Já é assunto do ano passado (para um paulistano que se preze já considerado "antigo") mas não me sai da cabeça: a corrida.
Nessa hora a maioria já deixou a cidade mas, quem fica, tem a oportunidade de presenciar um dos eventos mais interessantes da face da terra: a São Silvestre.
Não sei se a emoção maior é para quem corre ou para quem assiste. Aos que correm, ganhar as ruas a pé desafiando os próprios limites e sentindo o impacto do asfalto sob os pés, deve ser uma experiência de superação pessoal muito intensa. Sentir-se solto pela rua podendo imprimir o passo que quiser, na velocidade que julgar apropriada, alheio às placas de contra-mão, ao relógio, ao compromisso. Sentir o cabelo ao vento e ainda ser ovacionado pela platéia que aplaude e grita - ufa, quanta emoção! Chegar e ganhar uma medalha. Independente de quanto tempo durou sua jornada - o importante é que chegou - parabéns!
Assistir é estar preso em liberdade. Preso porque nunca conseguimos ver tudo, tem sempre gente na frente e quando olhamos para um lugar deixamos de enxergar o que está no outro. É tanta coisa interessante passando na nossa frente ao mesmo tempo que dá até aflição.
Aquela música (igualzinha a da TV -
clique para ouvir "Carruagens de Fogo") dá um toque especial e não são poucos os que choram ao olhar tantas pessoas aglomeradas em passos e expectativas passando pela avenida da vida.
Muitos dos corredores são os mesmos que trafegam naquela avenida durante o ano e, naquele momento, vêm despidos de suas armaduras permitindo serem vistos de verdade. São paulistanos e turistas passando com o mesmo uniforme ou com a fantasia que quiserem. Ali cada um passa a seu modo. E quanta gente passa...
Penélope Charmosa acenando, um homem correndo de costas, o outro equilibrando um vaso na cabeça, uma mulher berrando o nome de Jesus, um robô, Bin Laden, Obama. O Corpo de Bombeiros cantando, um casal correndo e se fotografando ao mesmo tempo. Senhores suados quase não conseguindo chegar. Jovens andando exaustos, gente que chega inteira e outros que param no meio do caminho. É São Paulo passando pela Paulista.
São tantos sonhos na avenida, tantos sorrisos e aflições, tantas preces. Brasileiros e estrangeiros que naquele momento têm pela frente o mesmo caminho (mas que cada um escolhe trilhar de um jeito). Alguns de olhares fixos, outros saudando aos que assistem - às vezes focando em paisagens, outras no
nada. São tantas pessoas diferentes e iguais - pais e mães e filhos. É gente que passa sem parar, gente que não acaba mais. São palmas e olhares admirados. A quem assiste fica a possibilidade de correr também ou de continuar só olhando, ou de no próximo ano tentar ser a Penélope ou o Obama. De fotografar os corredores, de ajudar a recolher o lixo para que ninguém se machuque. De oferecer água, sorrisos, aplausos e lágrimas.
Fica o céu e a cidade oferecendo luz e caminho para o Ano Novo. Fica o exemplo de esforço e de alegria de cada um que, a seu modo, ajuda a compor uma das festas mais bonitas que nosso Brasil conhece.
Fica aqui o convite para quem estiver em São Paulo no último dia do ano: não deixe de ir pra Paulista ou para qualquer trecho da rota da corrida e ajude a compor esse lindo evento, que nada mais é do que o desfile dos
homens passando pelas
ruas da vida.
Deixo aqui poemas de colegas componentes dos Poetas do Tietê sobre a São Silvestre:
(Guilherme Montoia)
O que é o que é que:
entre erres e esses
de ruas e pedestres
homens e mulheres
não querem perder?
Tempo, tempo, tempo...
Parece com um teste,
são novatos e mestres
nativos campestres
com trajes e vestes
do mesmo porquê.
Passa tempo, passa tempo, passatempo...
E no último dia
que o ano padece
São Paulo conhece
com data de prece
o que vai pra tevê.
Há tanto tempo, há tanto tempo, há tanto tempo...
Que quando é hora de ir,
mesmo que chova canivete
só então se percebe
como são todos silvestres
quando querem correr.
Mas daí...
Falta tempo, falta tempo, falta tempo...
(Paulo D'Auria)
É o início,
Só há o verbo
E o caos.
Deus ainda não jogou os dados, as fichas,
Não girou a roleta do tempo.
Não há nada,
Ainda não foi dada a largada
Desta estúpida são silvestre.
Uma nova chance, passarinhos,
Desta feita romperemos a fita da vitória
Ou mais uma vez nos perderemos
Pelo caminho?