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Torresmo na Madrugada

Essa música é bem "SAMPA".

aperte o Play:
Rogerio Santos - Torresmo na Madrugada

Freguesia do Ó

Largo da Matriz, Freguesia do Ó

Aqui segue uma homenagem do amigo Rogerio Santos ao lindo bairro de São Paulo:
(aperte o PLAY)

são paulo porvir


São Paulo, se desarma de teus rótulos
e vem passear com a gente.
Desaperta a gravata, tira os óculos,
vamos brincar de Clark Kent!

Cultivar poderes de super-homens
na cidade que nunca dorme,
plantar no coração do povo
a alegria do novo.

São Paulo, não precisa ser bandeirante,
apenas mais tolerante.
Ninguém te obriga locomotiva,
um tantinho só mais emotiva.
São Paulo, não carecia tanta pujança,
um matiz de esperança que fosse.

Depois,
dorme
pela cantoria da Cantareira
e as promessas da Serra do Mar
aconchegada,

e sonha com o porvir.

Por Paulo D'auria

são paulos


São Paulos, são joãos e Josés
São Marias, são Claras e das Dores
São cidades armadas de concreto e aço
Nas vilas Marianas, Santanas, Moemas

São cidades-colagem de aglomerado e papelão
Sob as pontes das marginais
Automóveis de mil cavalos
Carroças movidas a gente

São Paulo esparramada subindo a Cantareira
Descendo até o mar
São Paulo amontoada subindo até o céu
E sob o metrô da Sé
Uma estação secreta para o inferno

Cidade que já morreu
E outra que ainda nem nasceu
São Paulos que eu amo
Todos os dias depois
De jurar eterno ódio

Seus homens de terno no asfalto ao verão
Mendigos ao relento nas madrugadas de inverno
As morenas da zona norte
As madames da zona sul
Orgulho na zona leste
Guaranis na zona oeste

Zona, zona, zona e esperança
Esperança, esperança, esperança e espelunca
Locomotiva desgovernada do Brasil
Porta do mundo, cidades mil

São Paulo tem mil cantos
São Paulo tem professor de esperanto
Se você quer falar javanês, vá a São Paulo
Se você quer falar cantão, vá a São Paulo
Se você quer falar baianês, vá a São Paulo
Se você quer falar ao coração, vá a São Paulo

Do Jaraguá tem vista
Para a Paulista
Na Paulista
Ninguém enxerga ninguém

Buzinas e mundo cão
Subindo e descendo a Consolação
Eu me perco na multidão

Mas lá no fundo um cocoricó, um Rincão
Eu nunca me sinto só
Na matriz da Freguesia do Ó

São Silvestre


Já é assunto do ano passado (para um paulistano que se preze já considerado "antigo") mas não me sai da cabeça: a corrida.
Nessa hora a maioria já deixou a cidade mas, quem fica, tem a oportunidade de presenciar um dos eventos mais interessantes da face da terra: a São Silvestre.

Não sei se a emoção maior é para quem corre ou para quem assiste. Aos que correm, ganhar as ruas a pé desafiando os próprios limites e sentindo o impacto do asfalto sob os pés, deve ser uma experiência de superação pessoal muito intensa. Sentir-se solto pela rua podendo imprimir o passo que quiser, na velocidade que julgar apropriada, alheio às placas de contra-mão, ao relógio, ao compromisso. Sentir o cabelo ao vento e ainda ser ovacionado pela platéia que aplaude e grita - ufa, quanta emoção! Chegar e ganhar uma medalha. Independente de quanto tempo durou sua jornada - o importante é que chegou - parabéns!

Assistir é estar preso em liberdade. Preso porque nunca conseguimos ver tudo, tem sempre gente na frente e quando olhamos para um lugar deixamos de enxergar o que está no outro. É tanta coisa interessante passando na nossa frente ao mesmo tempo que dá até aflição.

Aquela música (igualzinha a da TV - clique para ouvir "Carruagens de Fogo") dá um toque especial e não são poucos os que choram ao olhar tantas pessoas aglomeradas em passos e expectativas passando pela avenida da vida.

Muitos dos corredores são os mesmos que trafegam naquela avenida durante o ano e, naquele momento, vêm despidos de suas armaduras permitindo serem vistos de verdade. São paulistanos e turistas passando com o mesmo uniforme ou com a fantasia que quiserem. Ali cada um passa a seu modo. E quanta gente passa...

Penélope Charmosa acenando, um homem correndo de costas, o outro equilibrando um vaso na cabeça, uma mulher berrando o nome de Jesus, um robô, Bin Laden, Obama. O Corpo de Bombeiros cantando, um casal correndo e se fotografando ao mesmo tempo. Senhores suados quase não conseguindo chegar. Jovens andando exaustos, gente que chega inteira e outros que param no meio do caminho. É São Paulo passando pela Paulista.

São tantos sonhos na avenida, tantos sorrisos e aflições, tantas preces. Brasileiros e estrangeiros que naquele momento têm pela frente o mesmo caminho (mas que cada um escolhe trilhar de um jeito). Alguns de olhares fixos, outros saudando aos que assistem - às vezes focando em paisagens, outras no nada. São tantas pessoas diferentes e iguais - pais e mães e filhos. É gente que passa sem parar, gente que não acaba mais. São palmas e olhares admirados. A quem assiste fica a possibilidade de correr também ou de continuar só olhando, ou de no próximo ano tentar ser a Penélope ou o Obama. De fotografar os corredores, de ajudar a recolher o lixo para que ninguém se machuque. De oferecer água, sorrisos, aplausos e lágrimas.

Fica o céu e a cidade oferecendo luz e caminho para o Ano Novo. Fica o exemplo de esforço e de alegria de cada um que, a seu modo, ajuda a compor uma das festas mais bonitas que nosso Brasil conhece.

Fica aqui o convite para quem estiver em São Paulo no último dia do ano: não deixe de ir pra Paulista ou para qualquer trecho da rota da corrida e ajude a compor esse lindo evento, que nada mais é do que o desfile dos homens passando pelas ruas da vida.


Deixo aqui poemas de colegas componentes dos Poetas do Tietê sobre a São Silvestre:


Na via advém, mas se não vem, adivinha?

(Guilherme Montoia)

O que é o que é que:
entre erres e esses
de ruas e pedestres
homens e mulheres
não querem perder?

Tempo, tempo, tempo...

Parece com um teste,
são novatos e mestres
nativos campestres
com trajes e vestes
do mesmo porquê.

Passa tempo, passa tempo, passatempo...

E no último dia
que o ano padece
São Paulo conhece
com data de prece
o que vai pra tevê.

Há tanto tempo, há tanto tempo, há tanto tempo...

Que quando é hora de ir,
mesmo que chova canivete
só então se percebe
como são todos silvestres
quando querem correr.

Mas daí...

Falta tempo, falta tempo, falta tempo...


estúpida são silvestre

(Paulo D'Auria)

É o início,
Só há o verbo
E o caos.

Deus ainda não jogou os dados, as fichas,
Não girou a roleta do tempo.

Não há nada,
Ainda não foi dada a largada
Desta estúpida são silvestre.

Uma nova chance, passarinhos,
Desta feita romperemos a fita da vitória
Ou mais uma vez nos perderemos
Pelo caminho?

a mais querida

Era a maior prova de amor. Deixar de ver o jogo decisivo e sair com ela. Já havia pisado na bola muitas vezes e precisava se redimir. Prova maior que essa, impossível.
Não valia ir a um daqueles bares que têm telão. Senão os olhos não iriam se desgrudar do jogo e a amada, magoada, teria certeza absoluta que em sua vida o futebol vem primeiro que tudo.
Foram então ver o pôr-do-sol. Romanticamente lindo. Aquela bola de fogo enorme escondia-se aos poucos, e lá do outro lado despontava ninguém menos do que ela: a lua cheia.
Os fogos de artifício saudavam sua chegada. Ele sorria. Ela, feliz da vida, aconchegada nos braços do amado, protegia-se quando ouvia bombas pra todo lado.
De lá foram pro restaurante. A cerveja descia redonda. Os olhos brilhavam. Na pista de dança bailavam em círculos, reforçando a aliança.
Na volta pra casa, muitos beijos estalados. Ela, feliz da vida, dessa vez acreditara ser a dona exclusiva da atenção de seu querido. Dessa vez sim. Na cabeça dele só ela – e mais nada. Mas estava redondamente enganada.

Sorte do Dia


Não prestei atenção mas, na certa, levantei com o pé esquerdo.
De domingo bem cedo, sair da cama é complicado.
Não que ainda estivesse com sono. O fato é que a única coisa interessante daquele dia seria o jogo do Palmeiras (lá pelas quatro).
Até lá, todo mundo enrolaria, apostaria a sorte e tomaria umas.
Banho e café preto (de gole rápido pra não ver a cor do adversário).
Café com leite não daria, era praga daquele dia.
Já sei! Pra dar sorte usaria a camisa do coração, meio por baixo, tá certo - porque o patrocinador já não era mais aquele.
E o dia foi se arrastando e eu me arrastando nele. Para o almoço chegou a família, com manjar de sobremesa.
A feijoada esquentada do sábado arrancou risadas do cunhado alvinegro, talvez pela cor, talvez pelo focinho.
O árbitro corrupto do ano passado trouxe o tapetão à tona. Toalha manchada, Mancha a postos, os Gaviões fiéis cantando e vibrando enquanto os palmeirenses rogavam pela salvação do time.
Hora do jogo, uma surpresa: o segundo uniforme dava o ar da graça e isso não era bom sinal.
Sinal da cruz, aperto de mãos. Moeda da sorte a favor do adversário.
Na primeira falta o atacante sai de maca e a torcida, com a macaca, soltando fumaça.
Aquele uniforme dava azar, eu sabia! Alguns ataques, muitas faltas, ene escanteios e nada.
A culpa é do narrador, parece estar morrendo! Trocar de canal seria ideal.
Agora sim! Agora vai! Aqui o gramado é mais verde e o narrador menos gambá.
Dois minutos depois o atacante adversário desce com tudo e bate pra dentro, encaçapando bola, goleiro e zagueiro. Ah não... parece praga!
Que nervoso! Vermelha de desgosto, levanto pra lavar o rosto e acalmar o ânimo. Ainda dá!
Mal levanto da cadeira dou as costas e meu time, raçudo, nem deixa o outro comemorar o gol que acabara de marcar. Tome outro goela abaixo pra ver se aprende com quem está lidando!
Olha lá, eu sabia! Era eu que estava dando azar! Foi só me levantar que o time marcou!
E assim, de longe, escutei a virada da vitória. E enquanto fazia pipocas comemorei o esperado título, que só fui assistir na reprise do jornal das dez.

Sampastel

São Paulo, cidade incrível
Tanta coisa imperdível
É difícil descrever.

Mas talvez seja a comida
Nossa atração preferida
Para a hora do lazer.

A que mais se visita
É uma massa frita
Com recheio variado.

É bem fácil encontrar
Basta na rua andar
Dia útil ou feriado.

Lá na feira da esquina
O pastel predomina
Como o lanche mais amado.

Bastam duas moedinhas
E em duas viradinhas
Tá prontinho e arrumado.

Por ser tão popular
A alguns pode causar
Certa indignação:

- Mas olha, quanta gordura!
- Dane-se, que gostosura,
nem por isso vou morrer.

- É preciso cuidado
Pode estar contaminado,
e aí você vai ver!

- Não se preocupe comigo,
Pois o japa é meu amigo,
não há de me envenenar.

E assim, toda semana,
Mesmo quase sem grana,
O pastel eu vou comprar.

Apenas ao mastigar,
Um cuidado hei de tomar,
Se estiver muito fervente.

É que a primeira mordida,
Pode ser bem dolorida,
Se o ar estiver quente.

- Faz mais um pra viagem,
Desgraça pouca é bobagem,
Nada me faz tão contente!

E de brinde, no saquinho
Mais um mini pastelzinho
Vem de graça pela frente!

Injustiça

O recheio teima em ficar

só pra um lado da metade mas não

na parte

que me cabe.

Hoje não

Vinha de longe a decepção:
O silêncio, um não
o sumiço.
A desculpa no excesso
de compromisso.
Perdi sono, alegria
o sorriso.
Foi-se até a vontade, o gosto
de comer um pastel
antes do almoço.

Piscina aquecida

Sempre quis saber

como reconhecer

o pastel que mergulha

misturado com outros

lá no meio da gordura.

Então tomei coragem:

perguntei ao japonês

como fritar os pedidos

todos de uma vez.

Repare bem

preste atenção:

No cantinho há desenhos

funcionais e divertidos

marcando as diferenças

dos sabores preferidos.

Mas é só pra quem tem olhos

pra quem presta atenção.

Especiais são todos

diferentes, é claro

mas feitos conforme

o gosto de cada um.

Necessidade

Desemprego.
Lanche na rua sai barato - pensei.
Sem rumo, exausta pela dúvida.
Dinheiro no fim
Futuro incerto.
Na barraca de pastel,
mordo o camarão comprado a preço de banana.
Ao meu lado, mulher rude, cara dura.
O filho, franzino, devorando a única refeição do dia.
Algumas moedas ganhas no grito silencioso da dor.
Meu pastel não desce mais. Dor no peito.
Eu, que nem moedas ganharia ao longo do dia.
Ela mãe, eu nem isso.
Sigo sem norte.
Ela forte - eu, nem isso.

Volúpia

Três, pra ser exata. Todos meus.
Comer na barraca não ficaria bem.
Dois favoritos e um pra experimentar.
Maravilha!
Saco de papel, saco plástico,
alguns guardanapos.
Com sorte rascunhos; sem sorte - lixo.

Um intruso no saco, sabor desconhecido.
Corro pra casa. No caminho, o encontro:
Família, novidades, doenças.
Sol a pino, cabeça cozida.
Saco fechado, pastéis abafados.
Livre enfim.

Aperto o passo, abro a porta, abro o saco.
Murchos, frios, molhados, cozidos.
Cheiro misturado, recheio grudado.
Já não eram pastéis, nem tortas
Nem crocantes.
Quatro pra um, quatro e nenhum
Que insenstez - melhor um por vez.