(esse texto tem três anos, e já está ultrapassado)
A verdade é uma só: não consigo assimilar tantas mudanças. A máquina do tempo disparou e as pessoas estão muito estranhas. Não entendo como tudo se modificou em tão pouco tempo! Produtos, serviços, valores humanos... Confesso nem saber mais quem eu sou.
Quando o cronômetro disparou, ninguém sabe. Pelos meus cálculos, foi há cerca de vinte anos. De uns dez pra cá, os efeitos podem ser sentidos. Hoje, admito: sinto-me velha aos trinta anos. Não pela aparência. Ainda não fiz nenhum retoque, mas se quisesse, apenas alguns cosméticos e minha pele se esticaria feito balão de aniversário. Falo de meu interior.
Cresci vendo filmes românticos, sonhando em ser feliz para sempre, pensando em ter não só um príncipe, mas uma profissão, uma casa - tudo para sempre. Amigos para sempre embalou majestosamente minha colação de grau, onde todos choraram, emocionados com a despedida. Dessa noite, guardo apenas um álbum e uma fita VHS (comprada de uma empresa já falida), e só posso assistí-la porque ainda não adquiri meu DVD. Disso nem me arrependo, porque os primeiros modelos vieram sem a função gravar, o que hoje é o mínimo que se espera de um bom equipamento. Quanto ao álbum de fotografias, ocupa um espaço enorme no armário, desproporcional à importância dessas pessoas em minha vida. Qualquer dia desses, compro uma câmera digital minúscula, gravo tudo num arquivo e libero esse espaço para algo mais importante. Caso perca o arquivo, por um incidente qualquer, lamentarei muito (cinco minutos). Difícil mesmo será imaginar o rosto dos colegas novamente. Nunca mais os vi. Já devem estar muito diferentes.
Agora entendo o porquê de ter recebido um canudo vazio. Desse tempo, nem mesmo a profissão me restou. Para seguir carreira, precisaria de mais uns dez ou quinze cursos de atualização. Alguns profissionais nem essa sorte tiveram. Suas profissões foram extintas, tragadas pela voracidade dessa máquina impiedosa, sob a desculpa da evolução tecnológica. Tudo isso em dez anos.
Num tempo onde o que se comprou ontem, amanhã está velho, um dia é muito! Falar em ano é ousadia. Nem sei como os bebês continuam demorando nove meses pra nascer. Já devem desconfiar que estarão mais tempo com as babás eletrônicas do que com suas próprias mães. Se eu fosse um deles, também não me apressaria.
Nem todos são infelizes. Os animais de estimação, por exemplo, são mais mimados do que filho único. Sou do tempo onde a rainha do lar era a mamãe! Hoje é a gata ou a cadela. Desfilam pelas ruas feito nobres donzelas. E isso está em toda parte, não dá mais para conter. Outros "reis do pedaço" são os cirurgiões-plásticos. As pessoas, percebendo como o tempo passa rápido desenvolveram uma preocupação fora do normal com a aparÊncia. Incrivelmente, alguns pagam para ficar mais feios do que antes! E ainda saem satisfeitos. Eu digo, as pessoas estão perturbadas e deve ser culpa da máquina acelerada! Sou do tempo em que, injeção na testa, nem de graça. Hoje custam caro e vendem bem.
Não é só isso. "Antigamente", distingüir uma pessoa gorda de uma magra era tarefa fácil. Também falávamos em feio ou bonito. Agora usa-se o compasso para mesurar ângulos de inclinação das nádegas, dos bicos dos seios, da ponta do nariz. Alguns magrinhos estão fazendo cirurgias para remover excessos microscópicos (de tirar o sono), umas mulheres estranhas vão removendo costelas, outras passam aspirador pelo corpo. Os colos fofinhos das mamães estão entrando pelo cano, literalmente. Atualmente, as pessoas enxergam gorduras até nas costas! As únicas ruguinhas ainda aceitáveis são as das dobras dos dedos. Mas é bom não espalhar...
Engraçado como todos querem ser iguais. As mulheres, de cabelos lisos a todo custo, parecem pertencerem à mesma raça. Os homens, por sua vez, não tiram a barriga da cabeça. Os brancos entram numas máquinas bronzeadoras. Os negros pesquisam métodos de clareamento. Japoneses pagam para abrir um pouco mais os olhos. Também háhomens que parecem mulheres. Mulheres que parecem homens. Alguns que nem uma coisa nem outra. Enigmas, até para eles próprios.
Veja só, lá no passado não tão distante, sonhava com meu príncipe encantado. Despertava-me com um beijo e conduzia-me na garupa de seu cavalo. Hoje vejo donzelas carregando príncipes no colo, buscando seus príncipes em casa, guiando seus próprios cavalos enquanto os príncipes pisam sobre donzelas desfalecidas.
Lembro quando minha avó confundia ator com personagem. Para ela, o que passava na TV era verdade, ninguém conseguia convencê-la do contrário. Ela se foi. Hoje sou eu quem não consegue acreditar como os programas de TV podem ser verdade. Mas são.
Em tempos de facilidades, há dificuldades por toda parte. Comprar um simples produto para cabelos, por exemplo, tornou-se um dilema! Um mísero fio ganhou denominações complexas! O processo de lavagem conta com várias fases. Eu, indecisa, passo um bom tempo decifrar qual grau de oleosidade figura em meu couro no momento da compra. Saudades de lavar a cabeça com o próprio sabonete. Os cabelos ficavam ótimos! Já sei, excesso de pensamentos faz o cabelo ficar arrepiado. Talvez seja preciso um xampu bem penetrante, limpador de mentes poluídas e um creme desembaraçante de dúvidas.
Falando emmente, já fico com dor de cabeça. Agora está quase certo: a mente é a fonte de todos os males. Até mesmo aquela gripe por falta de blusa ou chinelo pode ter sua origem num pensamento indevido. Passo o tempo todo tentando vigiar meus pensamentos. E com medo de ficar doente, apesar dos milhares de remédios dispostos nas parteleiras das farmácias, espalhadas aos milhares por aí. A população está com depressão - e não é para menos. Estranho seria se não estivese.
Esquisitices figuram por toda parte: ninguém mais enxerga apenas seu próprio umbigo, porque os umbigos estão de fora até no inverno. Os brincos não estão apenas nas orelhas. Aparecem no nariz, na língua e sabe lá Deus onde mais. Ah, até Deus está sendo oferecido à prestação em muitos templos cantantes. É verdade! Um cidadão por aí matou aos milhares e foi reverenciado como agente da paz. Mexeram até com o conceito do bem e do mal.
Compras podem ser feitas sem dinheiro. Telegramas são escritos nas teclas do telefone. Cachorros são tratados melhor que gente. Até o português ficou estranho. Deve ser escrito muitas vezes em siglas e falado em códigos, para economizar tempo. Por exemplo, escrever virou tc. Também virou tb. Os verbos também mudaram. Quando alguém fala em ficar, significa que não é pra ficar. Viajar é não entender nada. Navegar é sem sair do lugar. Tem gente tratando mulher de meu. E elas atendem!
Esse texto, por exemplo, já me custou muito tempo. Não disse que estava velha? Não paro de reclamar. O jeito é me conformar. Vou correndo dar uma olhada na internet e fazer meu upgrade diário, para ver se sobrevivo a mais um dia de evolução. Nin-guém merece!