
Como minha vó trazia muitos cigarros de presente pro meu pai, comecei a experimentar desde cedo. E não parei mais. Aqueles de Portugal eram tão ruins, mas tão ruins que eu fiquei cismada: como cigarros podiam ser um produto de tanto sucesso entre os adultos? Então comecei a tirar a prova dos 9, experimentando diversas marcas, até enfim, virar fumante.
Desde jovem, dois cigarros ao dia eram sagrados. Mas dois cigarros não é vício... não?
Dois hoje, dois amanhã, seis no barzinho, um maço na faculdade... no CPD onde eu trabalhava não podia fumar, então voltei aos dois. Dois, três.
E anos e anos. Não deixava os benditos porque eles me acalmavam. Qualquer nervoso, acendia o cigarro e pronto. Dispersava os pensamentos.
O fumante de poucos cigarros não se sente viciado. Não até tentar parar de fumar completamente. Quem disse que dá?
As amizades são compostas conforme os hábitos. Meus amigos, quase todos fumantes, nas saídas dos bares nem comiam. Nosso negócio era papo, bebida e cigarrinho. E éramos felizes assim.
Até que aos 32 a vaidade começou a pegar: a preocupação com as rugas em volta dos lábios... vou parar. Ai que sofrimento!
Fugir da vontade era um sacrifício: comecei a caminhar, a cuidar de plantas e principalmente a escrever. Travei o compromisso de escrever um diário falando como tinha sido meu dia sem o cigarro. E comecei a perceber que tinha sido muito bom, obrigada.
Na hora do nervoso, ao invés de fumar eu "pensava". Ou escrevia todas as asneiras que se passavam na minha cabeça. Às vezes chorava de desespero. Andava, andava, andava. E a vontade passava.
Na virada do ano, um balanço: quinze dias sem fumar. Entrada do ano novo sem cigarro, com quinze dias de abstinência, era a única coisa boa que tinha feito por mim. E assim fui pegando gosto por vencer o vício. E lá se vão quatro anos sem nenhum cigarro.
No começo, segurava o bendito apagado. Chegava a tragar. Coisa de louco, né? Ex-fumante é sempre ex-fumante, tem sempre aquela hora onde a vontade de fumar não se substituiu por mais nada. Mas vem cada vez mais fraca. Até hoje não sumiu.
Mas a surpresa é que o cigarro não me acalmava. Eu estava sempre ansiosa e nervosa, porque o cigarro nublava meus problemas. Eu fumava e esquecia. Igual beber para esquecer.
Hoje fico nervosa e sinto vontade de fumar. Mas dura um instante apenas. Some do jeito que veio e cada vez mais fraca, quase imperceptível.
Escrever é uma boa terapia de apoio para quem quer deixar o vício. Tenho diários extensos do primeiro mês de martírio.
Meu olfato é incrível, e acredito que não daria tanto valor a ele não fosse por ser ex-fumante. Com o passar dos meses sem o cigarro, o olfato foi renascendo e me mostrando uma nova vida. Mudou até o sabor da comida.
O mais legal que aprendi com isso tudo foi notar que o cigarro não me acalmava. Eu ficava nervosa por causa dele. Minha mente tentando me ajudar a resolver os problemas e o cigarro embaçando os pensamentos.
A fumaça nublava a minha vida. Hoje, é bem mais colorida.