referentes à exuberância das formas. Observava transeuntes e vizinhos, classificando-os. Ninguém escapava. Já com quase oitenta anos, chamava de "velhotas" algumas senhoras de sessenta e poucos. Implacável também com a família, não economizava aumentativos em suas frases, demonstrando nenhuma preocupação com nossos complexos juvenis. Gordos eram quase todos, exceto ela, é claro.
O dia mais triste de sua vida foi quando seu filho predileto, com mais de quarenta anos, anunciou seu casamento. Diante de inaceitável comunicado, entrou em depressão. Decidiu voltar para casa por tempo indeterminado, em sinal de protesto. E lá se foi vovó, de coração partido. Não voltou mais, deixando-nos desconfiados de sua indiferença pelo resto da família.
Sua idade avançada trouxe o agravamento da bronquite e começamos a receber muitas cartas pedindo para buscá-la. Assim se fez. Vovó foi morar com o filho querido, tendo a oportunidade de conhecer seu mais novo netinho. O ambiente era tenso. A convivência com a nora, insustentável. Vivia afirmando: "filhos de minhas filhas, meus netos são, de meus filhos, não sei se serão".
Suas visitas à clínica de saúde tornaram-se diárias, e seu único estímulo era o encontro com o "senhor doutor", um jovem médico, solícito e atencioso. Refletia sobre suas reais intenções e criara um certo frisson, suspeitando que o médico a estivesse cortejando. Animava-se assim a voltar no dia seguinte, ao mínimo sinal de asma.
De repente, vovó melhorou. Foi passar uns dias com sua filha e parecia mais calma. Ligava-nos para conversar e sentia-se bem. Numa madrugada, o telefone tocou. Atendi. A irmã de meu pai, chorando, pediu para irmos buscá-la, pois vovó estava morta. Encontrava-se deitada na cama. Partiu enquanto dormia. E mais: vovó não poderia sair de lá num carro funerário. Como titia morava sozinha, vivia cheia de medos. Teria seu lar transformado numa casa "mal assombrada", caso o rabecão estacionasse em sua porta. Precisávamos dar um jeito de removê-la imediatamente. E começou a gritar.
A casa era longe, mas pisamos fundo. Os netos decidiram carregá-la no colo e colocá-la cuidadosamente no banco da frente. O cinto de segurança serviu para prendê-la. Deslizamos pela cidade com medo da polícia, todos gelados. Escuridão total. Dirgimo-nos à clínica de inalações. Fechada. Corremos para casa. Novamente carregada nos braços, descansou sobre a mesa de jantar.
Ali foi trocada. Minha última homenagem proporcionou-nos novo contato íntimo. Observava-a bem de perto, enquanto caprichava na maquiagem. E ela, como sempre, dura. Escova, laquê, perfume. Ficou linda! Seu velório correu tranqüilo, exceto pelo momento da chegada de titia, toda de preto, aos prantos. Nem parecia ter expulsado a própria mãe, já morta, de dentro de sua casa. O primo Luís chegou com um maço de rosas vermelhas. Esse, verdadeiramente arrasado.
Anos depois, numa visita ao primo, deu-me notícias de vovó. Tirou da gaveta um envelope. Dentro, uma carta psicografada, assinada por ela. Arrepiei-me inteirinha, curiosa para conhecer seu conteúdo. Mas, um pouco desconfiada, pensei: seria mesmo dela? Desdobrei o papel, preparando o espírito para mensagens saudosas e outras frases carinhosas vindas do além. Meus olhos marejados, tornavam a leitura difícil. Na carta, poucas linhas. Contava sobre uma promessa, feita na paróquia da vila onde morava. Infelizmente, não teve tempo de pagá-la. Pedia ao primo que fizesse uma doação em dinheiro para saldar a dívida com a santa. Indicava valor e local. Aos parentes, nem sequer uma palavra. Tive certeza: era mesmo vovó.