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Tabela do Brasileirão

Futebol - Todos os Santos

Vestindo a camisa

Que tal, se no futebol os contratos de trabalho e remuneração fossem feitos por produtividade? 

Ronaldo

Esse vídeo do Lula e do Ronaldo é um barato. Vale a pena assistir. É só clicar aqui, esperar carregar e apertar o play.

A danada da vírgula veio certo, mas que ficou engraçado, ficou

Vejam essa notícia de hoje:

O artilheiro Keirrison comemora a boa fase "com a camisa do Palmeiras", mas na foto ele se exibe de braços abertos com uma camisa nada menos do que "preta e branca".

Se houvesse uma vírgula separando a "boa fase" da "camisa", a notícia estaria errada. O texto veio certinho, mas que ficou engraçado, ficou.
Clique aqui para acessar a notícia

Criança mimada


Após meses e meses de glórias e elogios rasgados, o técnico Muricy Ramalho perdeu sua invencibilidade. E agiu como uma criança marruda, que, decepcionada, põe a culpa no primeiro que aparece pela frente.

Foi grosseiro, desrespeitoso e ignorante. Não concordo que seja uma pessoa mal-humorada. Acredito se tratar de alguém que tem o EGO do tamanho do Estádio do Morumbi, pois perdeu a esportiva na primeira derrota.

Uma pena ter dado esse péssimo exemplo aos adolescentes, que são em sua maioria sãopaulinos, por terem crescido assistindo às glórias do clube.

O que a Imprensa vem chamando de mau humor, nada mais é do que falta de educação (que segundo Antero Greco, apresentador do SportsCenter ESPN - ou a pessoa tem, ou não tem).

A equipe da ESPN, a partir dessa semana, desligará a câmera quando o técnico estiver em coletiva. E tornará a ligá-la assim que algum jogador aparecer para falar. Tomara que não seja a única.

Será que uma pessoa tão badalada, com um salário fantástico e uma carreira vitoriosa, não deveria ser bem-humorada ou ao menos educada?
Será que dinheiro traz felicidade? Será que compra educação?

O Globoesporte fez uma brincadeira falando sobre os tratamentos para o mau humor clique aqui para assistir, mas deveria ter feito uma reportagem falando sobre a possibilidade de se reeducar uma pessoa às vésperas da terceira-idade.

Será que ainda dá tempo?

Ronaldo no Corínthians

Finalmente chegou!
Festa, fogos, confetes e serpentinas.
Como num eclipse, Ronaldinho em franca decadência e o Corínthians em franca ascenção cruzaram-se no meio do caminho.

Com um salário estratosférico, que segundo os dirigentes do Timão já será coberto pela venda das camisas oficiais pela bagatela de R$ 170,00 (quase meio salário mínimo), Ronaldo chega ao Corínthians fora de forma mas com muita humildade.
Por isso mesmo aceitou os R$ 120.000,00 símbólicos na Carteira. Não na carteira que carrega no bolso, pois nessa, carrega apenas cartões de crédito.
Ele um dia disse que rico não carrega mala, compra tudo novo quando chega no destino.
Agora, com tudo acertado, já deve começar a trabalhar e seu primeiro passo será ir para um SPA.
Na volta, finalmente poderá bater bola sossegado.

Com a história dos travestis fazendo parte do passado e mais alguns milhões no bolso, Ronaldo segue sua vida e nós, que nem ao menos sabemos como podem caber tantos zeros num só cheque, continuamos tirando onda das banhas do seu estômago, que se bobear são bem menores que as dos nossos.
E a gente ainda consegue dar risada (dele).

Dia de jogo

Homem que é homem vai ao jogo de futebol. E vai cedo, ainda menino, pra pegar gosto pelo veneno. Meus sobrinhos já estavam na idade e nós, que por sorte moramos perto do Palestra, decidimos levá-los para assistir ao jogaço que aconteceria naquele dia.
Palmeiras e Santos: um clássico. A idéia tivemos perto das cinco da tarde, hora em que os ingressos para a arquibancada deixam de ser vendidos. Mas minha irmã foi correndo e conseguiu os preciosos.
A arquibancada não foi escolhida somente pelo preço, mas pela macheza. Isso mesmo: numerada é coisa de "viado". Bom mesmo é assento de concreto no meio do povão, pra sentir o calor da torcida.
Saímos bem mais cedo porque a puxada não é pequena: meia hora à pé. No caminho fui ensinando o hino do clube, estrofe por estrofe, bem direitinho.
- Quando surge o alviverde imponente...
Não fiz muito sucesso porque, dos três pequenos, palmeirense mesmo é só um, o menorzinho. Os outros dois são bambizinhos, tadinhos...
Na chegada, a massa alviverde intimidava: as crianças, embora torcedoras do time do Morumbi (por influência do cunhado afetado), logo trataram de amarrar bandanas bem fosforescentes, pra que aquele monte de maloqueiros nem de longe desconfiasse que naqueles peitinhos batiam corações tricolores (e dos mais fanáticos).
Na entrada, funil para a revista - degradante. Finalmente dentro do Palestra, escolhemos nosso lugar: bem na curva da rede. Com sorte veríamos o Verdão marcando os gols bem de perto e, com mais sorte ainda, um dos pequenos se converteria – se Deus quisesse.
A massa não parava de chegar. A TUP distribuía os folhetos com a música que declarava amor incondicional ao nosso amado Palmeiras.
Finalmente os fogos! O Santos entra primeiro, com um estádio totalmente verde e uma vaia de apitar o ouvido. Agora sim, é a vez do Palestra subir as escadas! Quem entra primeiro é o Luxemburgo, engravatado e maestro de uma orquestra milionária - aos seus ouvidos. Naquela expectativa, de repente tudo escuro... Quando percebemos, estamos debaixo de uma bandeira gigante que ninguém sabe como subiu. Após alguns segundos tentando entender o que aconteceu, meu sobrinho olha pra mim e diz:
- Justo agora que eu queria ver o Marcos!
Assim que nos livramos do incômodo, o juiz apita e o jogo começa. O barulho é apenas da torcida, nada de narrador ou alguém pra fazer com que a gente entendesse o que estava acontecendo. O Palmeiras atacava lá do outro lado do campo, onde marcou nada menos do que cinco gols, só no primeiro tempo.
No intervalo, o mais intrigante: um ambulante conseguiu encontrar no meio da torcida a quem ficou devendo um real:
- Foi praquele cara de verde!
O maledeto sentado atrás de mim insistia em fumar o tempo todo, e o que era pior: jogava as bitucas pra eu apagar quando me sentasse. Resultado: por pouco não queimei a bunda.
No segundo tempo dois gols do Santos, também lá longe. Sete gols, todos do outro lado.
O pior nem foi isso: do degrau pra baixo todo mundo ficou em pé, e do nosso degrau pra cima todo mundo mandava sentar. Nem preciso dizer que só nos restou prestar atenção na Mancha, que cantava sem parar:
- Ooooo vamo ganha porcoooo!!! Vamo ganha porcooo!!! Vamo ganha porcooo oooo!!!
E tome bandeira na cabeça!
Mas até que foi bom... O juiz apitou o final de jogo e nós, preocupados com a superlotação da saída, demos um tempo esperando esvaziar.
Em seguida descemos em fila, ainda espremidos, mas demos a sorte de encontrar uma moçada que avistou o Chico Lang lá no alto na cabine da Gazeta, e não deu outra:
- Olha lá! Jornalista gambá!
- Hei! Chico Lang! Vai ..........#$%¨&%
- Ueeeeeebaaaaaa!!!!!!!!!!!
- Palmeeeeeiraas!!! Fiu fiu fiu! Palmeeeeeiraas!!! Fiu fiu fiu!
E lá se foi, mais uma noite inesquecível no estádio do Palestra.

Palmeiras x Corinthians

Era dia de clássico na cidade. Tinha gente que logo cedo já desfilava a camisa do time do coração sem medo de ser feliz. No trabalho era aquela zoação... Quem se importa? O que vale é engrossar a torcida e fazer com que os onze jogadores virem milhares pelas ruas. Aí sim o elenco ganha mais força!
Luís foi trabalhar com a camisa do Corinthians. Deslizava suave pela avenida, enquanto sintonizava as notícias do dia. É hoje que o bicho vai pegar! Estatísticas de vitórias, de ataques e defesas. Previsão de público, entrevista dos fanáticos. Tudo soprava a favor do timão.
Mas ia tão distraído que não viu que o farol não estava mais verde e, tuuuummm!!! Encheu de alegria a traseira de um carro parado! Desceu pra ver o tamanho do prejuízo, e o motorista atingido tratou logo de berrar:
- Só podia ser corinthiano!
- Qui cê tá falano meu véi?
- Que só podia ser corintiano, domingueiro que não sabe dirigir!
- Qui dominguero o que rapái? Você qui parô no amarelo, senão dava pra nóis dois, seu bunda mole!!!
- Além de detonar meu carro ainda me chama de bunda-mole???
- É isso aí mesmo, vem falano qui eu torço pro Corinthia, qui sô dominguero... Cê nem me conhece! Sabe com quem cê tá falano?
- Não sei nem quero saber, só sei que vai pagar isso tudo, porque quem bate atrás tá sempre errado, não sabe não?!?
- Eu vô te processá por preconceito, falô qui sô corintiano e falô co desprezo! É porco né, seu filho da puta?
- Porco é teu nariz, sou sardinha com muito orgulho!
- Menos mal, si fossi do chiquero ia levá umas porrada!
- Do chiqueiro não sou nem morto, antes gambá que periquito!
- Gambá é a puta que ti pariu!
- Minha mãe nãããoo!!!
- Foi mal véi, mãe é foda, desculpa aê...
- Tá legal, foi culpa minha, fui eu que te chamei de gambá primeiro.
- É cara, verdade, eu tava distraído ouvino rádio, que merda...
- Você tem seguro?
- Seguro não tenho não, economizo tudo pra assistir meu Timão. Mas tem um chapa meu da oficina que conserta isso aí em dois palitu, nem vai parecê qui amassô, cê vai vê.
- Tá certo cara, vou confiar em você, pode me dar seu telefone?
- Belê!
Abriu a carteira para pegar um cartão, quando o ingresso do clássico caiu no chão:
- Olha, caiu um papel aí!
- É meu ingresso pru jogo de hoje a noite.
- Que beleza! Hoje torço pra vocês. Esses pontos vão ajudar o Santos no campeonato.
- Firmeza bróder, tá aqui meu cartão! Me liga amanhã bem cedo pra gente vê isso aí...
- Tá certo, vou levar na confiança. Boa sorte no jogo de hoje!
- Falô, cara. Torce junto, vamo ganhá de lavada, passá perfume na porcalhada!
Nessa hora, um palmeirense que vinha passando botou a cabeça pra fora berrou, sem medo de ser feliz:
- Aê animal! Sabe dirigir não? Porca miséria! Só podia ser ultimão!
O corinthiano, verde de raiva, mal se despediu do lambari e nem olhou se o farol tava verde pra correr atrás do suíno. Mas o adversário já tinha sumido pelas ruas de Sampa e, àquela altura, deveria estar sacaneando outros corinthianos uniformizados andando pelas calçadas, com a certeza de que nunca mais os encontraria. Porque, se encontrasse, dependendo do resultado do jogo, não haveria vergonha que bastasse...

(texto de minha autoria, no Grupo dos Poetas do Tietê)

a mais querida

Era a maior prova de amor. Deixar de ver o jogo decisivo e sair com ela. Já havia pisado na bola muitas vezes e precisava se redimir. Prova maior que essa, impossível.
Não valia ir a um daqueles bares que têm telão. Senão os olhos não iriam se desgrudar do jogo e a amada, magoada, teria certeza absoluta que em sua vida o futebol vem primeiro que tudo.
Foram então ver o pôr-do-sol. Romanticamente lindo. Aquela bola de fogo enorme escondia-se aos poucos, e lá do outro lado despontava ninguém menos do que ela: a lua cheia.
Os fogos de artifício saudavam sua chegada. Ele sorria. Ela, feliz da vida, aconchegada nos braços do amado, protegia-se quando ouvia bombas pra todo lado.
De lá foram pro restaurante. A cerveja descia redonda. Os olhos brilhavam. Na pista de dança bailavam em círculos, reforçando a aliança.
Na volta pra casa, muitos beijos estalados. Ela, feliz da vida, dessa vez acreditara ser a dona exclusiva da atenção de seu querido. Dessa vez sim. Na cabeça dele só ela – e mais nada. Mas estava redondamente enganada.

O dono da bola



O DONO DA BOLA
(Ruth Rocha)

Este é o Caloca. Ele é um amigo legal. Mas ele não foi sempre assim, não. Antigamente ele era o menino mais enjoado de toda a rua. E não se chamava Caloca.
O nome dele era Carlos Alberto.

E sabem por que ele era assim enjoado?
Eu não tenho certeza, mas acho que é porque ele era o dono da
bola.
Mas me deixem contar a história, do começo.

Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha, vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô.
E tinha bicicleta, com farol e buzina, e tinha tenda de índio, carrinhos de todos os tamanhos e uma bola de futebol, de verdade. Caloca só não tinha amigos. Porque ele brigava com todo mundo. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele. Mas futebol ele tinha que jogar com a gente, porque futebol não se pode jogar sozinho.

O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Só bola de meia, mas não é a mesma coisa. Bom mesmo é bola de couro, como a do Caloca. Mas, toda vez que a gente ia jogar com Caloca, acontecia a mesma coisa. Era só o juiz marcar qualquer falta do Caloca que ele gritava logo:
— Assim eu não jogo mais! Dá aqui a minha bola!
— Ah, Caloca, não vá embora, tenha espírito esportivo, jogo é jogo...
— Espírito esportivo, nada! — berrava Caloca. — E não me chame de Caloca, meu nome é Carlos Alberto!

E, assim, Carlos Alberto acabava com tudo que era jogo.
A coisa começou a complicar mesmo, quando resolvemos entrar no campeonato do nosso bairro. A gente precisava treinar com bola de verdade para não estranhar na hora do jogo.
Mas os treinos nunca chegavam ao fim. Carlos Alberto estava sempre procurando encrenca:

— Se o Beto jogar de centroavante, eu não jogo!
— Se eu não for o capitão do time, vou embora!
— Se o treino for muito cedo, eu não trago a bola!
E quando não se fazia o que ele queria, já se sabe, levava a bola embora e adeus, treino.

Catapimba, que era o secretário do clube, resolveu fazer uma reunião:
— Esta reunião é pra resolver o caso do Carlos Alberto. Cada vez que ele se zanga, carrega a bola e acaba com o treino. Carlos Alberto pulou, vermelhinho de raiva:
— A bola é minha, eu carrego quantas vezes eu quiser!
— Pois é isso mesmo! — disse o Beto, zangado. — É por isso que nós não vamos ganhar campeonato nenhum!
— Pois, azar de vocês, eu não jogo mais nessa droga de time, que nem bola tem!
E Caloca saiu pisando duro, com a bola debaixo do braço.



Todas as vezes que o Carlos Alberto fazia isso, ele acabava voltando e dando um jeito de entrar no time de novo. Mas, daquela vez, nós estávamos por aqui com ele. A primeira vez que ele veio ver os treinos, ninguém ligou.

Ele subiu no muro, com a bola debaixo do braço como sempre, e ficou esperando que alguém pedisse para ele jogar. Mas ninguém disse nada. Quando o Xereta passou por perto, ele puxou conversa:
— Que tal jogar com bola de meia?
Xereta deu uma risadinha:
— Serve...

Um dia, nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time do Faz-de-Conta, que é um time lá da rua de cima. Mas foi por pouco tempo. A primeira vez que ele quis carregar a bola no melhor do jogo, como fazia conosco, se deu muito mal... O time inteiro do Faz-de-Conta correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do Batata.

Aí, o Carlos Alberto resolveu jogar bola sozinho. A gente passa¬va pela casa dele e via. Ele batia bola com a parede. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido. Porque, depois de três dias, o Carlos Alberto não agüentou mais. Apareceu lá no campinho.

— Se vocês me deixarem jogar, eu empresto a minha bola.
— Nós não queremos sua bola, não.
— Ué, por quê?
— Você sabe muito bem. No melhor do jogo você sempre dá um jeito de levar a bola embora.
— Eu não, só quando vocês me amolam.
— Pois é por isso mesmo que nós não queremos, só se você der a bola para o time de uma vez.
— Ah, essa não! Está pensando que eu sou bobo?

E Carlos Alberto continuou sozinho. Mas eu acho que ele já não estava gostando de estar sempre sozinho. No domingo, ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico. Na segunda, levou o Beto para ver os peixes na casa dele. Na terça, me chamou para brincar de índio. E, na quarta, mais ou menos no meio do treino, lá veio ele com a bola debaixo do braço.

— Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?
Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Mas não podíamos dar o braço a torcer.
— Olha, Carlos Alberto, você apareça em outra hora. Agora, nós precisamos treinar — disse Catapimba.
— Mas eu quero dar a bola ao time. De verdade!
Nós todos estávamos espantados:
— E você nunca mais pode levar embora?
— E o que é que você quer em troca?
— Eu só quero jogar com vocês...

Os treinos recomeçaram, animadíssimos. O final do campeonato estava chegando e nós precisávamos recuperar o tempo perdido. Carlos Alberto estava outro. Jogava direitinho e não criava caso com ninguém.

E, quando nós ganhamos o jogo final do campeonato, todo mundo se abraçou.
A gente gritava:
— Viva o Estrela-d'Alva Futebol Clube!
— Viva!
— Viva o Catapimba!
— Viva!
— Viva o Carlos Alberto! — Viva!
Então, o Carlos Alberto gritou:
— Ei, pessoal, não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca!

bate bola

Depois de cumprir o tempo regulamentar, dava um jeito de driblar a namorada e correr pro abraço da outra. É, tinha duas. Não que fosse craque, show de bola. Tinha porque, naquele campeonato, eram mais rosas que azuis.

Jogava seu futebol direitinho, mas não era assim, um Ronaldinho. Apesar disso, vivia a se vangloriar de altas goleadas e na maior cara dura, contava pros amigos que não ficava cansado nem na prorrogação. Dizia que a torcida fazia festa que só vendo. A galera vibrava e ao mesmo tempo esperava pelo dia em que o famoso levaria o cartão da namorada.

Dito e feito, não deu outra. Tomou uma bicuda, daquelas de fazer dó. A outra, ressentida, também não lhe deu guarida e avisou lá do banco de reservas que só jogaria de titular no dia em que seu passe triplicasse. Nosso craque, reformado, hoje bate bola num clube de várzea, lá na Vila das Saudades.

arbitrário

Aquele árbitro tava de brincadeira... anulou o gol de chaleira, deu impedimento onde não havia, mostrou cartão pra bicicleta do atacante. Naquele clássico, um bando de filhos de uma boa desesperados corriam atrás da bola. Fez chuva, fez sol, fez ola. E o árbitro preocupado com a camisa pra fora do volante, nem viu quando o goleiro chutou forte e, lá de longe, marcou seu gol de tiro de meta. Não validou e a torcida, emputecida, deu cartão vermelho pro trio que saiu escoltado, enquanto o pau comia solto naquele estádio.

Vitória merecida

Matemática do jogo:

1 gol no primeiro minuto
1 gol no último minuto
1 de mão do nosso goleiro = 3 do Palestra
uma dúzia de defesas incríveis
meia dúzia de faltas não marcadas
muitos litros de chuva
centenas de palavrões
mas só bastava um sãopaulino puto da vida
e já teria valido a pena.

Dia D Glória

( Fernanda & Vereda do site Turma do Amendoim) www.turmadoamendoim.com.br




O tempo parou, já não havia mais o compasso dos ponteiros, nem se ouviam mais os gritos da arquibancada, de repente, na sua frente, só uma imagem: a bola num ponto branco do campo, e um jovem de meia estatura com camisa branca e calções negros, olhar fulminante, como predador na hora fatal. Mais que depressa, um som trilado, o rapaz de camisa branca corre para a bola, esta se move em velocidade, deslocando-se para o canto direito da sua meta: o homem então salta, olhos abertos, coração compassado, mãos estendidas como que querendo alcançar o inalcançável. Salta para a fama, para a história, para a glória! O homem de camisa branca tem o olhar para baixo, e a bola, como um pássaro, direto para as mãos do guerreiro.

* homenagem ao goleiro Marcos, do Palmeiras.

Vencer


nessa história incomum
a torcida encantada
voltou sua atenção
à notícia apaixonada

nem à fila interminável
ou ao time do coração
nem ao craque que retornava
ou ao título de campeão

a manchete referia-se
ao romance que nascera
naquelas arquibancadas
enquanto o jogo ocorrera

entre ele e a amada
o encanto se criou
e a notícia, de tabela
foi ao time que exaltou

Sorte do Dia


Não prestei atenção mas, na certa, levantei com o pé esquerdo.
De domingo bem cedo, sair da cama é complicado.
Não que ainda estivesse com sono. O fato é que a única coisa interessante daquele dia seria o jogo do Palmeiras (lá pelas quatro).
Até lá, todo mundo enrolaria, apostaria a sorte e tomaria umas.
Banho e café preto (de gole rápido pra não ver a cor do adversário).
Café com leite não daria, era praga daquele dia.
Já sei! Pra dar sorte usaria a camisa do coração, meio por baixo, tá certo - porque o patrocinador já não era mais aquele.
E o dia foi se arrastando e eu me arrastando nele. Para o almoço chegou a família, com manjar de sobremesa.
A feijoada esquentada do sábado arrancou risadas do cunhado alvinegro, talvez pela cor, talvez pelo focinho.
O árbitro corrupto do ano passado trouxe o tapetão à tona. Toalha manchada, Mancha a postos, os Gaviões fiéis cantando e vibrando enquanto os palmeirenses rogavam pela salvação do time.
Hora do jogo, uma surpresa: o segundo uniforme dava o ar da graça e isso não era bom sinal.
Sinal da cruz, aperto de mãos. Moeda da sorte a favor do adversário.
Na primeira falta o atacante sai de maca e a torcida, com a macaca, soltando fumaça.
Aquele uniforme dava azar, eu sabia! Alguns ataques, muitas faltas, ene escanteios e nada.
A culpa é do narrador, parece estar morrendo! Trocar de canal seria ideal.
Agora sim! Agora vai! Aqui o gramado é mais verde e o narrador menos gambá.
Dois minutos depois o atacante adversário desce com tudo e bate pra dentro, encaçapando bola, goleiro e zagueiro. Ah não... parece praga!
Que nervoso! Vermelha de desgosto, levanto pra lavar o rosto e acalmar o ânimo. Ainda dá!
Mal levanto da cadeira dou as costas e meu time, raçudo, nem deixa o outro comemorar o gol que acabara de marcar. Tome outro goela abaixo pra ver se aprende com quem está lidando!
Olha lá, eu sabia! Era eu que estava dando azar! Foi só me levantar que o time marcou!
E assim, de longe, escutei a virada da vitória. E enquanto fazia pipocas comemorei o esperado título, que só fui assistir na reprise do jornal das dez.

A Deus


Tava tudo em suas mãos.
Nessa hora, elas usavam chuteiras coloridas.
Era ele contra um cara no meio do caminho pra atrapalhar.
(como sempre)
Não que fosse difícil.
Já tinha feito aquilo milhares de vezes.
(com sucesso)
Mas era obrigação, tinha que acertar.
Não podia demorar nem errar.
(era tão fácil, ele ganhava praquilo, ué!)
Era o melhor, o escolhido.
Milhões de olhos críticos.
(e zilhões de pensamentos à velocidade da luz)
Fez o sinal da cruz, correu, chutou.
E arremessou pro céu tudo aquilo que um dia quiseram que ele fosse.
Enquanto o povo esbravejava mil maldições, ele, com as mãos na cabeça, sorria.

Meta

Gira mundo, gira bola
corre, corre, dribla

dá um chapéu no concorrente
treina, treina, até dar um olé

o juiz que corra atrás do prejuízo

chuta a bola pra fora, xinga!

rouba descaradamente
passa a perna!
o que importa se derrubar?

se o negócio é sempre somar

de um em um no placar.

não pode

Não sei quem inventou a linha de impedimento. Não só porque é arbitrária, mas porque tira o brilho do jogo. O marcador poderia ter 10, 20 gols. Não fosse alguém ter inventado que pra você marcar o gol precisa sempre estar atrás do adversário na hora do lançamento. O que interessa quem tá na frente? O que me impede de chutar bonito, chutar alegre, de longe, de perto, com tudo! Se futebol é bola na rede, quero marcar meu ponto, já que é de gol em gol que se ganha o campeonato.