- O meu pastor disse que não devo fazer isso.
Registro: 1410
De: OLHO NELES
Para: ..JESUS CRISTO...
Data: 12/2/2009 07:14:40
Sua bronca:
Há alguns anos, apareceu andando pela rua, um lindo moço. Chamava a atenção pela sua beleza e também pela sua disposição para caminhar o dia todo sempre pelas mesmas ruas.
Ninguém conhecia o rapaz, mas era o começo de uma longa história. Suas roupas foram ficando sujas, seus cabelos foram crescendo, sua pele encardindo.
Ninguém sabia de onde ele vinha, nem para onde iria. Aos poucos, solidarizados, a mesma "meia-dúzia" de moradores começou a alimentá-lo. Ele, educado, devolvia prato e talher. Levava com ele apenas o alimento e o cuidado de não pedir novamente comida no mesmo lugar no dia seguinte. Variava para não abusar.
Tentei conversar com ele muitas vezes, conhecendo sobre sua vida menos que o mínimo. Tentei persuadí-lo a voltar para casa. Em vão. O motivo de sua partida, um mistério.
Meses e meses se passaram, Leandro já não falava mais, seu cheiro, insuportável. Num dia de calor escaldante chamei a Prefeitura para removê-lo. Ele dormia no chão e após algumas horas, recusou nosso auxílio. Preferiu continuar por aqui, pois já tinha seu abrigo certo. Já conhecia os degraus, o asfalto e os vizinhos. Nunca foi judiado. Aos cumprimentos, já não respondia mais.
O pároco e alguns solidários, decidiram salvar Leandro de tamanha agonia. Talvez por ser jovem. Talvez por ser loiro. Talvez por já fazer parte da rotina de absolutamente todos os moradores do bairro. Não há, na Pompéia, sequer uma pessoa que nunca tenha encontrado com ele. A maioria sabe até seu nome.
E assim se fez: Leandro passou a tomar banho e a dormir na igreja. Um dia, enquanto tomava café no Pão de Açúcar, Leandro me pediu dinheiro. Foi um momento de muita alegria. Como nunca antes fizera isso, demonstrava ter galgado um degrau na escala social. Da miséria absoluta, conseguia agora ser pedinte. Sua voz voltara, e ali, ao meu lado, dessa vez sem o cheiro insuportável, tomou sossegadamente seu café.
Leandro continua andando pelo bairro. Dá voltas e mais voltas em torno dos bancos da igreja. Voltas e mais voltas pelas ruas. Hoje, limpo e calçado, aparentemente deixou de ser mendigo. No fundo, em sua alma ainda carrega as mesmas mazelas de sempre, como a incerteza e a dor. Talvez já não sinta mais nada, apenas a alegria de ter um lugar para voltar. Talvez, não.
Toda vez que o vejo, olho para mim. Tão diferentes, tão iguais. Dando voltas em torno de nada. Caminhando sem saber para onde ir, amarrada à centenas de dúvidas. Leandro é meu espelho. Às vezes, me sinto ele. Dando voltas em torno de mim. Leandro não cheira mais. Mas ainda incomoda.