
Minha vizinhança é do barulho.
O menino do lado esquerdo, bate bola na parede até a hora que a mãe dá bronca e ele começa a chorar de se esgoelar. Berra, berra, berra.
Os outros vizinhos em volta combinaram de botar a cachorrada pra latir em horários alternados - assim ninguém fica mais do que dez minutos sem ouvir barulho de cachorro.
Esse expediente é digno da magnitude de São Paulo, ou seja, ininterrupto, 24 horas por dia.
Os cachorros latem pra brincar, para quem passa, para os estranhos, uns pros outros.
Latem porque o dono chegou, porque o dono viajou, porque não conhecem a gente ou porque alguém está soltando rojões.

O fato é que latem a valer.
Tem uma fábrica aqui na frente que tem dois cachorros, tipo o gordo e o magro.
Um é mudo e o outro late bem alto, de uma maneira desesperada, durante horas e horas a fio.
Isso já tem algum tempo, então, graças a Deus ele já está ficando rouco.
Seus horários preferidos são sábados, domingos e feriados, quando a galera da fábrica não está dando expediente.
O fato é que ele late num horário onde os donos não estão, então quando vamos reclamar parecemos chatos, porque afinal de contas, eles não escutam nada, uai.
E não por falta de barulho de carros, brecadas, campainha e motocas desreguladas nas mãos de adolescentes pentelhos, os vizinhos do outro lado curtem um dominó e um truco, daqueles bem desafiadores:
- TRUUUUUUUCOOOOOOOO!!!!!!!
O dominó é de
bater as peças e embaralhar beeeeeem embaralhado, e claro, a tarde toda, porque jogo bom dura até o churrasco acabar (pro churrasco têm chaminé - graças!).
Ao final do dominó, rola um vídeokê básico, daqueles bem sertanejos.
No Natal compraram uma motoca movida a gasolina dessas que roncam e outro cachorro, desses pequenininhos (de madame), que latem fininho e ardido.
O barulho da cidade é um problema e tanto.
As pessoas não têm bom senso, abusam da paciência e transformam o que era pra ser dia de descanso de todos, em dia de lazer apenas deles.
O dinheiro não compra a educação, tanto que o bairro onde moro sempre foi modesto, mas as ruas eram limpas e as pessoas não incomodavam as outras. Tinham respeito.
Agora que os "vips" chegaram por aqui, as ruas estão muito mais sujas.
Nos parques não dá nem pra sonhar em sentar na grama, de tanto xixi e cocô.
Tem um monte de macumba na praça, porque botaram na cabeça que ela fica numa encruzilhada e é o lugar ideal para os despachos.
Entre a enorme quantidade de lixo, tem pinga, velas, frango, caveira, balas e outras oferendas de arrepiar.
Não sei o que seria de São Paulo não fossem os puxadores de carroça, catadores de lixo reciclável. Inteligentes, procuram por sustento em bairros abastados sabendo que, por uma estranha coincidência, lá encontrarão (em grande quantidade), a falta de educação espalhada pelo chão.