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Estou farta de poesia

Mas continuo achando que rimas cabem bem em histórias.
Histórias contadas sem casamento verbal são histórias mancas. Sem graça.
Por mais interessante que seja uma história, ela não deve ser longa. Nem falar coisas óbvias com riqueza de detalhes. Nem deixar tudo tão no ar que não faça sentido algum. Uma história boa tem o tamanho certo. Tem o sentido que encanta e também pode divertir. Uma história boa deve  necessariamente fazer sentido a quem conta. Mas não um sentido qualquer ou óbvio. Deve fazer 'todo o sentido'.
Isso não significa dizer que quem conta deve 'sentir' a história. Ela pode ser decorada, ou encenada, mas o que não pode faltar é o tom certo. Se o contador sentir é um ponto a mais. Mas a entonação é necessariamente o grande tchans da parada.
Também a postura do contador de histórias diz muito a quem ouve. O silencio fala mais que um monte de explicaçõezinhas bobas, do tipo trelele. Não importa que o contador de histórias não tenha experiência. O que importa é que ele conte algo tão longo quanto sua capacidade de interpretação. Se é iniciante, que aprenda a declamar um verso curto. Não adianta ficar dez minutos sofrendo, se enrolando e contando algo que o escutador já sabe onde vai dar.
Também histórias do tipo "lá, naquela vila", "nasceu um baobá", também já estão muito desgastadas... As de suspense são o must. As de humor não podem ser debochadas. As de amor não podem ser chorosas, e sim maduras. Mas não uma maturidade com desencanto. Uma maturidade de descoberta de novos encantos, em algo aparentemente desencantador.
E falando nisso, essa brincadeira com palavras dá ânsia. Jogar com os opostos, com os sons repetitivos. Tudo muito óbvio. "O gato no mato" parece óbvio, mas não é. O gato no mato é uma rima pobre, mas com riqueza de sentido. E não é um duplo sentido. Se fosse duplo sentido seria obsceno.
Fazer da contação de histórias uma peça de teatro até que é interessante, mas geralmente o contador usa o descompromisso de ser um contador e perde o clima da encenação. Aí começa a falar bobagens no meio, a se perder, a fazer cem vozes para os mesmos personagens... Enfim...
É preciso escolher uma linha e por ela seguir. É preciso saber segurar uma intercorrência e voltar de onde parou, numa boa. Entreter o ouvinte. E fazer com que o próprio ouvinte saiba onde você estava. Histórias boas não podem ter infantilidade explicativa, nem excesso de rimas, que desconcentram. Devem ter perguntas no meio, mas não perguntas que podem ser respondidas de maneira errada. O ideal é fazer perguntas que não possam ser respondidas. Porque perguntar: Quem estava lá? Era o leão? dardiiiiiiiiiiiiiiiiii~~~.......................... O contador de histórias que escolher um acessório deve segurá-lo muito bem. Misturar conversa de criança com conversa adulta e querer fazer com que ambos os públicos entendam é um desafio imenso. Geralmente os adultos vão achar bobo e as crianças só vão lembrar de uma ou duas brincadeiras ali do meio.
Quando eu assistia o Bambalalão nunca entendia o final da história, que entrava por uma porta e saía por outra que eu não sabia onde era. Talvez por isso eu tenha tanto interesse em ouvir pessoas contando histórias. Acredito que a falta de nexo já se dava naquele tempo, ou as histórias eram muito maduras para mim, ou eu já era muito crítica para a minha idade. Mas não recordo de conseguir tecer críticas, me recordo de não entender absolutamente nada todos os dias. Ficava esperando o dia seguinte e o outro e o outro... Eu achava a Gigi uma mulher do outro mundo, mas talvez fosse porque ela falava uma língua que eu não entendia.

Passados  tantos anos, com milhares de histórias e formas de expressão, acredito que o único desafio ainda vigente seja fazer qualquer coisa bem feita. Hoje, fazer mil coisas é pros idiotas. E fazer direito para os evoluídos.

Formatura das Contadoras de Histórias

Saudade, o termômetro do bem querer


Estou com saudades de minhas amigas do curso de contação de histórias.
Diana, Jô, Rita, Ana, Élcita, Olga.
A gente se conheceu no segundo semestre do ano passado, e juntas tecemos histórias por escrito e também em nossos corações.

Um de nossos exercícios era contar a mesma história, cada uma a seu modo.

A Jô, poética. Diana, envolvente. Rita, alegre, escandalosa. Élcita, delicadamente poderosa. Ana Maria, emocionadamente debochada. A Olga, "cantando histórias", com sua voz de veludo. E eu, procurando lógica nos contos de fada.

Nosso encontro foi doce, marcante, engrandecedor.

Entre nossos exercícios obrigatórios estava criar histórias de amor (algumas constam da lista desse blog, como "Caixa de Estrelas" e "a Menina e o Tempo"), histórias de luto, de desajuste. E enquanto falávamos de histórias, de sonhos, misturávamos as vivências de umas com as outras, o que nos unia ainda mais numa amizade fraterna e verdadeira.

Foram dias inesquecíveis. Ali, não havia espaço para o silêncio. Nossos encontros eram esperados não como uma obrigação, mas como um compromisso deliciosamente inadiável.

E acredito ser esse o termômetro da amizade verdadeira: UM COMPROMISSO, DELICIOSAMENTE INADIÁVEL.

Saudades de vocês, meninas. Sem vocês, nesse ano o inverno ficou mais frio.

São Paulo e o Imperador da China




"O louco é como uma folha seca em dia de ventania.
É romântico, gosta de magia e prefere a incerteza da luz de vela ao ato inseguro de caminhar no escuro.
O louco é ousado, livre e solto.
E como um alquimista, vai desenhando seu próprio caminho, sem dar satisfação sequer à sua sombra.
Ah! Se todos fossem loucos!"

Vocês conhecem o Imperador da China? Não?
Ele é o cara mais bacana que eu já conheci em toda a minha vida.
Ele morava num hospício lá em Pequim. Isso mesmo - num hospício. Justamente por pensar que era o Imperador da China. Mas não era. Porque a China, como vocês sabem, já não tem imperador, há muitos anos.

Ele gostava de morar ali. Com ele, moravam mais uns dois Napoleões, um Elvis, e até mesmo Jesus. Ali, cada um podia ser o que quisesse. Ali, tudo era normal. Tudo era sossegado.
Mas ele não era assim doido, doidão, maluco de pedra.
Também gostava de coisas que todos nós gostamos, como flores, chocolate, desenhar, ver TV.

Não tem gente que nem gosta de chocolate?
Não tem gente que vê disco voador?
Não tem gente que fala sozinha?

Eu encontrei o Chian num dia em que estava lá em Pequim fazendo uma excursão com meus amigos.
Eu acabei me perdendo deles e depois de muito andar, acabei sentando pra descansar num banco, bem ao lado do hospício.
O Chian, que estava passeando com seu monociclo, logo que me viu veio conversar comigo e me perguntou em alto e bom português:

- Você é brasileira, não é?
- Sou sim! Como você adivinhou?
- Ah! Foi fácil! Eu sei de onde as pessoas vêm pelo cheiro.
- Pelo cheiro?
- É sim!
- Quem é você?
- Eu sou Chian, o grande Imperador da China!
(Quando ele falou isso, logo eu percebi que ele era meio maluquinho, mas não falei nada. E ele percebeu que eu percebi, mas também não falou nada)

- Então, se você é o grande Imperador da China, me conta: onde aprendeu a falar português?
- Eu não precisei aprender, eu já nasci sabendo! Nós, loucos, sabemos falar todas as línguas do mundo. As vivas e as mortas. Não precisamos aprender. Já nascemos sabendo.
- Mas, me conta: onde você mora Chian?
- Eu moro aqui nesse castelo!
(falou isso apontando para o manicômio)
- E você gosta de morar aí?
- Gosto sim, aqui é bem divertido. E você? Onde mora?
- Chian, eu moro em São Paulo.
- Em São Paulo? Que legal! E você gosta de morar lá?
- Ah Chian... tem dias que eu gosto, tem dias que não gosto...
- Como assim? Tem dias que gosta, tem dias que não gosta?
- Ah... não sei te explicar... é que lá é um lugar diferente.
- Lugar diferente? Obaaaa!!! Eu adoro desenhar lugares diferentes!
(nessa hora, aconteceu uma coisa incrível: O Chian tirou do bolso, magicamente, uma caixa de lápis de cor e uma folha de papel)
- Pronto! Pode me dizer como é sua cidade?

E agora? Olhando para o Chian, com os olhinhos brilhando, esperando que eu falasse sobre a cidade mais diferente do mundo...
O que falar sobre São Paulo a um menino tão especial?
... já sei!

"Chian, desenhe um horizonte, onde a vista não alcança.
Imagine arte, música e dança.
Um dia poluído, com o céu azul de doer.
As quatro estações no mesmo dia.
Uma cidade subterrânea, que existe, mas não se vê.
Ruas sujas, mas coloridas, de tão floridas.
Desconhecidos conversando e pessoas conhecidas se encontrando por acaso, no meio de uma multidão.
Os cheiros de restaurantes do mundo todo, misturados.
Um gari, recolhendo um jornal do chão e encontrando uma poesia, que conhecia de quando era criança.
Um poeta, que de tanto odiar a cidade, resolveu cantá-la.
Desenhe a pressa. Algo como pessoas subindo escadas-rolantes em movimento.
Shoppings, monumentos, lançamentos.
Grandes eventos.
Enfim Chian... imagine um lugar onde acontece tanta coisa ao mesmo tempo, que a impressão que se tem é que não está acontecendo absolutamente nada."

Chian, maravilhado pela descrição de uma cidade tão diferente, mostra seu desenho:
- É assim sua cidade?

(Após olhar algum tempo para o papel, primeiro com desconfiança e aos poucos, abrindo um sorriso)

- É sim Chian, parabéns! Seu desenho está perfeito! São Paulo é assim mesmo!

"Uma idéia, um ideal, muitos desejos. Incontáveis possibilidades.
Uma cidade que se reinventa a cada dia.
Existem tantas São Paulos que às vezes tropeçamos nelas.
Tantas, que podemos capturar apenas retalhos de algumas
que quando juntas, formam uma.
Somos nós que construímos essa cidade,
ao mesmo tempo em que ela também nos reconstrói."

- Ahhh Chian... agora eu tenho que ir... é que falar de São Paulo pra você me deu uma saudade...
Eu acho que vou voltar pra lá hoje mesmo!
- É mesmo? Você vai pra lá hoje? Jura? Me leva com você, por favor, por favor!
- Levar você comigo? Mas como? Você não tem passaporte, passagem, autorização...
- Ah! Isso não é problema! Eu me escondo no seu bolso!
- O que?
- É!!! Eu me escondo no seu bolso!
- O quê? Se esconde no meu bolso?
(Chian fala baixinho:)

- É!!! Eu me escondo no seu bolso!

(Enquanto falou isso, foi ficando pequenininho, pequenininho... até caber aqui, na palma da minha mão. Olhando pra Chian, escuto ele dizer:)

- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos!
(olho pro alto, e em volta, inclusive para o meu próprio corpo, digo:)
- Nós, loucos, podemos ficar do tamanho que queremos?
(Pego Chian cuidadosamente e guardo, dentro do meu coração)

Foi assim, que eu fiz a maior loucura de toda a minha vida.
Foi assim, que eu trouxe Chian comigo, aqui pra São Paulo.
Vocês querem saber se ele gostou daqui, né?
É claro! Chian, adorou São Paulo. Tanto, que como muitos de nós, nunca mais quis ir embora.
É que aqui, aconteceu uma coisa que nem ele acreditou:

Aqui, ninguém acha que ele é louco.


Autores:

(História original de Luiz Brás, escrita com letras pretas.
A parte em roxo é de minha autoria.
A parte em vermelho é de Geraldo Ramiere
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/gr_sp.shtml
A parte em azul, é de autor desconhecido)


Levemente maluca

Minha tia era louca. Mas não nasceu assim. Teve uma depressão pós-parto e começou a se afastar do mundo, até não falar mais coisa com coisa. Morreu há alguns anos, quase idosa,
sem nunca ter sarado.
Ela falava que quem tomava muito café ficava preto e conversava mil vezes o mesmo assunto. Perguntava alguma coisa pras pessoas e quando elas respondiam, ela comentava a resposta e em seguida fazia a mesma pergunta de novo. E de novo. Aí, quando a gente começava a rir, ela ria também. Quando ela me ligava eu ficava um bom tempo no telefone, até que chegava uma hora em que ela mesma percebia que já era hora de desligar. Eu ficava com pena dela, mas ao mesmo tempo ela me encantava, pois estava sempre de bom humor. Às vezes alguma coisa a deixava injuriada, como por exemplo quando alguém brigava com alguma de suas filhas. Ela gritava, falava alto e depois de um tempo voltava a ficar contente.
Ela xingava os vizinhos. Ficava na varanda de casa e mexia com quem passava na rua. Tinha gente que ficava p. da vida com ela, porque há pessoas que são mais loucas que os próprios loucos e são capazes de se ofender com eles.
Quando minha tia morreu, todo mundo ficou pensando no porquê dela ter tido uma vida tão difícil, e ao mesmo tão fácil, porque depois que ficou doente, nunca mais teve que se preocupar com contas e com as mesquinharias da vida. E eu fiquei pensando se mais louca era ela ou somos nós, que nos enredamos em mil intrigas e picuinhas, a troco de conquistar o respeito dos outros durante certo tempo, porque se for ver, todo mundo fala mal de todo mundo.
Se um é rico e não tem tempo de olhar a mãe, é acusado de coração duro. Se o outro tem bastante tempo mas não pode ajudar com dinheiro, é chamado de vagabundo. Mas o vagabundo e o sem tempo se completam na hora de ajudar alguém. Um cuida (o vagabundo) e o outro banca (o rico). Se disser pro rico dar uma de vagabundo ele vai achar que dá muito trabalho. E se disser pro vagabundo dar uma de rico, ele não se sentirá capaz.
Acho que no fundo Deus faz tudo certo. Enquanto uns servem para prover, outros servem para cuidar. Enquanto uns vêem a parte prática, outros são mais delicados, trazendo uma visão de sensibilidade. Nem dureza nem fragilidade são boas em excesso, então o negócio é valorizar o que cada um pode dar e procurar distribuir as tarefas da melhor forma para todos.
Estava pensando que às vezes é bom ser maluco. Não maluco, louco de pedra. Mas meio doidinho assim, desses que fazem a vida ficar mais leve.
Ontem passou uma italiana de 98 anos, sobrevivente do terremoto, que esperou 42 horas pelo resgate fazendo tricô. E avisou que estava muito triste por ser entrevistada descabelada. Deliciosamente maluca, fez com que todos sorrissem, mesmo naquele panorama de imensa tragédia.
Aqui está o video com ela, e não é difícil entender a razão dela estar viva até essa idade:

Que louco!

Quando minha professora disse para prepararmos uma história de formatura, logo pensamos se deveria ser infantil ou não. Como o horário da formatura e os convidados foram colocados como um enigma, o desafio proposto foi para que escolhêssemos uma história que fosse a "nossa cara".

Ah, que sacanagem... uma história que seja a minha cara? E eu sei lá que cara é essa... Como saber o que combina ou não comigo? Pois mudo de idéia o tempo todo, mudo de opinião, de pensamento... o que hoje eu gosto amanhã pode não fazer nenhum sentido... que história seria a minha cara?

Saí pela Livraria da Vila folheando tudo o que via pela frente, e até gostei de algumas historinhas que li - de pássaros a procura da própria identidade e especialmente de uma que mostrava o dia a dia de uma família, com pais, crianças e bichos de estimação, e cada capítulo era a visão que um tinha do outro. Desse livro eu gostei, pois mostrava diferentes enfoques da mesma situação e esse assunto é sempre interessante e fascinante.

Mas ponderei, só teria dez minutos, talvez não tivesse talento para fazer voz de cachorro, voz de criança. Como não nasci com o dom de imitar, deixei a historinha para lá.

Fui então a uma outra livraria na Fradique Coutinho, uma que é meio sebo, meio ponta de estoque, e tem sempre umas promoções incríveis na porta (livrinhos infantis por 2,00 3,00 reais). Bem, talvez essa livraria já fosse mais a minha cara, uma pelas promoções, outra pela liberdade que nos dá de zanzar e mexer em tudo, sem nenhum vendedor ficar o tempo todo querendo ajudar. E ali achei o livrinho de São Paulo e o Imperador da China, que logo pela capa já me cativou.

São Paulo me deu sorte em um concurso literário, então pus na cabeça que aquele assunto combinava comigo e abri o livrinho, feliz da vida, disposta a gostar mesmo que não fosse lá grande coisa. Mas o livro era legal, interessante, principalmente porque falava sobre um louco. Não sei se o que me cativou mais foi São Paulo ou o louco, mas talvez a deliciosa mistura dos dois juntos.

Não há como morar em São Paulo e não ficar meio louco. Não há lugar no mundo onde haja mais malucos. O final do livro deixava a desejar, mas logo que o comprei já compus um novo final para a história, dizendo que aqui em Sampa ninguém acha que o louco é louco. E pus poesia, e ajeitei de cá e de lá, até a história ficar "louca".

Depois do livro, onde todo mundo adorou a idéia de se sentir um louco em Sampa, pois aqui é lugar de gente diferente, passei a reparar nas loucuras de cada um, e esse é um assunto riquíssimo, que daria anos e anos de descrição.

Outro dia estava andando pela rua e encontrei um homem passeando com um cachorro. Ele parou ao lado de um bueiro, onde estava um monte de lixo jogado e se abaixou para pegar um palitinho de pirulito. Pegou o palitinho, sacudiu um pouquinho e foi embora, segurando o cachorro numa mão e o pirulito na outra.

Na São Silvestre tinha um rapaz que corria de costas. Não sei se queria que o ano não terminasse, que o ano que entrasse fosse o anterior àquele que acabara ou se estava apenas tentando endireitar a coluna (minha mãe me sugeriu esse método para ajeitar a postura).

Os motoristas de ônibus andam pelas ruas feito loucos, tem horas que dá até medo dentro do ônibus. Outro dia pensei que não chegaria viva, sinceramente. Mas o mais louco é que o doido do motorista não atropelou ninguém. Mais loucamente ainda ninguém caiu dentro do ônibus, todos conseguiram se segurar. E ainda mais esquisitamente, quando eu desci do ônibus sorri e agradeci, e no fundo pensei que foi até bom chegar ao destino tão rápido. Sem falar que o louco me pegou fora do ponto de ônibus, coisa que só louco faz hoje em dia, porque eles estão veementemente proibidos de fazer isso.

Outra loucura que vejo são pessoas que levam uma vida cheia de dívidas manterem cachorros semanalmente em pet shops, comprarem pacotes imensos e caros de rações e ainda terem que passar o tempo todo cheirando cocô e xixi, lavando e esfregando a sujeira, aguentando latidos altos e deixando de viajar. Tudo em nome do cãozinho.

Mais louco ainda é quando alguém pede informação na rua e está fácil informar, a rua é aquela ali, primeira à esquerda, e o cidadão vai lá e passa reto, ignorando totalmente nossa generosa colaboração. Sem falar quando checa a informação com quem está ao lado, ah... quando faz isso aí sim, deixa a gente louco da vida.

Loucura é carro novo ter que fazer inspeção de poluentes antes dos mais antigos, antes dos ônibus, carros-fortes (esses sim, deixam uma sujeira danada no ar). E mais loucura ainda é ter que pagar adiantado, para depois ter o dinheiro de volta. E louco da vida mesmo a gente fica quando escuta na televisão que esse serviço é gratuito. Coisa de louco, né?

Sampa é loucura o tempo todo. As enchentes agora aparecem magicamente, em dez minutos está tudo alagado. Mas no dia seguinte não é que tem louco jogando mais sujeira nas ruas, ignorando totalmente a desgraça do dia anterior? Ah, isso me deixa louca.

Raul Seixas, maluco beleza, se estivesse vivo já não seria tão louco. Quando visse crianças no mesmo ambiente, conversando pelo telefone celular, se acharia o cara mais normal do mundo.

Agora fica sempre aquela dúvida, né? Será que a loucura é mesmo do outro, ou é a gente que não consegue compreender um pensamento, uma atitude, uma postura diferente da nossa? Quem falou que todas as leis devem ser respeitadas? O que me garante que alguém não criou aquela norma para benefício próprio? Porque o louco é que está errado e a gente está certo? Acho que talvez seja preciso enlouquecer um pouco, para começar a achar que está tudo normal.

1a. lição do dia

A moça, já não tão moça, animada ao reencontrar por acaso seu grande amor, pergunta ao amigo:
- Você acha que ele também me ama?
O amigo, sincero, responde:
- Eu acho que se ele gostasse de você, estaria ao seu lado. Você não acha?
(R.L.A.N)

Como se fosse dinheiro



(Você se deixa enganar?)

Como se Fosse Dinheiro
(Ruth Rocha)

Todos os dias Catapimba levava dinheiro para escola para comprar o lanche.

Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas.
Mas seu Lucas nunca tinha troco.

Um dia, Catapimba reclamou de seu Lucas:
- Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.
- Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?
- Ah, eu não sei! Só sei que quero meu troco em dinheiro!
- Ora, bala é como se fossa dinheiro, menino! Ora essa...
Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes.
A resposta era sempre a mesma:
- Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro... Então, leve um chiclete, se não gosta de bala.

Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.
No dia seguinte, apareceu com um embrulhão de baixo do braço. Os colegas queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia;
- Na hora do recreio, vocês vão ver...

E, na hora do recreio, todo mundo viu.
Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou de dentro... uma galinha.
Botou a galinha em cima do balcão.
- Que é isso, menino? - perguntou seu Lucas.
- É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro... o senhor pode me dar troco, por favor?
Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.
Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando...
Aí colocou uma moedas no balcão:
- Está aí seu troco, menino!
E pegou a galinha, para acabar com a confusão.

No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do braço.
No recreio, todo mundo foi comprar lanche.
Na hora de pagar...
Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba...

O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de goiabada que ele tinha levado...

Teve gente que também levou galinha, pato, peru...
E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma;
- Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro...

Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.
Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.

Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo.
E sabe o que ela achou?
Pois achou que as crianças tinham razão..
- Sabe, seu Lucas - ela falou -, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse dinheiro muito menos chiclete.
Seu Lucas se desculpava:
- É, mas e se eu não tiver troco?
- Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.

Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.
Naquele dia, nem houve mais aula.
Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.

E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais compridos de troco, seu Ângelo do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.
Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro. É, ou não é?

O dono da bola



O DONO DA BOLA
(Ruth Rocha)

Este é o Caloca. Ele é um amigo legal. Mas ele não foi sempre assim, não. Antigamente ele era o menino mais enjoado de toda a rua. E não se chamava Caloca.
O nome dele era Carlos Alberto.

E sabem por que ele era assim enjoado?
Eu não tenho certeza, mas acho que é porque ele era o dono da
bola.
Mas me deixem contar a história, do começo.

Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha, vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô.
E tinha bicicleta, com farol e buzina, e tinha tenda de índio, carrinhos de todos os tamanhos e uma bola de futebol, de verdade. Caloca só não tinha amigos. Porque ele brigava com todo mundo. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele. Mas futebol ele tinha que jogar com a gente, porque futebol não se pode jogar sozinho.

O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Só bola de meia, mas não é a mesma coisa. Bom mesmo é bola de couro, como a do Caloca. Mas, toda vez que a gente ia jogar com Caloca, acontecia a mesma coisa. Era só o juiz marcar qualquer falta do Caloca que ele gritava logo:
— Assim eu não jogo mais! Dá aqui a minha bola!
— Ah, Caloca, não vá embora, tenha espírito esportivo, jogo é jogo...
— Espírito esportivo, nada! — berrava Caloca. — E não me chame de Caloca, meu nome é Carlos Alberto!

E, assim, Carlos Alberto acabava com tudo que era jogo.
A coisa começou a complicar mesmo, quando resolvemos entrar no campeonato do nosso bairro. A gente precisava treinar com bola de verdade para não estranhar na hora do jogo.
Mas os treinos nunca chegavam ao fim. Carlos Alberto estava sempre procurando encrenca:

— Se o Beto jogar de centroavante, eu não jogo!
— Se eu não for o capitão do time, vou embora!
— Se o treino for muito cedo, eu não trago a bola!
E quando não se fazia o que ele queria, já se sabe, levava a bola embora e adeus, treino.

Catapimba, que era o secretário do clube, resolveu fazer uma reunião:
— Esta reunião é pra resolver o caso do Carlos Alberto. Cada vez que ele se zanga, carrega a bola e acaba com o treino. Carlos Alberto pulou, vermelhinho de raiva:
— A bola é minha, eu carrego quantas vezes eu quiser!
— Pois é isso mesmo! — disse o Beto, zangado. — É por isso que nós não vamos ganhar campeonato nenhum!
— Pois, azar de vocês, eu não jogo mais nessa droga de time, que nem bola tem!
E Caloca saiu pisando duro, com a bola debaixo do braço.



Todas as vezes que o Carlos Alberto fazia isso, ele acabava voltando e dando um jeito de entrar no time de novo. Mas, daquela vez, nós estávamos por aqui com ele. A primeira vez que ele veio ver os treinos, ninguém ligou.

Ele subiu no muro, com a bola debaixo do braço como sempre, e ficou esperando que alguém pedisse para ele jogar. Mas ninguém disse nada. Quando o Xereta passou por perto, ele puxou conversa:
— Que tal jogar com bola de meia?
Xereta deu uma risadinha:
— Serve...

Um dia, nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time do Faz-de-Conta, que é um time lá da rua de cima. Mas foi por pouco tempo. A primeira vez que ele quis carregar a bola no melhor do jogo, como fazia conosco, se deu muito mal... O time inteiro do Faz-de-Conta correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do Batata.

Aí, o Carlos Alberto resolveu jogar bola sozinho. A gente passa¬va pela casa dele e via. Ele batia bola com a parede. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido. Porque, depois de três dias, o Carlos Alberto não agüentou mais. Apareceu lá no campinho.

— Se vocês me deixarem jogar, eu empresto a minha bola.
— Nós não queremos sua bola, não.
— Ué, por quê?
— Você sabe muito bem. No melhor do jogo você sempre dá um jeito de levar a bola embora.
— Eu não, só quando vocês me amolam.
— Pois é por isso mesmo que nós não queremos, só se você der a bola para o time de uma vez.
— Ah, essa não! Está pensando que eu sou bobo?

E Carlos Alberto continuou sozinho. Mas eu acho que ele já não estava gostando de estar sempre sozinho. No domingo, ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico. Na segunda, levou o Beto para ver os peixes na casa dele. Na terça, me chamou para brincar de índio. E, na quarta, mais ou menos no meio do treino, lá veio ele com a bola debaixo do braço.

— Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?
Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Mas não podíamos dar o braço a torcer.
— Olha, Carlos Alberto, você apareça em outra hora. Agora, nós precisamos treinar — disse Catapimba.
— Mas eu quero dar a bola ao time. De verdade!
Nós todos estávamos espantados:
— E você nunca mais pode levar embora?
— E o que é que você quer em troca?
— Eu só quero jogar com vocês...

Os treinos recomeçaram, animadíssimos. O final do campeonato estava chegando e nós precisávamos recuperar o tempo perdido. Carlos Alberto estava outro. Jogava direitinho e não criava caso com ninguém.

E, quando nós ganhamos o jogo final do campeonato, todo mundo se abraçou.
A gente gritava:
— Viva o Estrela-d'Alva Futebol Clube!
— Viva!
— Viva o Catapimba!
— Viva!
— Viva o Carlos Alberto! — Viva!
Então, o Carlos Alberto gritou:
— Ei, pessoal, não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca!

A menina e o tempo

Era uma vez, uma menina muito legal.
Ela vivia sozinha por aí, procurando um menino que pudesse namorar com ela. Ela sempre sonhava com esse dia, e procurava pelo menino em toda parte.
Até que um dia ela viu um menino que parecia ser exatamente aquele dos sonhos dela.
Ele sorriu para ela, e conversaram durante algum tempo.

Durante a conversa, o coração da menina foi batendo forte, acelerado, e começou a ficar tão grande que não cabia mais no peito.
Ela estava ficando sufocada com aquele coração tão grande, tão grande...
Foi então que ela teve uma idéia: precisava contar para ele como estava se sentindo e perguntar se ele sabia que coisa estranha era aquela.
Ele tinha cara de quem sabia das coisas e passava a sensação de que poderia resolver todo e qualquer tipo de problema.

Mas será que ele também estava com o coração daquele jeito, todo descompassado?
Teria ele a fórmula para acalmar os corações?
É... quem sabe dividindo essas dúvidas com ele, encontrariam juntos uma resposta e uma solução para tamanho desassossego.
Mas quando ela começou a falar ele estava ocupado, com pressa, e disse que tinha muitas tarefas acumuladas.
Precisava estudar, trabalhar.
Contou que vivia estressado, ansioso.
E que sua vida era a maior empresa do mundo, portanto não poderia permitir que ela fosse à falência.
Disse também que viajava muito, e que, naquele exato momento, não poderia perder tempo com aquela conversa.

O fato é que ele foi embora, e, se não me engano, nem disse "até logo".
Acho que ele não disse porque sabia que não voltaria nunca mais.
E a menina ficou ali, parada, esperando chegar o dia em que ele tivesse um tempinho para ela.
E o coração, que já não cabia mais no peito, continuou apertado... ah tadinho... sofrendo como ele só.

E um dia se passou, e dois, e três... Uma semana, duas, três... Um mês, dois...
Ela voltava sempre naquele lugar onde os dois tinham se encontrado. E nada.
Nada. A menina, pobrezinha, não passou um dia sequer sem esperar pelo menino.
Será que ele estava bem?
Será que tinha acontecido alguma coisa na viagem?
Foi então que ela percebeu que o coração do menino não deveria estar apertadinho no peito como estava o dela.
Claro que não! Se estivesse, ele também sentiria vontade de procurá-la! É sim... é claro! Por isso ele não sentia vontade de voltar e conversar.
Certamente o coração dele estava bem. Estava batendo em outro compasso.
Ele deveria estar vivendo em paz.

Então uma voz disse a ela que, infelizmente, ele não voltaria mais.
A menina não se conformou.
A idéia de não ver mais o menino era insuportável! Ficou desesperada... Sentiu vontade de correr atrás dele, começou a chorar... Ficou transtornada.
Começou a gritar e a chamar pelo menino, mas não adiantou.
Ele já estava muito longe, cuidando da vida dele. Ela, coitada, não sabia nem onde procurar por ele (porque não sabia nem o endereço dele).
E também se soubesse, não iria adiantar.
Pra falar a verdade, ele nem lembrava mais do nome dela.

Como ficou o coraçãozinho da menina?
Ela acabou acreditando na voz, já que Dona Voz foi a única a falar com ela durante aquela longa e dolorosa espera.
A voz disse a ela que, em casos como esse, para sarar de verdade, o único jeito é esperar um pouquinho mais...
Esperar pelo remédio que o tempo traz, um remédio que o Mensageiro do Tempo, um homem invisível, vem dar pra gente enquanto dormimos.
Ele entra durante a noite em nosso quarto, sem fazer barulho, bem de mansinho. É ele quem acalma o coração e faz com que aquela dor - tão doída, se torne menor com o passar dos dias.
Algumas dores acabam virando apenas lembranças.
Outras se transformam em saudades.

Boa noite!

A menina do vestido azul

(Adoro essa história, a autora preciso confirmar, um confronto em duas versões: prosa e poesia, igualmente encantadoras).

Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita. Acontece que essa menina freqüentava as aulas da escolinha local no mais lamentável estado: suas roupas eram tão velhas que seu professor resolveu dar-lhe um vestido novo. Assim raciocinou o mestre: "é uma pena que uma aluna tão encantadora venha às aulas desarrumada desse jeito. Talvez, com algum sacrifício, eu pudesse comprar para ela um vestidinho azul."
Quando a garota ganhou a roupa nova, sua mãe não achou razoável que, com aquele traje tão bonito, a filha continuasse a ir ao colégio suja como sempre, e começou a dar-lhe banho todos os dias, antes das aulas.
Ao fim de uma semana, disse o pai: "Mulher, você não acha uma vergonha que nossa filha, sendo tão bonita e bem arrumada, more num lugar como este, caindo aos pedaços?
Que tal você ajeitar um pouco a casa, enquanto eu, nas horas vagas, vou dando uma pintura nas paredes, consertando a cerca, plantando um jardim?"
E assim fez o humilde casal. Até que sua casa ficou muito mais bonita que todas as casas da rua e os vizinhos se envergonharam e se puseram também a reformar suas residências. Desse modo, todo o bairro melhorava a olhos vistos, quando por ali passou um político que, bem impressionado, disse: "é lamentável que gente tão esforçada não receba nenhuma ajuda do governo".
E dali saiu para ir falar com o prefeito, que o autorizou a organizar uma comissão para estudar que melhoramentos eram necessários ao bairro. Dessa primeira comissão surgiram muitas outras e hoje, por todo o país, elas ajudaram os bairros pobres a se reconstruírem.
E pensar que tudo começou com um vestido azul...
Não era intenção daquele simples professor consertar toda a rua, nem criar um organismo que socorresse os bairros abandonados de todo o país.
Mas ele fez o que podia,
ele deu a sua parte,
ele fez o primeiro movimento,
do qual se desencadeou toda aquela transformação.

***É difícil reconstruir um bairro,***
***mas é possível dar um vestido azul.***

Literatura de Cordel
Autor: Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 01 de outubro de 2005, 13h e 23min.

Licença caros amigos,
Eu sou Francisco Diniz
Literato de cordel,
Mas sempre um aprendiz,
Ando no mundo a falar
Da cultura popular
E isso me faz bem feliz.

E gostaria aqui
De relatar uma história
Que não fui eu que criei,
Eu não tive essa glória,
Eu só pus rima e métrica,
E uma análise poética,
Que permite a memória.

Confesso não a conhecia,
Patrícia a apresentou,
Esta que é supervisora
Do São Marcus, nos mostrou
Na cidade Santa Rita
E esta crônica bonita
Um anônimo noticiou:

- Era uma vez uma garotinha
Bela, pobre, que morava
Num bairro pobre também,
Numa cidade ficava
Distante, longe de tudo
E começou seu estudo
Perto de onde habitava.
-1-

Sua mãe não tinha cuidado
Com aquela bela criança
Que sempre andava suja,
Tinha um mundo sem bonança,
Roupas velhas, maltratadas,
Muitas vezes amassadas
Como a vida e a esperança.

Na escola, o professor,
Ficara penalizado
Com aquela situação
E dizia revoltado:
- "Como pode uma menina,
Mesmo assim tão pequenina,
Andar sempre nesse estado?"

Embora o professor
Vivesse em dificuldade,
Retirou do seu salário,
Com muito boa vontade,
Um pouco do seu dinheiro
E deu o presente primeiro
A menina com bondade.

Um lindo vestido azul
Foi o que ele comprou.
A menina ao usá-lo
Muito mais bela ficou
E sua mãe quando a viu
Felicidade sentiu,
Contudo se lamentou:
-2-

"- Como pode minha filha
Vestindo um traje novo
Ir tão suja pra escola,
O que vai pensar o povo?
Eu vou logo é cuidar
Se não alguém vai falar
Que com ela não me envolvo".

E a mãe passou a dar
À filha mais atenção:
Dar banho todos os dias,
A cortar as unhas e não
Esquecia de pentear
Os cabelos e usar
Perfume, pasta, sabão.

Dentes sempre escovados,
Um agradável odor.
As pessoas percebiam,
O seu pai também notou,
Que depois de uma semana,
Numa atitude bacana,
Timidamente falou:

- "Mulher, não é vergonhoso
Nossa filha tão bonita,
Agora bem arrumada,
Inteligente e benquista,
Morar aqui nesse lugar,
Vendo a hora desabar
Bem aqui na nossa vista?...
-3-

Vamos tomar providências:
Você vai a casa ajeitar
E eu nas minhas horas vagas
Vou as paredes pintar,
Plantar um belo jardim,
Limpar o chão e no fim
A cerca vou consertar".

Um pouco tempo depois,
A casa se destacava
Naquela vila pequena
E agora representava
Higiene, bons odores,
Um jardim de belas flores
Que ao povo encantava.

E os vizinhos ficaram
Bastante envergonhados
Porque moravam em barracos
Feios e desarrumados
E resolveram mudar
A situação do lugar
Que vivia em tal estado.

E de repente no bairro
Todos se interessaram,
Usaram a criatividade,
As suas casas pintaram,
A limpeza imperou
E todo o mundo adorou
Ver as flores que brotaram.
-4-

Um homem que acompanhava
A luta daquela gente,
Tomou iniciativa,
Deu um outro passo a frente,
Foi até a autoridade
Maior daquela cidade
Para dizer imponente

Que o povo se organizava,
Que por isso merecia
A atenção do prefeito
E este que bem ouvia
Deu a autorização
Pra fazer uma comissão
E estudar o que se pedia.

O povo solicitou
Pra rua, melhoramentos.
Onde havia barro e lama
Passou a asfalto ou calçamento,
Esgotos a céu aberto,
Canalizados, por certo,
Reduzia-se o lamento.

O bairro adquiriu
Ares de cidadania.
Foi com um vestido azul
Que tudo começaria,
Não era essa a intenção
Do professor em sua ação,
Mas uma história mudaria.
-5-

Ele fez o que podia,
Sua parte realizou,
Um primeiro movimento
E com isso acabou,
Sem querer, por motivar
Outras pessoas a lutar
E a vida melhorou.

Tal gesto nos faz pensar:
Será que estamos fazendo
Nossa parte, por acaso,
Aonde estamos vivendo?
Ou será estamos somente,
Nesse mundo simplesmente,
Só fingindo e nada vendo?

Será que somos daqueles
Que apenas apontamos
Os buracos pelas ruas
Ou tão somente olhamos
Crianças fora da escola,
O errado que assola
E jamais nos importamos?

É obvio que é difícil
Rápido se modificar
O estado total das coisas
E que não é fácil limpar
Toda rua, toda estrada,
Mas varrer nossa calçada
É possível realizar.
-6-

Sabemos que é difícil
Um planeta reconstruir,
Mas um vestido azul
É fácil adquirir
E principalmente doá-lo
A quem mais necessitá-lo
E não tem a quem pedir.

Há coisas muito importantes
Que têm maior valor
Do que tesouros bancários,
São moedas de amor.
E se forem endereçadas
Na ocasião adequada,
Indenizam qualquer dor.

Um lindo vestido azul,
Esta mensagem quer ser.
Reflita sobre o que aqui
Você no momento ler.
Faça já a sua parte,
Faça da ação estandarte,
Não queira pagar pra ver.

Não fique se ressentindo
Se outros ao seu redor
Estão tentando mudar
A situação pra melhor,
Junte-se a eles também,
Procure fazer o bem,
Vamos desatar o nó.
-7-

Nó que impede a melhoria
Da nossa educação,
Que impede todo o povo
Transformar a condição
De desprezo e de pobreza,
O que me causa tristeza
E muita indignação.

As forças que arrocham o nó
São o egoísmo, a ganância,
Descrença, burocracia,
A preguiça, a ignorância,
A escola sem qualidade,
A justiça sem identidade,
Corrupção e arrogância.

Com um lindo vestido azul
A mudança pode ocorrer,
Com a ação de um professor,
Assim quase sem querer,
Mas vai se consolidar
Quando o povo atuar,
Cobrar e se comprometer...

Com uma vida com justiça,
Uma educação operante,
Com uma nação solidária,
Sem corrupto e sem farsante
E pra isso acontecer
Nós devemos escolher
Certo, nossos governantes.
-8-

FIM

Queridas amigas

Esse é meu amado grupo de amigas, Contadoras de Histórias.

A Jovilde de preto, divertida, inteligente, impagável. Parceira do texto "Olimpíadas na Floresta".
De azul minha professora Diana que ensina, diverte, cria, anima e conta histórias lindamente.
No seu colo a Ana Maria, parceira da Olga (em pé) no texto da "Árvore Curiosa".
Faltaram duas, mas logo logo espero tirar uma foto com todas nós juntas.
obrigada meninas, aprendi demais com vocês.
amigas, companheiras, altruístas e que abraçam com amor.

Parceira e amiga


Essa foto foi depois da apresentação das histórias na Livraria da Vila.
De azul, minha irmã Angelina.
(Sempre comigo em toda parte em todo evento literário sem reclamar - s2)
Eu e a Olga, criadora da história da Árvore Curiosa.
(Uma amiga querida, nos conhecemos outro dia mas estamos juntas na vida há longa data)

Caixa de Estrelas



Era uma vez uma menina apaixonada.
Toda noite, quando ela ia dormir, via seu quarto se encher de estrelas.
Essas estrelas brilhavam tanto que muitas vezes não a deixavam dormir.
Era preciso levantar, guardar as estrelinhas numa caixinha e então tentar dormir novamente.
Toda noite o fato se repetia.

A menina foi guardando guardando as estrelinhas, até ter duas caixinhas cheinhas delas.
As estrelas eram tão lindas que ela teve uma idéia: mesmo quase não encontrando o menino por quem ela estava apaixonada, decidiu dar a ele uma caixinha de presente.

Ela tentou muitas vezes, mas ele andava sempre ocupado.
Uma hora não estava em casa, outra hora não queria recebê-la.
Até que um dia ela conseguiu dar o presente.
Ele abriu a caixinha e de lá saía uma luz muito forte, que chegou a incomodá-lo.
Ele agradeceu e se despediu, deixando a caixinha num canto.
Pra falar a verdade ele só não a jogou fora porque aquele não era o dia do lixeiro.

Mas, no dia seguinte, aquela cidade inteira ficou sem energia.
O menino estava desprevenido, não tinha velas nem lanterna.
Procurou bastante, em todo lado, e na pressa da procura, acabou abrindo a caixinha.
A caixinha iluminou a casa toda, fazendo com que, naquela noite escura, todos pudessem andar pela casa sem medo.
Na casa da menina, aconteceu a mesma coisa.

Naquela noite, aquelas eram as duas únicas casas da cidade onde não faltou luz.
Os vizinhos, curiosos, perguntaram à menina onde tinha conseguido aquelas estrelas radiantes e lindas, que podiam ser vistas por quem passava na rua, há muitos metros de distância.

Ela então explicou que era fruto de seus sonhos e que no começo a incomodavam, mas depois, foi guardando com carinho sabendo que um dia poderiam servir.
O menino também explicou que só não faltou luz em sua casa, porque, por sorte, não jogou o presente fora.

Daquele dia em diante, toda a cidade começou a guardar e presentear as pessoas amadas com estrelinhas.

Naquela cidade, ninguém nunca mais se preocupou com a falta de luz.

O anel

(Autor Desconhecido)
Em um pequeno vilarejo vivia um velho professor, que de tão sábio, era sempre consultado pelas pessoas da região.
Uma manhã, um rapaz que fora seu aluno, vai até a casa desse sábio homem para conversar, desabafar e aconselhar-se.
- Venho aqui, professor, porque sinto-me tão pouca coisa, que não tenho forças para fazer nada.
Dizem-me que não sirvo para nada, que não faço nada bem, que sou lerdo e muito idiota.
Como posso melhorar?
O que posso fazer para que me valorizem mais?
O professor sem olhá-lo, disse:
- Sinto muito meu jovem, mas não posso ajudar-te.
Devo primeiro resolver meu próprio problema. Talvez depois. E fazendo uma pausa falou:
- Se você ajudasse-me, eu poderia resolver este problema com mais rapidez e depois, talvez, possa ajudar-te.
- C... Claro, professor, gaguejou o jovem, mas sentiu-se outra vezdesvalorizado e hesitou em ajudar seu antigo professor.
O professor tirou um anel que usava no dedo pequeno, deu ao rapaz, e disse:
- Monte no cavalo e vá até o mercado. Devo vender esse anel porque tenho que pagar uma dívida. É preciso que obtenhas pelo anel o máximo valor possível, mas não aceitemenos que uma moeda de ouro. Vá e volte com a moeda o mais rápido possível.
O jovem pegou o anel e partiu. Mal chegou ao mercado, começou a oferecer o anel aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, até quando o jovem dizia o quanto pretendia pelo anel.
Quando o jovem mencionava uma moeda de ouro, alguns riam, outros saiam sem ao menos olhar para ele, mas só um velhinho foi amável a ponto de explicar que uma moeda de ouro era muito valiosa para comprar um anel. Tentando ajudar o jovem, chegaram a oferecer uma moeda de prata e uma xícara de cobre, mas o jovem seguia as instruções de não aceitar menos que uma moeda de ouro e recusava as ofertas.
Depois de oferecer a jóia a todos que passaram pelo mercado, abatido pelo fracasso, montou no cavalo e voltou. O jovem desejou ter uma moeda de ouro para que ele mesmo pudesse comprar o anel, livrando assim seu professor das preocupações.
Dessa forma ele poderia receber a ajuda e conselhos que tanto precisava.Entrou na casa e disse:
- Professor, sinto muito, mas é impossível conseguir o que me pediu. Talvez pudesse conseguir 2 ou 3 moedas de prata, mas não acho que se possa enganar ninguém sobre o valor do anel.
- Importante o que disse, meu jovem... contestou sorridente. Devemos saber primeiro o valor do anel. Volte a montar no cavalo e vá até o joalheiro. Quem melhor para saber o valor exato do anel? Diga que quer vender o anel e pergunte quanto ele te dará por ele. Mas não importa o quanto ele te ofereça, não o venda...Volte aqui com meu anel.
O jovem foi até o joalheiro e deu-lhe o anel para examinar. O joalheiro examinou o anel com uma lupa, pesou o mesmo, e disse:
- Diga ao seu professor, que se ele quiser vender agora, não posso dar mais que 58 moedas de ouro pelo anel.
- 58 MOEDAS DE OURO!!! - exclamou o jovem.
- Sim, replicou o joalheiro. Eu sei que com tempo eu poderia oferecer cerca de 70 moedas, mas se a venda é urgente...
O jovem correu emocionado à casa do professor para contar o que ocorreu.
- Sente-se - disse o professor.Depois de ouvir tudo o que o jovem contou-lhe, falou:
- Você é como este anel, uma jóia valiosa e única, e que só pode seravaliada por um "expert".
Pensava que qualquer um podia descobrir o seu verdadeiro valor? E, dizendo isto, voltou a colocar o anel no dedo.
- Todos somos como esta jóia: valiosos e únicos, e andamos por todos osmercados da vida pretendendo que pessoas inexperientes nos valorizem. Você deve acreditar em si mesmo. Sempre!
"Ninguém pode fazê-lo sentir-se inferior sem o seu consentimento."

Olimpíadas na Floresta

(essa história foi uma tiração de sarro das Olimpíadas de Pequim)

Olimpíadas na Floresta

Era uma vez uma floresta cheia de bichos. Como em toda floresta que se preze, o leão era o rei dos animais. Gostava muito do título de rei, porque todas as atenções estavam voltadas para ele. Todo e qualquer acontecimento da floresta tinha que passar antes pela sua aprovação. Nada ali poderia escapar ao seu controle.

Mas o leão andava triste pois já fazia um bom tempo que não encontrava uma namorada. A única leoa da floresta era sua sobrinha. Ela era filhote, e, junto com ele, foi a única que conseguiu escapar da caçada que os homens brancos promoveram pra se divertir numa viagem de férias. Vira e mexe alguns homens apareciam por ali e saíam caçando os animais. Matavam somente por diversão.

Assim o leão ficou sem sua leoa e sem boa parte de sua família. Estava muito aborrecido, solitário, então decidiu que a floresta precisava de um agito. Quem sabe uma grande festa?

Chamou todos os bichos para uma assembléia geral. Veio todo mundo: o elefante, o grilo, as formigas, as garças, o macaco. Não faltou ninguém. Juntos decidiram organizar uma Olimpíada. Seria uma grande festa de confraternização onde todos poderiam mostrar seus dotes.

O Urso Popó era bom no boxe. A Macaca Lili, no salto com vara. As Garças Gêmeas no nado sincronizado. As Tartarugas, no futebol. O Coelho na corrida com obstáculos. Na natação, o Pato Carlos Tierra dava show. O Leão, presidente do comitê, pediu para sua assistente tomar nota de tudo.

A história do evento agitou a floresta e todo mundo começou a treinar - para não fazer feio no dia. Claro, ninguém queria dar vexame, então começaram a se esforçar pra valer. O leão passeava pela floresta e via que todos estavam muito felizes. Mas conforme o Leão via toda aquela animação, seu coração ficava cada vez mais triste. Olhava para os animais tão alegres e saltitantes, animados pela possibilidade de brilharem em suas habilidades individuais, e ia ficando cada vez mais encolhido.

E os dias foram passando, os bichos treinando e o leão fiscalizando. Estavam todos cada vez mais afiados e separando seus uniformes e instrumentos, para que o dia das apresentações fosse inesquecível. É claro, quem não gosta de brilhar? Então a preparação era máxima! A expectativa, imensa. A festa seria histórica, como aquela floresta nunca vira!

Finalmente chegou o grande dia! A floresta estava toda enfeitada, as folhas varridas, tudo em ordem. Os bichos se colocaram a postos, esperando pelas grandes apresentações.

O primeiro a se apresentar era o Urso Popó. Mas, enquanto se arrumava, deu falta de suas luvas. Começou a procurar e pediu para que a apresentação da macaca Lili acontecesse primeiro, para não atrasar o início da festa. Porém, a macaca Lili foi procurar a sua vara e ela não estava lá. Tinha sumido. Começou a procurar em toda parte, a reclamar e a chorar... mas não teve jeito... ninguém encontrou a vara da Macaca Lili.

As Garças Gêmeas começaram a ficar desconfiadas e saíram procurando pelos seus maiôs. E os maiôs também tinham sumido. As Tartarugas, que iriam jogar com casco verde e amarelo, descobriram que eles tinham sido pintados de azul e branco. O tênis do Coelho sumiu. O calção do Pato também. O fato é que alguém sabotou todas as apresentações e as Olimpíadas tiveram que ser canceladas.

Os bichos ficaram em círculo, desolados da vida. Quem teria sumido com os uniformes? Quem teria roubado os materiais? Decidiram recorrer à conselheira do comitê, a Dona Coruja, que teve a idéia de contratar o Castor Sherlock Holmes para fazer uma investigação e desvendar o mistério dos estranhos sumiços.

O Castor, como grande detetive que é, percebeu que naquele momento, todos eram suspeitos e nenhum habitante da floresta era de confiança. Foi buscar ajuda na floresta vizinha, pois lá morava uma leoa chamada Gisele que era amiga dele e costumava ajudá-lo em casos difíceis. Ela era linda e inteligente, tinha sempre boas idéias.

Após explicar a situação, a Leoa Gisele aceitou entrar em cena e teve a idéia de seduzir o Leão para uma balada. Assim poderia conversar bastante com ele e obter informações preciosas sobre o comportamento dos bichos daquela floresta, sem levantar suspeitas.

Quando o Leão viu a Leoa Gisele... nossa!!! Ficou maravilhado... Já na primeira conversa combinaram de sair pra uma balada que acontecia sempre, lá perto da cidade. Era uma planície de terra batida, perto do rio. A música, que tocava a noite toda, vinha de um barzinho da cidade que ficava longe, lá do outro lado do rio. Mas o som se propagava num vale e, com a ajuda da água, a música chegava alta que só vendo... Tocava a noite toda. Era muito animado.

Nessa noite, o Castor aproveitou para investigar a toca do leão e procurar pelos uniformes e pelo material que havia sumido. Aquela seria a única oportunidade de entrar naquele lugar perigoso sem ser surpreendido.

Chegando lá, foi fácil encontrar... a ponta da vara da macaca Lili já denunciava o autor da sabotagem. Atrás de umas pedras, estavam o tênis do coelho, os maiôs das garças e as latas de tinta com que o casco das tartarugas foram pintados.

Logo de manhã, todos os animais estavam esperando o Leão voltar da balada, juntamente com a Leoa Gisele. Eles chegaram cansados, afinal, tinham dançado a noite toda. Mas a recepção foi complicada... afinal ele era o culpado, não teve como negar.

Assim que foi desmascarado, acabou confessando que estava se sentindo muito sozinho, deprimido, e não suportava a idéia de perder a única coisa que tinha, que era o brilho de seu reinado, seu poder total e absoluto. Gostava de ser o alvo central das atenções. Com as apresentações, temia que os outros bichos fossem mais admirados que ele (disse isso enquanto penteava a sua linda juba).

Com tudo esclarecido, os animais decidiram destituir o Leão do poder, pois ele não era mais digno da confiança dos habitantes da floresta.

Naquele mesmo dia, de posse de seus instrumentos e aparatos, os bichos fizeram suas apresentações e as Olimpíadas ocorreram como todos esperavam. O pato nadou, a macaca saltou, as garças brilharam. O coelho correu e as tartarugas jogaram. O urso lutou e deu tudo certo.

Ao final das apresentações, distribuíram medalhas para todos os participantes. Todos ficaram felizes, mas ainda havia uma coisa a ser feita: a coroa do Rei Leão precisaria ocupar a cabeça de alguém de confiança. Então a Coruja decidiu eleger um animal tão bonito quanto o leão, porém mais inteligente e responsável.

A eleita foi a Leoa Gisele, que ficou muito envaidecida pelo convite e, com lágrimas nos olhos, aceitou ser a rainha da floresta. Prometeu retribuir a confiança de todos e seu primeiro passo foi ensinar ao Leão que cada um tem seu talento e todos temos defeitos e virtudes. Por isso mesmo ela iria perdoá-lo. O Leão, ainda envergonhado, aceitou ser comandado por ela e, mais tarde, acabaram se casando. Tiveram muitos filhotes e novamente aquela floresta passou a ter uma grande família de leões.

E a paz voltou a reinar no mundo dos bichos.


(escrita por mim, pela Rita e pela Jovilde, durante o curso de Contação de Histórias na Livraria da Vila - agrada até adolescentes, principalmente quando relembram o contexto das Olimpíadas que acabaram)

A Árvore Curiosa


(Uma história para os que vivenciam o luto)

Era uma vez uma árvore que ficava às margens de um rio. Era uma árvore adulta, alta, de tronco grosso e galhos vistosos. Estava ali há muitos e muitos anos, sempre no mesmo lugar. Na verdade, ela estava vivendo ali há décadas e décadas. Era uma árvore centenária.

O rio, sempre correndo, vinha de algum lugar que ela não sabia e ia para outro que ela desconhecia. Ela sentia vontade de crescer cada vez mais, ficar cada vez mais alta pra ver se conseguia enxergar a nascente do rio e também para onde ele corria sem cessar. Era uma árvore curiosa.

Antigamente, ela se concentrava bastante e aos poucos, conseguia ir ficando um pouco mais alta. Sua visão ia se ampliando, mas não era suficiente para enxergar o que queria. O problema é que havia algumas décadas que ela não conseguia ganhar mais altura, então a paisagem passou a ser mais ou menos sempre a mesma.

Eu digo mais ou menos porque em volta, algumas coisas se modificavam. As árvores que ficavam em volta dela também foram crescendo junto com ela. A sensação que dava era que estavam todas sempre do mesmo tamanho, já que cresciam praticamente juntas. A verdade é que eram todas muito curiosas.

Mas chegou um dia em que ela começou a perceber que já não conseguia mais crescer. Por mais que se concentrasse, sua altura continuava sempre a mesma. E os anos foram passando.

Ela olhava em volta e ficava entediada: aquelas árvores que não se mexiam além do que o vento mandava, faziam com que todos os dias parecessem iguais. Ela buscava consolo olhando o rio correr, e desejando, um dia, ser como ele. Ativo, cristalino, audaz. Também invejava os passarinhos que naquela região moravam. Os passarinhos sim eram felizes – podiam alcançar outros horizontes! Eram leves, coloridos e donos do próprio destino.

Ah... como era triste ser árvore... ficar presa ao chão, não poder andar, correr, pular. Não poder abraçar. Fazer visitas. Mudar de ares. Ela era totalmente dependente do clima e do humor da Sra. Natureza. Se o sol ia dormir, tudo escurecia. Se a lua estava escondida, nada se via. Se o vento estava forte, suas folhas caíam. Os passarinhos se aproveitavam de sua fragilidade e de sua imobilidade e vinham bicar suas flores. Deixavam-nas caírem ao chão, numa queda livre, lá do alto... Ficavam olhando o tombo que elas levavam e saíam voando, dando risada.

Sua tristeza aumentava a cada dia. Sempre olhava para o céu e pedia para se transformar em rio ou passarinho. Sabia que lá no alto existia um Deus, o criador do mundo, e que para ele nada era impossível. Começou a prestar atenção aos desenhos das nuvens. Neles procurava respostas para suas preces.

Até que um dia o sol estava brilhando muito forte e algumas nuvens começaram a se formar. As nuvens estavam muito escuras, e cada vez mais e mais delas começaram a surgir lá longe... na linha do horizonte. Movimentavam-se rapidamente, formando uma nuvem gigante que se aproximava numa velocidade incrível.

O vento já estava tão forte que todas as árvores chacoalhavam pra lá e pra cá, numa dança ritmada e alarmante. As folhas começaram a cair aos montes. O vento uivava e a nuvem começou a tomar todo o céu. O dia virou noite e os animais foram se esconder às pressas.

Começou então a maior chuva que a terra já viu. A chuva vinha grossa e barulhenta, os pingos cortavam as folhas das árvores. O vento continuava forte, trazendo consigo medo e destruição. Os galhos mais frágeis começaram a se soltar e voavam soltos pelo ar. O rio, correndo cada vez mais rápido, já começava a arrastar a vegetação que se encontrava pela margem.

A chuva começou a aumentar, e a Árvore Curiosa começou a ficar com muito medo. Ela estava com frio e machucada. Muitos de seus galhos já haviam sido levados por aquele vendaval e agora, o rio já carregava a terra que alimentava suas raízes. O céu continuava negro, e apenas os raios o iluminavam de quando em quando. Nesse meio tempo, trovões assustadores davam o tom do clima de terror que se instaurara naquele lugar.

E a chuva foi chovendo forte, o vento ventando bravo, já não havia mais rio nem mata. Apenas uma grande inundação carregando animais, terra e plantas. A água corria suja e desgovernada. A Árvore Curiosa, nesse momento, era apenas uma árvore sem folhas. E sua raiz já não tinha mais chão firme. Planava em barro e lama. Até que a correnteza foi mais forte do que ela e a carregou.

Começava então a viagem de nossa árvore: muita sujeira e aventura pela frente. Ela estava estranhando aquela posição, pois era a primeira vez na vida que ficava deitada. Estava acostumada a olhar tudo do alto, intocável... Aquela situação, com seu tronco todo molhado e sujo de lama, vários obstáculos colidindo com ela pelo caminho e a sensação de bater a qualquer momento, faziam com que ela ficasse cada vez mais assustada. Pra dizer a verdade, apavorada.

A alma da árvore foi se encolhendo, encolhendo.. ela ficou escondidinha bem no centro dela, na tentativa de se afastar dos perigos, das dores e poder aproveitar a viagem durante um pouco mais de tempo. Afinal, embora não esperasse por tamanha mudança, aquela oportunidade de ganhar novos panoramas foi tudo o que ela sempre pediu a Deus. Então, embora soubesse que talvez não sobrevivesse muito tempo, teria que aproveitar aqueles últimos momentos ao máximo.

Com o tempo, a chuva foi diminuindo, o sol voltando a aparecer e o rio começou a correr mais devagar. A árvore, que continuava boiando pelas águas, pôde começar a admirar a nova paisagem: vegetações que ela desconhecia, algumas casas à beira do rio, crianças brincando, pescadores e até mesmo animais que ela nunca tinha visto passavam pela sua frente.

Até que um grande impacto foi sentido: ela se enroscara à margem do rio, num grande acumulado de galhos - sujeira trazida com ele que fora depositada naquele trecho da corrente de águas. Ela ficou ali, continuou boiando e, novamente imóvel, começou a pensar qual seria seu futuro.

Uma família que morava ali perto, cuidava muito daquele local. Olhando para a árvore enroscada naquele trecho do rio, logo previram que um prejuízo muito grande poderia ocorrer. As águas poderiam desviar seu curso e inundar as casas. Então chamaram várias pessoas da comunidade que juntaram suas forças para puxar aquele grande tronco do rio. Àquela altura, a Árvore Curiosa se resumia a apenas um grande tronco, pois seus galhos ficaram pelo caminho.

Após muito esforço, a Árvore Curiosa foi retirada do rio e colocada à sua margem. Ficou ali durante alguns dias, servindo de assento às crianças e à população da região que durante o dia passava por lá. A alma da árvore continuava ali, escondidinha, pois seu tronco era muito grosso, forte, centenário. Não era do dia pra noite que apodreceria. Aquela madeira era nobre. Resistiria ainda por muitos e muitos anos.

Até que um dia, olhando para aquele tronco imenso, os pescadores da região decidiram aproveitá-lo. Retiraram sua casca com cuidado para fazer um barco. Sobre a casca, passaram um produto chamado impermeabilizante, que transformaria aquele barco no melhor e mais forte de toda a região. Lá dentro, muitas pessoas viajaram e contaram histórias. Pescaram, sorriram e foram felizes.

Com o miolo do tronco, onde estava a alma da Árvore Curiosa, as mulheres dos pescadores fizeram uma linda escultura, em homenagem ao homem mais poderoso da região. Essa escultura, mais tarde, foi colocada na praça principal desse vilarejo, que cresceu e se transformou numa grande cidade.

A Árvore Curiosa navegou por diferentes caminhos, morou bem ao centro da praça principal da cidade, aprendeu muitas histórias e durou para sempre. Ficou viva em forma de barco e em forma de escultura. Naquela cidade, muitos chegaram e partiram. Mas a A Árvore Curiosa está lá até hoje.

E se um dia ela deixar de ser barco ou deixar de ser escultura, com certeza se transformará num móvel, num banco, numa caixa. Porque ninguém nunca morre. A gente apenas se transforma e passa a existir de outras formas, em outros lugares.

(Escrita por mim, Olga e Ana Maria, durante o curso de Contação de Histórias na Livraria da Vila)
Vale a pena ser guardada para consolar quem perdeu pessoas queridas e para aqueles que não sabem lidar bem com a morte.