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Reflexões de Final de Ano



E novamente já é Natal. E ainda não comprei nenhum presente.
As pessoas mais chegadas também fazem aniversário no final de ano. Então eu fico preguiçosa pra comprar presentes.


Ao invés de me organizar, todo ano faço a mesma coisa: espero o dia ir chegando e vou pensando pensando... e penso também que não sei porque a gente tem que comprar presentes em datas específicas. O gostoso é levar alguma coisa quando olha e vê que tem a cara da pessoa, em qualquer data. Com obrigação quase sempre compramos por comprar, ou andamos até não poder mais para achar alguma coisa que a pessoa nem vai usar.


O problema maior é que hoje todo mundo tem quase tudo, então a pessoa ganha e não usa porque até esquece o que tem. Alguns presentes então, melhor nem virem, como aqueles comprados por obrigação pra compensar a falta de atenção dispensada durante o ano todo.


As convenções do comércio são chatas, mas necessárias. Muitos criticaram Lula quando ele mandou comprar e comprar. Mas se for refletir, a nossa economia e o nosso trabalho está intimamente ligado ao comprar. Realmente, um Presidente que quer aumentar o PIB não pode mandar o povo não comprar. Mas ao mesmo tempo, comprando a gente destrói a natureza e as tempestades e enchentes já estão começando a dar as caras e a mostrar que nosso lucro logo logo vai virar um prejuízo e tanto.


Aquele velho papo que Natal é Deus e não presentes, ainda não colou. Papai Noel ainda é muito mais pop nessa época do que o Menino Jesus. É só olhar pros enfeites de Natal espalhados por aí. Jesus veio peladinho, sem saco de presentes, e os Reis Magos trataram de levar alguns apetrechos para adorá-lo. Papai Noel tem um saco sem fundo, desses que a gente acha que vai sair coelho, namorado, emprego e tudo o que alguém pode sonhar. Então, para a economia, Papai Noel é o canal.


O final de ano me faz refletir sobre o que de bom fiz pra mim. Nesse ano fiz algumas coisas boas, mas uma barbeiragem um pouco antes do meio do ano empatou a minha vida. É, tudo na vida tem um preço, e depositar a felicidade em outro ser humano é quase sempre um investimento de alto risco. Mas não tem jeito, eu sempre faço isso. E quando vejo que fiz mau negócio, ao invés de mudar a aplicação de minhas expectativas, espero o banco falir. Sou demorada.


Ser demorado, nos tempos de hoje, é suicídio. Eu tenho essa tendência. Não mudo os meus valores básicos, não mudo o ritmo e acabo sempre ficando pra trás. Por isso mesmo não me sinto com a idade que tenho. Olho pros mais jovens tratando de amores como quem faz barganha em feira livre e acho que o coração dessa gente é velho. Olho pra eles falando em dormir de conchinha e reflito que venho de uma criação onde isso nem dava pra se fazer, porque tinha hora pra chegar em casa, então, dormir nem pensar! Eles viajam com os namorados, levam vida de casado, estão sempre procurando algo que nem sabem o que é e vivem espalhando por aí que isso é aproveitar a vida. Porém, estão sempre insatisfeitos. Então por isso mesmo me sinto jovem quando olho para eles. São muito calejados e vividos. Alguns já endureceram o coração antes dos trinta. E até na idade se acham velhos. Vê se pode...


Ao mesmo tempo penso que eles têm alguma razão. A rotatividade também nos traz bastante experiência, e nesse ponto sinto que pequei. Deveria ter encontrado um meio termo e não ter acreditado que um dia o príncipe ia perceber que eu era a mulher da vida dele. A gente faz muitas loucuras na vida, as maiores delas relacionadas à paixão. Mas, o que é a vida sem ilusão?


Enfim, espero que muita coisa em minha vida mude, mas que nunca perca a capacidade de me apaixonar e de acreditar que uma pessoa pode ser muitas, que as pessoas mudam com o tempo, que nunca se conhece um ser humano em sua totalidade e é aí que está a graça de apostar num relacionamento apenas.


Querer relacionar a felicidade conjugal ao desfrute desenfreado com vários parceiros é subestimar a inteligência e a versatilidade da obra de Deus. Uma das coisas que mais me irrita atualmente é ter que explicar o porquê de querer namorar uma pessoa só, ser mais reservada, canalizar energias para alguém interessante sem com isso ficar zanzando por aí enquanto espero a pessoa aparecer. Vivo ouvindo que preciso rever meus conceitos, que perco meu tempo e durmo no ponto. É, pode ser. Mas quando a gente ingressa no mundo da falta de princípios, a viagem é interessante porém nos despe de todo e qualquer tipo de censura. E quem se machuca com isso, não preciso nem dizer.


Mas mesmo assim vou pedir que Papai Noel não permita que eu me afaste dos sentimentos mais puros, da confiança no ser humano e na intenção de construir coisas boas. Ser honesto nos dias de hoje é se agarrar num tronco de árvore enroscado no leito do rio em meio à forte correnteza.


Que meu tronco me suporte, que a tempestade seja leve e que, com sorte, nesse rio haja alguém perdido e que também tenha os sonhos parecidos com os meus.


Feliz Natal!

(publicando novamente) Reflexões de Final de Ano (original em 20/12/2008, 00:10)

Saudade, o termômetro do bem querer


Estou com saudades de minhas amigas do curso de contação de histórias.
Diana, Jô, Rita, Ana, Élcita, Olga.
A gente se conheceu no segundo semestre do ano passado, e juntas tecemos histórias por escrito e também em nossos corações.

Um de nossos exercícios era contar a mesma história, cada uma a seu modo.

A Jô, poética. Diana, envolvente. Rita, alegre, escandalosa. Élcita, delicadamente poderosa. Ana Maria, emocionadamente debochada. A Olga, "cantando histórias", com sua voz de veludo. E eu, procurando lógica nos contos de fada.

Nosso encontro foi doce, marcante, engrandecedor.

Entre nossos exercícios obrigatórios estava criar histórias de amor (algumas constam da lista desse blog, como "Caixa de Estrelas" e "a Menina e o Tempo"), histórias de luto, de desajuste. E enquanto falávamos de histórias, de sonhos, misturávamos as vivências de umas com as outras, o que nos unia ainda mais numa amizade fraterna e verdadeira.

Foram dias inesquecíveis. Ali, não havia espaço para o silêncio. Nossos encontros eram esperados não como uma obrigação, mas como um compromisso deliciosamente inadiável.

E acredito ser esse o termômetro da amizade verdadeira: UM COMPROMISSO, DELICIOSAMENTE INADIÁVEL.

Saudades de vocês, meninas. Sem vocês, nesse ano o inverno ficou mais frio.

Frescurites & Cia


O ser humano às vezes me deixa maluca. É que é muita frescura pra minha cabeça.

Desde tomar um simples copo de água até escolher uma roupa, as ranhetices das pessoas lotam qualquer paciência.

Tem gente que quando vem em casa pede um copo de água e eu sempre caio na besteira de perguntar se é gelada ou sem gelo.

Minha tia quer misturada, mas a de baixo tem que ser a sem gelo e a de cima a gelada, senão não se misturam bem.

Minha outra tia não gosta da nossa água, porque é do filtro e ela só usa água engarrafada ou desses filtros chiques, tipo Europa.

Minha outra tia implica com os tipos de roupas: se a saia não estiver um palmo acima dos joelhos, para ela é feia, por mais bonita que seja.

Meu pai não come lasanha, mas come presunto e queijo e macarrão separado. Come croquetes de carne, mas não come almôndegas nem hamburger, porque odeia carne moída (justamente o recheio dos croquetes de carne).

Minha sobrinha odeia café, mas gosta muito de balas de café.

Minha irmã abomina peixe, mas é vidrada em cozinha japonesa.

Meu pai é do contra. Espera pra saber o que a gente vai querer fazer pra dizer que não quer. Seja o que for.

Minha irmã prefere fazer o papel de advogado do diabo, então ela conversa comigo, vê a minha opinião e decide defender a idéia contrária, sempre.

É difícil conviver com as pessoas. Melhor não procurar lógica em ninguém. Deve ser por isso que as áreas que estudam as contradições não são as EXATAS e sim as HUMANAS. 

Vai ver que pra ser humano é preciso ser complexo e contraditório. Talvez sim. Talvez não.

Ela só quer ajudar...

Tem uma senhora que canta na igreja aqui do bairro.
Ela é super carola, não perde uma missa da tarde e está ali há anos para ajudar o padre.
Ela é a dona do microfone. Mas sua voz... 
Ela canta as músicas todas, toda tarde, em toda missa.
E o pior de tudo é que ela está presente em todas as missas de sétimo dia, justo aquelas onde as pessoas acabam tendo o primeiro contato com a igreja.
Aquela senhora canta muuito mal. Dizem que a gente não deve implicar com a afinação dos outros quando se trata de música santa. Mas ela enche a minha paciência.
Quando a vejo, trato logo de ir embora. Pois das duas uma: ou eu fico nervosa, ou dou risada.
Mas é risada de nervoso também. Porque acho absurdo que ninguém tenha a coragem de dar um toque pra ela.
Se quer cantar, precisa aprender. Se canta mal, pode - no máximo - fazer parte de um coral, e olhe lá.
Mas animar TODAS as missas da tarde, TODOS os dias do ano, há ANOS...
Aí tem que ter se tocar, né?
Ela é um caso perdido em questão de afinação. Se até hoje não aprendeu, não aprende mais.
Porque treinar ela treina. Todo SANTO dia.

Levemente maluca

Minha tia era louca. Mas não nasceu assim. Teve uma depressão pós-parto e começou a se afastar do mundo, até não falar mais coisa com coisa. Morreu há alguns anos, quase idosa,
sem nunca ter sarado.
Ela falava que quem tomava muito café ficava preto e conversava mil vezes o mesmo assunto. Perguntava alguma coisa pras pessoas e quando elas respondiam, ela comentava a resposta e em seguida fazia a mesma pergunta de novo. E de novo. Aí, quando a gente começava a rir, ela ria também. Quando ela me ligava eu ficava um bom tempo no telefone, até que chegava uma hora em que ela mesma percebia que já era hora de desligar. Eu ficava com pena dela, mas ao mesmo tempo ela me encantava, pois estava sempre de bom humor. Às vezes alguma coisa a deixava injuriada, como por exemplo quando alguém brigava com alguma de suas filhas. Ela gritava, falava alto e depois de um tempo voltava a ficar contente.
Ela xingava os vizinhos. Ficava na varanda de casa e mexia com quem passava na rua. Tinha gente que ficava p. da vida com ela, porque há pessoas que são mais loucas que os próprios loucos e são capazes de se ofender com eles.
Quando minha tia morreu, todo mundo ficou pensando no porquê dela ter tido uma vida tão difícil, e ao mesmo tão fácil, porque depois que ficou doente, nunca mais teve que se preocupar com contas e com as mesquinharias da vida. E eu fiquei pensando se mais louca era ela ou somos nós, que nos enredamos em mil intrigas e picuinhas, a troco de conquistar o respeito dos outros durante certo tempo, porque se for ver, todo mundo fala mal de todo mundo.
Se um é rico e não tem tempo de olhar a mãe, é acusado de coração duro. Se o outro tem bastante tempo mas não pode ajudar com dinheiro, é chamado de vagabundo. Mas o vagabundo e o sem tempo se completam na hora de ajudar alguém. Um cuida (o vagabundo) e o outro banca (o rico). Se disser pro rico dar uma de vagabundo ele vai achar que dá muito trabalho. E se disser pro vagabundo dar uma de rico, ele não se sentirá capaz.
Acho que no fundo Deus faz tudo certo. Enquanto uns servem para prover, outros servem para cuidar. Enquanto uns vêem a parte prática, outros são mais delicados, trazendo uma visão de sensibilidade. Nem dureza nem fragilidade são boas em excesso, então o negócio é valorizar o que cada um pode dar e procurar distribuir as tarefas da melhor forma para todos.
Estava pensando que às vezes é bom ser maluco. Não maluco, louco de pedra. Mas meio doidinho assim, desses que fazem a vida ficar mais leve.
Ontem passou uma italiana de 98 anos, sobrevivente do terremoto, que esperou 42 horas pelo resgate fazendo tricô. E avisou que estava muito triste por ser entrevistada descabelada. Deliciosamente maluca, fez com que todos sorrissem, mesmo naquele panorama de imensa tragédia.
Aqui está o video com ela, e não é difícil entender a razão dela estar viva até essa idade:

Escolhas

Morar em São Paulo deixa a sensação de que estamos sempre fazendo uma besteira. Eu explico: Há sempre muitos caminhos para se chegar ao mesmo lugar. Uns mais curtos, outros mais longos. Nem sempre o mais curto é a melhor escolha, porque pode estar congestionado. Sendo assim, vale mais o trajeto mais longo, porém mais livre. Só que nunca se sabe onde o congestionamento está. Geralmente está por toda parte, então, melhor escolher o mais curto. Mas enquanto estamos nele, ficamos pensando se o outro não seria mais rápido, o que é impossível de adivinhar. Também haveria a possibilidade de ir de ônibus, já que os corredores são livres. Ou de metrô, mais rápido ainda. Só que ambos são igualmente lotados, o que pode tornar a escolha a pior opção. Embora o transporte público seja mais econômico, até ele passar demora muito mais, então o barato pode sair caro. Sem falar no transtorno que é andar a pé até o destino. E chegar desalinhado ao encontro, pode ser a pior viagem.
Mas não só nas escolhas dos caminhos o paulistano se aflige. Aquela fila do mercado que nunca anda, é justamente a que a gente escolheu. O mesmo vale para a faixa de trânsito. E o que dizer de não conseguir encontrar alguém que preste numa cidade com tanta gente? São Paulo me dá a sensação de ter feito coisa errada, sempre. Porque eu perdi o show do artista e veio gente do Brasil todo só pra vê-lo. Porque tem tanta gente ganhando tanto dinheiro, mas eu não. O curso que eu fiz não foi naquele lugar tão bom.... com tantos aqui! Mas será que era esse curso mesmo que eu queria? Porque aqui tem tantos! Na hora de comprar um xampu fico nervosa, de tantos tipos. Na hora de pagar fica sempre aquele incômodo... seria esse mesmo o ideal para o meu tipo de cabelo? É tanta gente, tantos produtos, tantas opções... mas será que justamente por isso a gente tem mais desculpa por errar tanto? Ou é mais burro quando erra, porque não soube escolher direito? Dúvidas...

Você passa por mim e não olha

- Onde fica essa rua?
- Eu não sei.
- Mas você não é daqui?
- Sou sim, moro aqui há muitos anos.
- Então, como não conhece essa rua? Me disseram que é por aqui.
- Esse nome não me é estranho, mas pra eu te dizer ao certo onde fica... não sei. É que a cidade é grande, o tempo é curto, e eu vivo viciado no mesmo caminho. É como no computador, onde navego sem conhecer os nomes dos menus e dos atalhos, simplesmente vou clicando aqui e ali e ali... Quando vou ver, cheguei ao destino, mas te dizer ao certo como fiz, eu não sei.
- É preciso conhecer a cidade onde mora, ao menos as ruas mais próximas!
- Eu sei disso, você tem razão! Mas é que o paulista conhece a Paulista, as Marginais, a 23, a Radial, as saídas pras estradas... Conhece as ruas principais, a rua onde mora, e a dos parentes, somente de cabeça. Ou a gente guarda o caminho de carro, o caminho do ônibus. Ou só o número. Quem não tem carro conhece melhor a cidade, porque os ônibus dão tantas voltas... Mas pra ensinar o caminho bem certinho, isso é impossível de fazer. Porque os nomes das ruas não ficam guardados, e o que a gente trilha a pé, muitas vezes é contramão. Nossas ruas conhecemos pelo barulho, pelas árvores. Nossa referência é a praça, o supermercado, aquele prédio de tijolinho... Quando aparece um lugar novo pra ir, geralmente consultamos o guia. E mesmo assim ainda se perde! É... o paulistano consulta o guia mesmo morando aqui a vida toda. E podemos viver duzentos anos, que nunca vamos conhecer nossa cidade. E nem é possível, porque todo dia tem uma rua nova, uma empresa nova. Tem horas que aparecem uns corredores de ônibus, umas zonas azuis. Morar aqui é viver num lugar que ninguém conhece. Nem a gente. E se for ver, ninguém se conhece. Também... conhecer gente numa cidade com tanta gente, é a coisa mais fácil que tem. Mas não conhecer assim, de conhecer de verdade. É um conhecer somente de vista, uma conversa animada, que muitas vezes acaba até sem despedida. Porque passa o ônibus, chega o amigo. Porque quando um vai embora o outro está ocupado, ou nem se lembra mais. Então, pra que preciso decorar o nome da rua? Se nessa cidade a gente se conhece de vista, se esbarra tão rápido, se encontra e se perde. Pra que decorar os nomes? Se o caminho muda o tempo todo, que dirá os nomes? Eu não conheço essa cidade, nem ela me conhece. Porque é tanta gente diferente, mas ao mesmo tempo tão igual. Mais ou menos como essas ruas, desconhecidas, pelas quais passamos todos os dias.

Aos Amigos

Essa página fez seis meses.
Nunca gostei de blogs, nem de diários.
Aliás, mesmo meus cadernos de escola eram um enigma até pra mim.
Frequentemente eu não anotava nada nas aulas, e para estudar para as provas acabava tendo que xerocar os cadernos dos meus amigos CDFs.

Escrever era coisa para aliviar quando estava triste.
Escrevia mais pra falar coisas que não tinha coragem de falar e, escrevendo, ficava mais aliviada.
Geralmente eram textos bem melodramáticos, aquelas coisas bem apaixonadas, misturadas com a dor do desprezo. Escrevia sempre movida por muita angústia.

Até que um dia decidi não escrever mais nada, afinal, cultivar aquele sofrimento todo era horrível! Aquela papelada guardada cheia de "barriga-me-dói" devia me trazer até azar.
Joguei tudo fora! E me senti bem melhor.

Passei muito tempo sem escrever nada, tanto tempo que comecei a ter muitas dúvidas de português. Fiquei incapaz de escrever até mesmo uma simples redação.

Aí ingressei numa nova fase. Passei a escrever coisas alegres, engraçadas, a me divertir com os textos, tirando sarro das desgraças. A começar pelas minhas próprias, que não foram poucas.

Quando montei essa página, foi por indicação de um colega que me disse para disponibilizar meus textos na internet para nosso grupo se organizar direitinho.

Então montei apenas para guardar os textos, como se fosse aquela pasta amarela que um dia joguei fora com as minhas lamúrias de adolescente. Mas, para a minha surpresa, recebi milhares de acessos. Até eu mesma me surpreendi.

Então os amigos começaram a gostar, e eu comecei a ficar com medo! Porque nos textos sempre tem muito da vida particular da gente, muitas visões dos amigos, da família, e nem sempre são das melhores!!!

Aí comecei a tomar bastante cuidado com isso, até mesmo a me censurar! E pensei em montar uma outra página onde eu pudesse escrever sem me identificar, para ter mais liberdade de falar sobre qualquer assunto.

Mas aquela história de escrever quando estava triste não mudou muito. Os textos é que mudaram.
Tem horas em que estou triste e escrevo coisas alegres, mas, no fundo, as historinhas não deixam de ser um pedido de socorro.

Então comecei a pensar até que ponto esse hábito não colabora para que a gente fique cada vez mais sozinho! Nada mais solitário do que escrever. Quem está triste e conversa com os amigos acaba trocando idéias, se distraindo, rindo, falando bobagens. Mas quem desenvolve o hábito da escrita, nada mais faz do que falar o tempo todo sozinho.

E vai construindo uma imagem em torno de si que nem sempre é verdadeira. Algumas pessoas até mudaram o tratamento comigo. Uns ficaram mais simpáticos, outros, mais distantes. E eu entendo o por quê.

Sou uma pessoa tranquila - até demais. Mas a internet constrói uma imagem totalmente diferente daquilo que somos na realidade. O que escrevo aqui é mais ou menos uma fotografia do que qualquer pessoa pensa. A diferença é a escrita.

Mas, como milhões de coisas passam na cabeça de todo mundo ao mesmo tempo, quando alguém organiza meia dúzia de idéias e transforma num texto, dá a sensação de que aquela pessoa é diferente de todo mundo. Mas isso é errado.

Os textos são como os pensamentos, os julgamentos: Aparecem na cabeça da gente agora, mas daqui a pouco nem lembramos mais daquilo. E quando lembramos, muitas vezes já estamos achando outra coisa, e outra e outra...

Falar sozinho é meio perigoso, ainda mais quando se fala alto, como aqui. E a sensação que dá é que tudo o que se escreve é verdade, é baseado na vida real do escritor, e isso não é verdade.

No texto sobre São Paulo 450 anos, por exemplo, escrevi uma realidade que nunca teve nada a ver com a minha. E as crônicas são assim mesmo, a gente acaba maquiando aqui e ali para ficar interessante, inventa para ficar mais engraçado e é aí que mora o perigo.
Quem lê vai idealizando mil coisas sobre a gente e quando vamos ver, ganhamos amigos virtuais, mas perdemos amigos "reais" e isso é muito ruim.

Mas estou dando um tempo no blog não somente por causa disso. Escrever poesias para mim é apenas uma brincadeira de juntar palavras. Não me considero "poeta" nem "intelectual" como dizem meus amigos. Não sou nada disso. Sou simples - até demais. Acho os intelectuais chatos e arrogantes. Deus me livre de ser um deles! E Deus me livre também de ser uma dessas mulheres executivas, cheia de manias de dar ordens e de se achar grande coisa.

*A internet até tem o "dicionário das rimas", o cantor Latino se utiliza muito dele. ;)

O que eu gosto mesmo é das coisas simples, das crianças, da família. E a internet rouba um tempo incrível da convivência com a família.

Nesse final de semana minha tia adoeceu gravemente, e isso veio ao encontro da vontade que sinto de voltar a ser eu mesma, de voltar a conviver mais com as pessoas. Vontade de aproveitar o tempo com as pessoas importantes, e parar de correr atrás daquilo que eu não tenho.

Na verdade, quando escrevo bastante geralmente estou movida pelo desejo de dizer algo para alguém que não tem disponibilidade de ouvir. E fico tentando, e esperando, esperando... Enquanto isso, perco tempo de convivência com aquelas pessoas que estão mais perto. E a gente nunca sabe até quando estarão.

Aproveito para agradecer aos amigos queridos que me encheram de elogios depois de lerem as coisas que escrevo, o que é uma honra, já que esse mundo conta com infinitas informações! Esses milhares de acessos ao blog me deixaram super envaidecida!

Já há muito tempo minha convivência com os amigos tem sido mais virtual do que real.

Com o orkut, o blog, o MSN, até mesmo meus amigos reais acabaram se tornando "amigos virtuais". E isso é horrível. Porque no orkut estamos sorrindo o tempo todo, no MSN a gente é mais um boneco verde e no blog eu sou a pessoa mais crítica do mundo. E nada disso é verdade.

(Apesar que hoje é Dia da Mentira, o que pode trazer dúvidas quanto à credibilidade daquilo que escrevi. Mas eu juro que é verdade.)

Tempo de dar um tempo

Calar às vezes é tão ou mais importante do que falar.
Aceitar o curso da vida, ter consciência de que não poderei reinventar a roda, nem conter o fluxo dos rios.
Aceitar que não arrancarei palavras daqueles que só podem me oferecer o silêncio, já que nada têm a me dizer.
O grande desafio talvez não seja modificar os comportamentos, os valores, nem reverter as situações que já têm seu ritmo próprio.
Quem sabe o grande desafio da vida seja conseguir passar por ela apesar das paisagens estranhas. Caminhar pelas suas ruas tentando desviar das armadilhas do caminho, sem perder a fé ou sucumbir à vontade de voltar para trás a todo o momento.
Encontrar uma nova forma de caminhar por aí.

Brigadeiros conciliadores

Festa de criança sem brigadeiro é decepcionante.
Pode faltar tudo, até o bolo, mas se faltar o brigadeiro, parece incompleta.
O brigadeiro é fácil de fazer, mas mesmo com poucos ingredientes, cada hora sai de um jeito.

O problema maior dos brigadeiros de má qualidade está no granulado. Tem uns que são muito duros, outros têm sabor de gordura hidrogenada, e aí comprometem o resultado final.
Lembro como se fosse hoje, quando eu era pequenininha e vi um brigadeiro gigante na vitrine da padaria. Não tive dúvidas: Já que estavam falando para eu escolher um doce, nada melhor do que aquele brigadeiro maior do que eu. Ah... foi decepcionante, pois era um daqueles brigadeiros feitos com batata-doce, pra render mais. :(

Naquele dia aprendi que a beleza não é tudo, e passei a ser fã dos brigadeiros pequenos, desde que não fossem do Paraguai, como aquele.
Brigadeiro é bom a qualquer hora: É bom sem enrolar, comido direto da panela, na xícara. Costumo fazê-lo quando brigo com a minha sobrinha e preciso encontrar um método infalível de reaproximação.

O melhor granulado de todos é o da Turma da Mônica, mas o da Garoto também é gostoso.
Não costumo por muita margarina, senão fica enjoado.
Outro dia não tinha margarina e eu usei creme de leite, ficou uma delícia.
Se for feito com chocolate do padre é gostoso pra comer até quente, e se for com Nescau, gostoso mesmo fica quando esfria.

Só de falar em brigadeiro já estou ficando com água na boca. Sei lá, acho que é porque estou com saudades dos tempos em que eu era criança e ficava feliz quando o céu estava azul de doer, como hoje de manhã.

As loucuras que o mundo nos ensinou

Continuando o assunto sobre maluquices, nessa semana fiquei de molho na igreja enquanto esperava a minha mãe na consulta médica e uma ficha acabou caindo em minha mente.

Fiquei sentada no fundo da igreja, enquanto dezenas de senhoras entravam e saíam de lá, muitas delas com problemas de saúde. Entre canções e louvores, cânticos e exaltações, fiquei pensando na vida, na felicidade e na fé.

A felicidade que o mundo acaba nos vendendo como o paraíso, a felicidade que a gente quer construir para quando o futuro chegar... os planos que a gente faz "lá pra frente"...

Lá na frente serei uma daquelas senhoras? Talvez. Se eu não morrer antes, talvez serei. Talvez também seja diferente delas, com mais saúde, já que a medicina nos proporciona muita qualidade de vida apesar do passar dos anos.

Mas algo em mim mudou naquela tarde. Como diz a cantora Joana: "amanhã, talvez". Sim, amanhã talvez eu exista, mas talvez não. Pode ser que conquiste aquilo que almejo, talvez não. Quem sabe fique rica, mas pode ser que não. Então, o que fazer para ser feliz?

Se o passado eu não posso mudar e o futuro talvez nem chegue, a felicidade está no momento presente, esse que estou vivendo agora, enquanto teclo o texto para o blog. Devo ser feliz nesse minuto. Mesmo sem ter o dinheiro que talvez me proporcionasse noites de sono mais tranquilas, mesmo sem ter aquela pessoa especial com quem eu sempre sonhei, mesmo sem ter o trabalho que eu gostaria...

O momento de ser feliz, era o parágrafo passado, mas agora é esse parágrafo. E nesse eu penso em me satisfazer com coisas simples, em dar valor às pessoas que hoje se dispuseram livres para me fazer companhia. Nesse parágrafo penso em esquecer o resto do texto que eu já escrevi, porque ele já foi. Se eu errei ou acertei, não importa. O que importa é tentar não ser repetitiva, falando para vocês o que falei no começo do texto (que agora já é passado). Porque ser repetitivo cansa a gente, e cansa os outros.

Esperar a vida toda por alguém que não quer mais voltar, achar que vai dar tudo errado de novo, porque no passado sempre foi assim, ficar angustiada pelas asneiras que eu fiz a vida toda... é perder mais e mais tempo. É jogar fora o minuto presente, com coisas que já passaram e que ninguém lembra mais. Sentimento de culpa, ódio, rancor... tudo isso impede da gente ser feliz agora. E agora é o futuro com o qual sonhávamos lá atrás. Há dez anos eu pensava em ser feliz hoje. Então, para que lembrar do que deu errado há dez anos?

Mas essa loucura a gente faz o tempo todo. Remói o passado, almeja o futuro feliz, e pega o presente e desperdiça, com expectativas e angústias. Naquela tarde, descobri que a hora de ser feliz é hoje, não hoje na parte da manhã, nem daqui há duas horas. É hoje, agora, nesse exato minuto.

Isso não significa que eu vá gastar todo o dinheiro de uma vez, porque quem aprende a gostar do que tem, não fica insatisfeito o tempo todo, e guarda porque suas necessidades passam a ser simples.

Talvez aquela pessoa com quem a gente sonhou finalmente queira ficar com a gente, e pode até ser que dê certo, se ela ainda for uma verdade pro nosso coração. Mas se conseguirmos abrir o coração para o novo, com a auto-estima fortalecida, talvez pessoas que nos fizeram sofrer passem a não fazer mais sentido pra nossa vida.

Porque o que faz sentido é aquele que tem disponibilidade para dividir o dia, para fazer companhia hoje. Não ontem. Nem amanhã talvez. HOJE.

Pensar em ser feliz no trabalho, fazer com prazer e tirar o melhor do que aquela tarefa nos proporciona é uma missão de quem escolheu ser feliz urgentemente. E ser feliz não é morrer de dar risada, não é ganhar na loteria, nem ser famoso, nem popular. Ser feliz é estar em paz interiormente.

Usufruir o presente da maneira mais serena possível. Talvez essa seja a fórmula da felicidade.

Pensando assim as neuras, encucações, medos, angústias e receios que a gente aprendeu a cultivar a vida toda, passam a ter menor valor, pois, mesmo que algo não dê certo naquela hora, pensar em esquecer o passado rapidamente nos liberta de todo tipo de sofrimento e humilhação. Aprender com os erros é saudável. Mas isso não significa que tenhamos que cultivar nossos insucessos em altares.

O mundo trabalha pra sermos infelizes o tempo todo! Os jornais, as notícias da TV, as pessoas que nos procuram somente quando estão com problemas... Brasileiro tem essa mania de puxar papo reclamando da vida. Não que não haja motivo para reclamar. Claro que há. E muito!!! Mas essa cultura do "ai meu Deus" aniquila toda forma saudável de vida. Por mais que o ser humano sinta prazer com a desgraça, é impossível ser plenamente feliz falando em desastres, mortes, estupros e picaretagens.

Estava pensando: se eu morrer com 72 anos, significa que metade da vida já vivi. E confesso que passei boa parte dela pensando no futuro, cheia de medos, angústias, preocupações e complexos. Metade da vida já foi. Claro, teve muita coisa boa, mas também teve muita coisa ruim, devido às minhocas que eu pus dentro da cabeça. Quem sabe, se conseguir manter esse pensamento de ser feliz nesse minuto, custe o que custar, não consiga obter uma qualidade de vida excelente?

Por exemplo, se alguém pensasse em emagrecer, colocando na cabeça que o que faz o magro é o seu hábito, e nesse minuto passasse a ter o hábito de um magro, em alguns meses se transformaria num magro sem nem mesmo sentir. Mesmo pesando mais de 100 kgs, quando pensasse em ter hábito de magro, já estaria vivenciando a magreza. E o corpo levaria o tempo necessário para refletir o hábito que foi adotado naquele minuto.

Um fumante torna-se ex-fumante a partir do momento que apagou o cigarro. Um alcóolatra, a mesma coisa. No AA eles falam que não devem beber "só por hoje". Eu diria que só por esse minuto. E de minuto em minuto, fazemos uma vida toda.

Não sei se minha loucura maior for não ter adotado esse método antes, ou ter demorado tanto tempo para perceber uma coisa tão básica.

Um dia, quando eu pensava em parar de fumar, comecei a tentar arrumar um culpado para meu mau hábito. (Eu sempre tento arrumar algum Cristo para por a culpa, isso é coisa minha). Aí eu pensei: sou eu quem vou até a padaria, compro, abro o maço, acendo o cigarro, levo até a boca, trago e apago. Então, a culpa é de quem?

Loucos somos todos, uns mais, outros menos. Credicard em seu brilhante "slogan" diz: "PORQUE O FUTURO É AGORA". Credicard tem razão. Mas pensar em viver o futuro agora, pode também nos transformar em pessoas mais simples, que se utilizam daquilo que têm para serem felizes. E não necessariamente precisem usar o CREDICARD para comprar aquilo que não tem preço. O que não tem preço, não tem preço. E ponto.

É racional?

- O meu pastor disse que não devo fazer isso.
- Seu pastor? Como assim?
- É, o pastor... ele ensina que assim não chegaremos ao Reino do Senhor...
- Mas pastor não é de ovelhas?
- Somos como ovelhas aos olhos de Deus!
- Ah, eu não gosto de me sentir uma ovelha. As ovelhas têm que ir todas juntas para onde alguém manda, e geralmente só são cuidadas para serem tosqueadas. Você se sente bem na condição de ovelhinha?
- O pastor nos indica o melhor caminho, é por isso que estamos com ele.
- E por que o pastor é pastor e não é ovelha, como todos?
- Deus proteja sua alma, é uma ovelha desgarrada...
- Prefiro ser ovelha negra a ser "mais uma ovelha".
- Eu sigo o pastor, pois o Senhor é meu pastor e nada me faltará.
- Não, o Pastor é seu Senhor e nada Lhe faltará.

A magia dos clips

Ninguém dá valor aos clips. A caixinha não é muito cara, e vem um monte deles. Mas assim como os grampos, os prendedores de cabelo, as canetas BIC e os isqueiros, a gente acaba por perdê-los por aí.

Isso significa que no fundo achamos que eles não valem nada. Até que surja a necessidade de usá-los.

Por isso mesmo hoje estava pensando na filosofia dos clips. Os clips são como faxineiros de banheiro público. Quer coisa mais mal vista pela sociedade do que encontrar um emprego de "limpador de privada"? Mas quando a gente lembra deles? Quando eles não vão trabalhar, é claro!

Quando saio dos caixas eletrônicos geralmente preciso de um, e nem me preocupo em tê-los na bolsa. É só zanzar um pouquinho e sempre encontro algum apoiado em algum lugar do banco. Ontem dei sorte, e encontrei também três elásticos, novinhos.

Ao encontrá-los fiquei feliz, com a sensação de ser importante e ter alguma coisa que eu precisava ali, facinha, me esperando. Sim, é verdade! O mundo sabia da minha necessidade exata e pronto, deixou meu apetrecho disponível e a mão, gratuitamente.

Geralmente encontro mais de um clip pequeno jogado no balcão de depósitos. Uma vez ou outra tem daqueles grandões, de arquivo suspenso. Mas é difícil haver um dia em que não encontre nenhum. Só que é preciso tomar cuidado ao prender os documentos com eles, porque se ficarem muito tempo grudados no mesmo lugar, enferrujam e estragam nossas coisas.

Por isso mesmo acho que os clips são como a gente. Nem sempre nos dão valor, mas tem gente que fica feliz da vida quando nos encontra bem na hora que precisa. Logo depois de usar, acaba nos esquecendo em algum lugar por aí.

E outro vem e pega, e depois esquece, e alguém pega, depois esquece, e essa é a roda da vida.

Procissão


Hoje foi dia de procissão. Todo ano tem, o que varia é o caminho. Traçar a rota aqui pelo bairro é um desafio, devido ao grande número de veículos e de ladeiras. Como a maior parte dos fiéis é formada por idosos, o Pároco sempre leva em conta o bem-estar de todos para a definição da trilha de Jesus.

Mas hoje foi diferente. O Padre definiu um caminho incomum, bem mais longo do que o normal. Como a missa já havia sido bem demorada, e as seção de longos beijos à Jesus crucificado fora interminável, já estava cansada e decidi acompanhar apenas a saída da procissão da igreja. Assim que Jesus passasse eu iria embora, descansar em casa.

Fiquei lá fora, quando um grupo de escoteiros veio com uma corda e isolou a faixa da esquerda da avenida, para que os veículos continuassem passando apesar da procissão. A polícia colaborou e os fiéis lotaram as ruas, seguindo o carro de som. Jesus e Nossa Sra. vieram atrás, carregados pelos homens e pelas mulheres, respectivamente.

Mas a estátua de Jesus é imensa. Ele está deitado, e o peso daquela imagem é digno de nota. Os homens da comunidade colocaram Jesus sobre os ombros, e estavam visivelmente abatidos já na porta da igreja, antes mesmo que o cortejo começasse.

O caminho seria longo, com 14 estações reproduzindo o martírio de Cristo. Logo que olhei aquela cena, dos homens cansados, tremendo com Jesus nos ombros, pensei que hoje seria o último dia que veria aquela estátua inteira. Seguramente deixariam Jesus cair, pois o peso tenderia a aumentar ao longo do caminho, apesar do rodízio combinado entre eles.

Decidi acompanhá-los movida pela imensa curiosidade de saber como eles poderiam suportar aquele peso todo. E ao lado deles segui descendo a avenida. Vários quarteirões. As pessoas, que há poucos minutos beijaram o filho de Deus na igreja, na rua pareciam outras. Incrível como um ambiente pode fazer um povo, mas hoje vi que isso é pura verdade. Dentro do templo assumem uma postura. Na rua, outra. E lá iam os rapazes e Jesus, equilibrado.

O Padre ia parando em frente às casas, ao hospital, rezando pelos doentes. Ele conhece a residência de muita gente, porque frequentemente é chamado para orar por eles, para dar a unção dos enfermos ou mesmo para abençoar as casas. Reza missas em domicílio, o que faz com que ele conheça um grande número de pessoas pelo nome e pelo endereço.

Nossos rapazes, impávidos, seguiam com Jesus. E na subida, não se fizeram de rogados. Continuaram firmes, imprimindo passo cadenciado e rápido, suportando o peso bravamente. Quando o Padre parou em frente a uma boutique chamada "Divino Pano", olhando para aquelas roupas transadas falou em alto e bom tom:

- Nós deveríamos nos preocupar em nos cobrir com o Divino Pano da Dignidade, ao invés de pensarmos apenas nas vestes!

Naquela loja havia um cachorro poodle que ficou olhando para a multidão sem latir. E algumas pessoas riram diante das palavras do padre, que em tom de crítica à futilidade humana não poupou esforços para demonstrar sua chateação com algumas pessoas da comunidade.

Teve gente que buzinou, porque a procissão começou a atrapalhar o trânsito. Outros montaram altares nas portas das casas, e receberam mil bênçãos. Quem buzinou para a procissão seguramente não reclama de usufruir do feriado, pois nosso calendário ainda é católico - apesar de hoje o Brasil ser um país predominantemente evangélico.

Hoje, para variar, vim para falar sobre uma coisa diferente que notei na comunidade: Hoje não me irritei com meus amigos fanáticos. Talvez porque tenha ficado com pena deles, pois chegaram muito cansados e suados, mas mesmo assim mostravam um sorriso no rosto de grande satisfação.

Essas pessoas não foram viajar para compor a festa católica da Páscoa, e estão a semana toda trabalhando em eventos diários para a conclamação de Jesus.

Eles são amigos, conhecem os vizinhos, sabem de muitas histórias. O fato de se reunirem sempre, proporciona a eles uma grande gama de informações sobre a comunidade e nossa gente. Dá pra ver que sentem muito amor pelo bairro, pela cidade, e trabalham para que nos tornemos uma grande família, banhada por união e muita paz.

Embora tenhamos diferenças grandes, hoje deixo registrada a minha admiração pela dedicação e abnegação com que trabalham durante o ano todo, a troco de nada. O único pagamento que recebem é a alegria dos vizinhos, que sempre têm um lugar alegre e organizado na hora em que sentem vontade de rezar.

Feliz Páscoa a todos, especialmente aos que se dedicam a construir essa festa. Não só a dos chocolates, mas a da palavra de Deus, que se resume sempre no amor que devemos sentir pelas pessoas. E na necessidade de compreendermos e aceitarmos a todos, apesar dos pesares, mais e mais a cada dia.

Pelo menos eu já conheço os defeitos deles, e eles conhecem os meus. Mas isso não nos impede de continuarmos juntos e, cada um ao seu modo, vai ajudando a fazer de nosso bairro uma grande família, que graças a Deus tem conseguido conviver em paz.

Consolo no choro


Eu era muito de chorar à toa. Até que um dia decidi me controlar. Quem muito colaborou para que eu parasse quase que definitivamente de chorar foi o Gasparetto. Ele dizia em seus programas de auto-ajuda que quem chora se faz de coitado e é "bunda-mole". Aí eu acabei concordando com ele, e toda vez que sentia vontade de chorar pensava que não devia fazer papel de vítima nem de coitadinha, e segurava até a vontade passar.

Com o passar do tempo e a aplicação desse método (muitas e muitas vezes), comecei a notar um vazio no peito, uma sensação ruim, um "gelo".

A internet tem respostas para quase tudo, mas há uma resposta que não está na internet: "como esquecer alguém". Existem alguns tópicos falando sobre isso - todos inúteis.

Conheço alguns jeitos de desviar o pensamento: evitar filmes e músicas românticas, evitar o encontro com a pessoa, evitar os mesmos ambientes, sumir com suas fotos e procurar alguma coisa para fazer quando pintar a vontade de procurar. Não olhar mais o orkut, não querer notícias, arrumar outro. Esses são alguns dos muitos métodos que ajudam a gente a esquecer alguém.

Mas como é impossível desrosquear a cabeça e deixá-la em casa, o pensamento vai com a gente e a lembrança da pessoa fica feito sombra. Assim, para esquecer é pior do que largar um vício, já que o cigarro a gente tem que comprar, mas a paixão anda por aí conosco, não dá pra jogá-la fora ou arrumar um remédio que cure essa "doença".

Talvez uma das técnicas para esquecer alguém seja justamente se permitir chorar. Separar um dia para ser completa e irrestritamente infeliz. Guardar uma noite para ser "coitado". Para ser a mais pobre e abandonada criatura do mundo. Chorar até cansar. Para ver se sai o mal-estar do peito. E torcer que aquelas lembranças sejam eliminadas "via-lágrimas".

Dizem que chorar lava a alma, "limpa por dentro". Vou contar pro Gasparetto que chorar não é assim tão ruim. Afinal, choro rima com consolo. E quando a gente se vê sozinho, quem, além do choro, pode nos fazer companhia?

Decepção

Hoje estou com vontade de falar sobre decepção. Dizem que "não mata - ensina a viver". Concordo que ensine a viver, mas acho que às vezes pode matar, sim.

É porque quando a decepção é muito, muito grande, a dor chega a ser física. Tem vezes em que ficamos tão tristes que parece haver um buraco no peito. Um aperto, uma dor... que não são apenas formas de expressão, mas dores, na pura denotação da palavra.

Quem olha de fora pergunta se está tudo bem e a resposta é aquela de sempre: tá sim! Mas por dentro, "tá nada". Quando a imagem da realidade se confronta com o universo da ilusão - pintado pelas cores da paixão, existe uma ruptura tão imensa, que faz a gente esquecer o próprio nome.

Talvez todo mundo conheça casais tão ligados que quando um morre, o outro morre pouco tempo depois. É que a cabeça da gente comanda a saúde. E quando a pessoa dá o azar de ser passional demais, o coração comanda a cabeça. O desânimo e a tristeza são os pais da doença, e a alegria a mãe da felicidade.

Geralmente a decepção vem pela perda, pela traição, pela indiferença. A traição, hoje, é tratada como assunto superável, coisa boba, mas ao longo da história vem sendo uma das maiores causas de sofrimento do ser humano. O "Clube do Corno" (aquele, do Falcão e do Reginaldo Rossi), foi criado para brincar com um assunto que provoca seqüelas mentais gravíssimas. Euclides da Cunha foi morto pelo suposto amante da mulher. Isso porque tinha ido ao encontro dele para matá-lo - e levou a pior. Como ele, muitos outros casais morrem e matam por aí. Outros não morrem de tiro, mas morrem por dentro.

A traição entristece, adoece, tira o ânimo e o que é pior, tira o gosto pela vida. A sensação que se tem é que nenhum ser humano é digno de confiança, que a nossa vida foi uma mentira, que o tempo todo que vivemos aquilo foi um tempo não vivido - perdido.

E é estranho muitas pessoas ainda exporem os parceiros a isso, sendo que, nos dias de hoje, temos plena e total liberdade para vivermos os relacionamentos mais "abertos" do mundo, desde que os dois envolvidos consintam essa forma de convivência.

Quando alguém diz que não ama, não apenas está dizendo que não sente amor, mas que não sente NADA. Porque se houvesse paixão, seria impossível distingüir se há ou não amor. A paixão cega. E cega muuuito. O que a paixão colore, a decepção desbota. E nunca voltamos a ser quem éramos antes. A decepção descolore o que a paixão pintou e até o colorido que havia antes da paixão chegar.

Mas tem uma coisa muito boa em sofrer muitas e muitas decepções ao longo da vida: É que a intensidade do sofrimento vai diminuindo. É o famoso "eu já sabia..." Isso é bom e é ruim. É bom porque na hora a gente sacode a poeira mais rápido. Mas é ruim, porque no próximo relacionamento, nunca daremos de nós aqueles 100%, tão necessários para que os dias de felicidade sejam realmente completos. Vai haver sempre o "pé atrás".

O grande algoz da vida da gente é sempre o primeiro a nos decepcionar, a nos trair. A partir dali, ele passa a ser o parâmetro de conduta. Por isso é aconselhável não trair alguém que nunca foi traído. Porque corre-se o risco de se tornar uma pessoa "inesquecível".

Uma vez sofri uma decepção tão grande, e engraçado que se deu com alguém que eu nem gostava tanto, já nem gostava mais. Nosso relacionamento já estava morto e enterrado, quando ele veio me contar sobre o "produto" de sua traição. Nem sei bem se foi traição, deve ter sido uma das muitas que eu não fiquei sabendo.

Como ia dizendo, nem sei porque ele veio me contar sobre isso, acho que foi por maldade mesmo, porque eu poderia ter passado em branco daquilo tudo, já que o enterro de nosso relacionamento já datava de quatro anos. Mas foi um trauma, um choque, uma mistura de ódio com indignação. Quando fiquei ciente de que não significava absolutamente nada para aquela pessoa, percebi que embora ele significasse pouco para mim eu significava ainda menos para ele. Então me dei conta de minha pequenês.

E o que dá vontade de fazer com alguém que nos joga na cara nossa impotência diante do mundo? Se é dessa impotência que a gente passa a vida toda fugindo, tentando achar um canto onde a gente possa se sentir "alguém", possa ser feliz. E esse lugar já foi nos braços dessa pessoa, que de repente decide nos jogar na cara nossa insignificância!!! Ah, que sujeira!!!

Lembro que os chifres me pesaram menos do que o ódio mortal que passei a sentir. O tempo foi passando e os chifres me eram leves e o ódio, pesado. Só consegui me livrar do ódio com muita oração. E quando consegui, passei a correr do ódio como o diabo da cruz. Hoje em dia prefiro demorar mais para esquecer alguém do que nutrir raiva pela pessoa. Logo que sinto um começo de raiva já desvio o pensamento para não ficar amarrada naquele mal-estar. Demora mais pra esquecer, porque a tendência é amolecer com o "cabra" e perdoar. Mas é só manter a cabeça no lugar que depois de um tempo some o ódio, some o chifre e sobra a experiência.

Mas ainda há mais um obstáculo a ser transposto: o "pé atrás" com o próximo "amor". O bom é que Deus nos criou com um mecanismo mental que nos faz desligar da desconfiança quase que completamente. Por isso mesmo todos os seres humanos são susceptíveis a caírem no mesmo golpe inúmeras vezes. É que o instinto de confiança (que já nasce com a gente, já que nos entregamos ao "colo" de tantos desconhecidos, voluntária ou involuntariamente) sempre fala mais alto. E nesse ponto até que é bom, porque o coração "bobo", consegue se apaixonar novamente.

Existe uma coisa boa na decepção: eu, pelo menos, sempre vejo nela o marco para começar uma nova fase, e sei que um dia vou dar graças a Deus disso ter acontecido. Com o passar do tempo (que só Deus sabe quanto), acabamos olhando para aquela pessoa como uma ilustre desconhecida, já que a paixão não só deixa o amado mais bonito, como mais próximo do coração - por mais distante que ele se coloque, física ou emocionalmente da gente.






Aquilo que ninguém fala

Quando sento e paro para pensar em tempo perdido, sempre penso no porquê de ninguém ter me ensinado aquilo que demoro tanto tempo para perceber.

Dizem que as pessoas falam mas que a gente não presta atenção. Eu até concordo - em parte. Nem tudo o que a gente escuta faz sentido naquele momento. Mas há outras coisas que ninguém fala mesmo.

Por exemplo: ninguém nunca me ensinou a "cobrar" as pessoas. A falar sobre dinheiro de uma forma natural. Sempre levei a pior em questões de negócios, um pouco por achar que a gente nunca deve querer levar vantagem, e outro pouco por ver esse assunto com a reserva que a sociedade nos coloca.

A igreja católica é dúbia: Primeiro diz que é mais fácil um camelo passar no buraco da agulha do que um rico entrar para o reino dos céus. Depois, em evangelho clássico, nos mostra que aquele que multiplica os "talentos" - sinônimo de dinheiro no texto - é o melhor visto aos olhos de Deus. O Padre fala para a gente entender talento como divisão de conhecimento, mas é mentira. O texto é bem claro: Jesus deixou uma moeda com cada um. Um enterrou, o outro gastou e o outro usou para fazer dinheiro. E o último foi o mais reverenciado. Quer dizer que se alguém me der cem reais para guardar e eu gastar para comprar cerveja e revender, mesmo correndo o risco de perder tudo, Deus vai gostar mais de mim? Estranho, né? Acharia correto fazer isso com o consentimento do dono da grana, mas sem o consentimento, discordo do Padre. Segundo esse conceito, os banqueiros são os maiores benfeitores do universo.

Dinheiro é mesmo um assunto reservado. Quando um amigo arruma um emprego novo, só comenta se vai ganhar bem ou mal. Ou o suficiente. Valores, em si, nunca falam. Muitos casais se unem e se separam por motivos econômicos. Esse assunto é visto como algo proibido, então só no dia-a-dia é que vão confrontar os hábitos e muitas vezes já é tarde para perceber que não combinam. Já estão cheios de dívidas e compromissos. Tudo porque não conversaram sobre hábitos econômicos antes do casamento. Se um é perdulário demais e o outro econômico demais, é quase certo que o relacionamento vá pro buraco. Por mais amor que exista entre os dois. Mas se alguém levantar essa questão, corre o risco de ser rotulado como "interesseiro", "pão duro", "mercenário" ou até mesmo "frio e calculista, sem coração".

Outra coisa que nunca aprendi: a saber que há homens que se aproximam da gente porque são gays e querem disfarçar a sexualidade, andando acompanhados por mulheres. Hoje em dia me parece uma coisa boba de saber, mas passei muitos anos na ignorância desse fato. Pensando em não ser preconceituosa e tirar conclusões precipitadas, esperava ver para crer. Até que chegou um dia em que um deles me disse que há certas coisas que são óbvias. E se ele mesmo estava me dizendo isso, quem era eu pra discordar?

Enquanto isso, por aí, muitos andam conquistando e despedaçando os corações de donzelas com olhares que só servem para iludi-las. Isso é golpe baixo, maldade. Mas existe muito por aí. E é uma coisa que procuro ensinar para minha sobrinha desde pequena. A não ser vampirizada por gays. Pois nesse ponto, costumam ser muito egoístas.

Há muitas coisas na vida que não nos são ditas. Na hora da escolha da profissão, não nos falam sobre a estressante rotina de trabalho, as horas e horas fechadas em escritório, a competitividade do colega de trabalho, as cobranças.

Sempre achei que quando saísse da faculdade teria que ser expert no assunto, até descobrir que isso é uma bobagem. A gente sai sabendo muito pouco, e erra muito o tempo todo, mesmo depois de anos e anos de experiência. Os tais especialistas não são tão especialistas assim, e que muitos nomes são dados às pessoas, mas não passam de nomes. De alcunhas. De patentes. E uma alcunha não passa de burocracia. Geralmente não significa nada.

Há muitos profissionais que não cursaram faculdade que são muito mais competentes do que os magistrados. Essa constatação é combatida pelos estudiosos, mas é pura realidade. Outro dia achei graça quando uma pessoa desdenhou de um acupunturista chinês, por não ter curso de Medicina. Ora ora, foram os chineses que descobriram a técnica, e agora a burocracia quer tirá-los fora do exercício da profissão!?! Parece até piada, mas muita gente nem fica vermelha quando fala isso. Porque estão amarrados ao diploma.

A vovó mandava tomar chazinho pra gripe, e o médico desdenhava. Atualmente, nos labotarórios da Unicamp fazem mil experiências e gastam rios de dinheiro para descobertas incríveis: é bom tomar chazinho! Mas então a vovó estava certa? Nãaaaoooo... vovó era "empírica".....

No curriculum a gente não põe nossas características pessoais, como caráter, disponibilidade em ser amigo, gosto pelo ensino, nada disso. A gente só põe cursos e experiência profissional. Às vezes temos que por fotos, e essas também mostram muito pouco sobre a pessoa que somos. O ser humano mesmo, não aparece ali. Apenas os enfeites que conseguimos tecer sobre nossa trajetória pessoal contam pontos. O diploma que compramos a prazo, e pouco mais do que isso. Não é de se estranhar que nas empresas haja tanto problema de convívio e de doenças do trabalho. É porque o ser humano tem que se esconder de si o tempo todo, e isso dói muito mesmo, não tem jeito.

De bem com o Zezé

A voz do Zezé di Camargo sempre me irritou. Não que ele não seja um bom cantor. Eu sei que é. Mas é porque a maioria dos fãs do Zezé tem a péssima mania de ouvir o CD bem alto, dezenas e dezenas de vezes seguidas. Quando não, encasquetam na mesma música direto.
Foi por isso que os cobras do marketing transformaram "É o amor" em Sazon. Realmente "mexe com a cabeça".

Lá perto da Barão de Itapetininga tem uma doceria que fica ao lado de uma loja de discos. De tanto ouvir o Zezé, a moça do caixa pediu demissão. O salário nem era tão ruim, mas o preço de ouvir o mesmo disco tocando o dia todo, não compensava.

O Zezé me diverte. Ele berra pra caramba, fica até vermelho, e é o único cantor que consegue gritar mais alto do que as fãs histéricas. O Luciano, pra compensar, fala baixinho. Talvez porque no fundo saiba que se alguém se atrever a gritar tão alto quanto o Zezé, ainda por cima ao mesmo tempo, corre o risco de ser linchado.

Hoje entrei para saber quais são as mais pedidas da Nativa FM e lá está o Zezé ocupando o primeiro lugar. Também ocupa outra posição no ranking entre as dez mais. Ele é um cara bacana. Acreditava no Lula e chegou a doar uma fazenda em prol do social. Depois do escândalo do mensalão saiu na Veja falando que "políticos nunca mais". Apesar de endinheirado, continua ingênuo, como a gente. E talvez aí esteja seu charme.

Depois de assistir o filme sobre sua saga, comecei a gostar um pouco mais dele. E um dia, enquanto assistia o programa do Faustão, na dança dos famosos, descobri que suas músicas ficam muito bem quando viram forró.

Zezé é um autor incrível. Pena que use esse tom para cantar, porque se não gritasse mais que suas letras, muitas pessoas que não o admiram passariam a reverenciá-lo por suas composições de alta criatividade e sensibilidade.

"Dois corações e uma história" não é dele, mas tem uma letra linda e um arranjo bacana. Nessa música, Zezé não atravessa. É gostoso prestar atenção às letras das músicas. As do Leonardo são engraçadas. As do Zezé, apaixonadas. E assim a gente vai tirando algum proveito daquilo que somos obrigados a escutar no rádio, porque hoje em dia, haja jabá para compor a programação. Wanessa di Camargo, sua sucessora, não me deixa mentir. "Abraça-me" está tocando há mais de um ano sem parar. Será que as pessoas gostam tanto assim dessa música?

Em que mundo você mora?

Nessa noite fiquei com insônia e comecei a refletir sobre generalizações.

- Esse mundo é uma merda - dizem alguns.
- Hoje em dia, ninguém quer mais nada com nada - dizem outros.
- Carnaval é bebedeira e baixaria.

Será?

Comecei a navegar pelas páginas dos meus amigos do orkut e a focar nas diferenças gritantes entre eles. Sempre tive essa característica, de ter amigos muito diferentes entre si, o que me dificultou muito as saídas em grandes turmas. Um é árabe, o outro judeu, o outro baladeiro, o outro super católico e assim vai juntando um monte de gente que tem pouco papo entre si, e quando acabava reunindo todos num mesmo ambiente, tinha sempre alguém muito desconfortável.

Mas hoje estava olhando o que meus amigos andam fazendo no Carnaval. Enquanto alguns coloriram as páginas com alas de Escolas de Samba, outros proclamaram a "morte ao ziriguidum". Enquanto alguns morreram de sambar na avenida, outros foram viajar e pensaram que quem ficou em São Paulo estava mofando em casa. Enquanto a Bel se mata para tentar tirar o lixo da rua e pintar as calçadas e as fachadas com flores, outros não estão "nem aí para a hora do Brasil", porque acham que esse país não tem mais jeito mesmo. Alguns são muito românticos, outros muito pegadores, outros variam de comportamento mais do que as fases da lua.

É impressionante como a gente pode viver num mesmo bairro a vida inteira, ter até o mesmo grupo de amigos e viver em mundos tão diferentes. Isso porque nossa natureza é distinta, nossos anseios também, nossa forma de ver o mundo é completamente outra...

Ontem estava vendo um programa onde arquitetos falavam sobre os encantos da profissão, e diziam que para ser um grande arquiteto tem que ter visão artística, ser criativo, amar a beleza e ter olho clínico. Então um deles entrou numa grande construção e observou encantado as formas, as cores e a luz. Já um camelô entraria ali e repararia apenas se algum segurança iria barrá-lo e se haveria algum cliente potencial para seu produto. Cada pessoa anda pela vida com um interesse, passando por um momento, mesmo tendo a mesma idade e circulando pelos mesmos lugares. E isso é bom.

Por isso os perigos das generalizações. Enquanto alguns se acabaram de tanto beber e beijar nesse Carnaval, outros aproveitaram para conhecer lugares novos. Alguns sentem prazer em dançar, outros em ficar em casa. Alguns jovens já tiveram dezenas de namorados, outros mais velhos tiveram poucos - alguns até, nenhum. E por mais que a gente note que as pessoas andam por aí meio sem coração, muito apressadas e pensando exclusivamente em dinheiro, isso nunca é uma regra. Toda regra tem uma exceção, mas num mundo de bilhões e bilhões de habitantes como o nosso, nem é possível falar sobre regras. Cada um vive no seu mundo, porque ele é grande, e há espaço para todos.

E assim nunca devemos tentar convencer alguém de alguma verdade absoluta. A verdade para mim é uma, e amanhã pode ser outra. "Tudo muda o tempo todo no mundo" - até a gente. E isso é bom, porque, por mais que o mundo hoje pareça uma droga, amanhã pode parecer o melhor lugar do mundo pra gente viver. Ou quem sabe até hoje mesmo, caso a gente mude por dentro, antes do futuro chegar.

Carnaval

Carnaval é tudo de bom. É tempo de dias livres e, nessas horas, conseguimos sair da rotina e pensar na vida de um jeito diferente.

É permitido se vestir de um jeito mais solto, cantar bobagens, sorrir, vestir fantasias e vislumbrar a possibilidade de ser uma pessoa mais alegre. De fazer outras coisas, trajar outras roupas, cantar músicas sem sentido.

O Carnaval fala pro povo que a vida só vale a pena quando é alegre. E quando somos livres para sermos quem quisermos, metade do caminho da felicidade já está trilhado.

Não escrevo Carnaval com letra minúscula, como é o correto, pois aprendi que deveria ser escrito assim por ser uma festa pagã.

E como não acho que a alegria, a música e os sorrisos ofendam ao Criador, escrevo Carnaval sempre com letra MAIÚSCULA, apropriando-me da liberdade que Deus me concedeu.

Feliz CARNAVAL a todos!!! Muitos sorrisos, paz e alegria.